Diferentemente da circularidade hegeliana, na qual o processo visa a reapropriação plena de si pelo Absoluto, a circularidade heideggeriana conserva o caráter irredutível do mistério, pois o ser não se recolhe para se possuir, mas para deixar-ser.
O ser quer ser pensado como ser, o que implica que ele se dirija ao si enquanto aquele que pode suportar a experiência de um dar-se que não se entrega como objeto.
A bondade do ser consiste precisamente em não se impor, pois impor-se destruiria a possibilidade de resposta livre por parte do si.
O Seinlassen não é uma atitude subjetiva acrescentada à existência, mas o próprio modo de operar do ser enquanto tal, do qual o si participa ao consentir em deixar-ser.
A diferença decisiva entre Entlassung e Seinlassen reside no fato de que o primeiro deixa-ser os entes em vista de um processo que os ultrapassa, enquanto o segundo deixa-ser o próprio deixar-ser como mistério.
O Seinlassen não pode ser integrado a uma economia dialética, pois ele não produz reconciliação nem retorno, mas mantém aberta a ferida da diferença ontológica.
A Gelassenheit não é passividade psicológica nem resignação moral, mas consentimento ontológico ao retraimento do ser.
O si é chamado a deixar-ser o deixar-ser, isto é, a não capturar o próprio gesto pelo qual o ser se doa.
A negatividade hegeliana não interroga a origem do não, pois o não é sempre já subordinado à positividade do processo.
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O não não é fonte.
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Ele é momento.
Em Heidegger, ao contrário, o não-ente deve ser pensado como abismo originário, pois é nele que o ser se reserva ao doar-se.
A retenção do ser não é empobrecimento, mas excesso, pois apenas aquilo que se contém pode doar sem se dissipar.
O ser retém-se para preservar a possibilidade de novos surgimentos, fazendo da reserva o lugar da fecundidade ontológica.
O si situa-se na béance do sem-fundo, não como fundamento, mas como aquele que suporta a instabilidade constitutiva da origem.
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A ipseidade não repousa.
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Ela sustenta.
A angústia é a primeira forma sob a qual o apelo do ser se faz sentir, pois nela o ente perde sua solidez e o ser aparece como excesso inapreensível.
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A angústia não engana.
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Ela desvela o abismo.
O ser não aparece inicialmente como ser, mas como ameaça de dissolução de toda positividade.
O si é aquele que deve responder ao apelo do velamento, não dissolvendo-o em conceitos, nem recusando-o por fuga.
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Responder não é dominar.
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É sustentar.
A partir da página 1220, o texto aprofunda a ideia de que o retraimento do ser é liberação de espaço para um apelo, pois somente um ser que não ocupa todo o espaço pode chamar.
O retiro cria o intervalo no qual o si pode advir como resposta, fazendo do espaço aberto o lugar da ipseidade.
O apelo do ser não se dirige a um sujeito já constituído, mas produz o si ao ser acolhido.
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O si nasce da resposta.
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Ele não a precede.
O Versagen não deve ser interpretado como fracasso, mas como renúncia ativa do ser a ocupar o lugar do ente.
O Versagen prolonga o Seinlassen ao impedir que o ser se converta em objeto de consumo ontológico.
A obscuridade do ser não é sinal de negatividade pessimista, mas de cuidado para com o finito.
O Grundlos deve ser pensado como Ab-grund, isto é, como excesso de gratuidade e não como carência de fundamento.
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O sem-fundo não oprime.
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Ele liberta.
A bondade do ser consiste em apagar-se para que algo outro possa ser, sem exigir retorno nem reconhecimento.
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O ser não reivindica.
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Ele confia.
A ipseidade alcança sua verdade quando aceita não possuir o ser, mas apenas guardá-lo na resposta.
O si verdadeiro não se afirma contra o ente nem contra o ser, mas permanece no entre-dois que ambos exigem.
A circularidade se fecha sem se fechar, pois o ser retorna ao ser através de um si que não o esgota.