A publicação recente de inéditos e estudos convida a retomar a questão, partindo de duas teses solidárias: o pensamento de Heidegger elaborou-se na tensão permanente entre filosofia e teologia, e essa relação obedece a um triplo tópico.
-
Este argumento implica um duplo recuso: recusar entender a relação como uma simples “tese” entre outras, limitando-se a três textos prestigiosos, e recusar considerá-lo apenas um “tema” de releitura sistemática, o que revela esquemas mas não o movimento do pensamento.
-
Uma análise sincrônica e diacrônica revela a plurivocidade dos termos “teologia” e “filosofia” no corpus heideggeriano.
-
“Teologia” reporta-se a três esferas: a teologia neotestamentária; a teologia como constituinte da metafísica ocidental; a teologia ligada a uma nova demanda do divino.
-
“Filosofia” apresenta uma tripla filiação: como questionamento da questão do ser; como percurso concluído da metafísica ocidental; como codificação disciplinar da experiência do pensamento.
-
Esta diversidade de significações aponta para três tópicos do relacionamento entre filosofia e teologia.
-
Um primeiro tópico concerne a relação “Filosofia e teologia bíblica”, onde a ciência ontológica, voltada à questão do ser, debate-se com a teologia cristã, ciência ôntica elaborada a partir da fé no Deus crucificado.
-
Um segundo tópico manifesta a solidariedade inaugural e histórica na relação “Filosofia e onto-teologia”, através da revelação da constituição onto-teológica da metafísica, trabalhada em autores como
Kant,
Hegel e
Nietzsche.
-
Um terceiro tópico, a partir dos anos 1930, determina a relação “Pensamento do ser e espera de deus”, onde a ocorrência possível de um deus divino deve ser pensada na abertura do Ser, para além de toda referência cristã.
-
O presente estudo objetiva apresentar os três tópicos exatos da questão, recolher os motivos de sua elaboração e interrogar a natureza das relações entre filosofia e teologia, incluindo um anexo com a lista integral dos textos de Heidegger.