FIGURA DO “CAMINHO” (2024)

Ausência : sobre a cultura e a filosofia do extremo oriente / Byung-Chul Han ; tradução de Rafael Zambonelli. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2024.

Heidegger sempre foi tocado pelo pensamento do Extremo Oriente. Mas, em muitos aspectos, permaneceu um pensador ocidental, um filósofo da essência. Até o seu silêncio é eloquente. Ele está a caminho do “velado”, da “origem” que foge à palavra. Assim, a verdade deve ser “silenciada”. Uma frase famosa de Heidegger em A caminho da linguagem diz: “um ‘é’ se dá, onde se interrompe a palavra. Interromper significa devolver o elemento sonoro da palavra para o não sonoro, para onde ela antes se resguardava: consonância do quieto […]”1). Heidegger também usa muitas vezes a figura do “caminho”. Mas o seu “caminho” é diferente do caminho como dao. Os “caminhos de floresta” terminam “bruscamente” “no não trilhado”. Eles se aprofundam “na localidade que se recusa no inacessível” (GA13:223). O caminho do taoísmo não conhece essa brusquidão ou profundidade. Ele não se retira para o “não trilhado” ou para o “inacessível”. O dao é um modo de caminhar. Ele só escapa a uma determinação porque está constantemente mudando seu curso. A dialética entre escuridão e luz, entre velamento e desvelamento, entre revelação e retirada 2), não é o traço fundamental do dao.

1)
Heidegger, M. A caminho da linguagem (GA12). Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/Editora Universitária São Francisco, 2003, p. 171.
2)
Heidegger fala em uma “penúria da escuridão hesitante na luz que espera” (Ibid., p. 222).