A doação deve ser pensada a montante dela mesma, nela mesma ou em seu redobramento.
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Pois, no caso de uma “realidade” exteriorizadora como a doação, pensar a doação sem referência a ela mesma é ser impelido a pensá-la por relação àquilo que ela dá.
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É pensá-la como a doação de algo.
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É somente quando se pensa o redobramento da doação, o “il y a” do ser, que se pensa a doação enquanto tal.
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A doação é um elemento complexo e não se pode apreendê-la como se apanharia qualquer outro ente.
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A doação tem uma essência centrífuga; ela tem por ser o estar fora de si.
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Pensá-la como simples doação é, portanto, ser arrastado por ela, sofrer sua força centrífuga, e encontrar-se naturalmente naquilo que ela dá: o ente.
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Mas redobrá-la, pensá-la em si mesma, pensar a tenção de sua presença, é pensar para sua origem.
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Isso não é ultrapassá-la para uma substância mais profunda que ela mesma, é apenas pensá-la em seu ser de doação.
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A doação tem por ser o estar fora de si.
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Pensar a doação é apreendê-la na totalidade de seu ser-fora-de-si.
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É, portanto, não permanecer junto dela mesma simplesmente, o que nos arrasta em seu movimento.
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É ver a própria essência que a porta, aquilo que a dá como doação.
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Aquilo que dá a doação não está de algum modo colocado sob a doação como um mais originário.
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É a própria doação como totalidade, e não mais como confundida com aquilo que ela dá.
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Redobrar a doação é voltar a ela, é dela fazer um elemento próprio.
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Esse é o único meio de guardá-la ao pensamento, é manifestar seu mistério e por conseguinte sua presença.
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Apreendê-la como isso e nada mais é perdê-la e não poder resistir à sua pulsão doadora.
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Para o pensamento, não perder-se nela é perdê-la.
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Redobrar a doação é manifestar a doação ela mesma.
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É pensar o “il y a” da presença ele mesmo em seu mistério, o que não quer dizer outra coisa que sua presença.
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É pensar o “il y a” do tempo e o “il y a” do ser.
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Isso não se produz quando se toma o ser como ser que dá o ente, ou o tempo como tempo que dá o presente.
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Nesses casos, esse ser ou esse tempo permanecem impensados em si mesmos.