Tópicos do Prólogo de Byung-Chul Han. Contro la società dell’angoscia. Torino: Einaudi, 2025
* A angústia circula como espectro ao manter todos permanentemente face a face com cenários apocalípticos recorrentes como pandemia, guerra mundial e catástrofe climática, tornando cada vez mais frequente a evocação do fim do mundo ou da civilização humana como iminente, simbolizada pelo Relógio do apocalipse que em 2023 marcou 90 segundos para a meia-noite, a menor distância já registrada.
* As apocalipses também são convertidas em oportunidades vendáveis, pois apocalipses vendem e o estado de ânimo do fim dos tempos se expande tanto no mundo real quanto na literatura e no cinema, com Don DeLillo narrando em Il silenzio um apagão total e com a climate fiction consolidando-se como gênero, enquanto Amigo da terra de T. C. Boyle expõe dimensões apocalípticas da mudança climática.
* A crise aparece como situação multifacetada em que, carregados de angústia, olhares se voltam para futuro sombrio e a esperança se ausenta, levando a vida a atrofiar-se em sucessão de dificuldades e catástrofes até transformar viver em sobreviver, ao passo que somente a esperança restitui um viver além da sobrevivência ao abrir horizonte de sensatez que reanima e dá futuro.
* O clima difuso de angústia sufoca sementes de esperança e faz avançar disposição depressiva, enquanto angústia e ressentimento empurram pessoas às direitas populistas e alimentam ódio, corroendo solidariedade, amizade e empatia, produzindo regressão social que põe em risco a democracia, como enfatizado por Barack Obama ao afirmar que a democracia pode ruir quando se cede ao medo, sendo a democracia viável apenas em atmosfera de reconciliação e diálogo que impede a absolutização de opiniões sem escuta.
* A angústia funciona amplamente como instrumento de domínio ao tornar pessoas obedientes e chantageáveis, reduzindo a liberdade de expressão por medo de repressão, enquanto hate speech e shit storms bloqueiam a manifestação livre do pensamento e chega-se a temer o próprio ato de pensar, perdendo-se a coragem de pensar que abriria acesso ao completamente Outro, pois sob angústia persiste o Igual e impõe-se conformismo que fecha o acesso ao Outro, inapreensível pela lógica da eficiência e produtividade do Igual.
* Onde a angústia domina, a liberdade se torna impossível porque angústia e liberdade se excluem, podendo a angústia transformar a sociedade em prisão e colocá-la em quarentena por sinais contínuos de perigo, ao passo que a esperança cria sinais de direção e marcos de caminho, de modo que apenas na esperança há movimento, sentido e orientação, enquanto a angústia torna qualquer percurso impraticável.
* A angústia contemporânea inclui vírus e guerras, mas também a “angústia climática” reconhecida inclusive por ativistas angustiados com o futuro, sendo legítima a angústia pelo clima e pela pandemia, porém inquietante é o clima expansivo da angústia e problemática é a pandemia da angústia, pois atos guiados por angústia não abrem futuro, ações exigem horizonte de sentido e narrabilidade, e a esperança é loquaz e narrativa enquanto a angústia não alcança o discurso nem se faz relato.
* O termo “angústia” deriva de angest e angust com sentido originário de estreiteza, pois a angústia sufoca a amplitude, estreita perspectivas ao restringir campo visual e barrar a vista, fazendo sentir-se empurrado a uma passagem estreita e acompanhado de sensação de captura, aprisionamento e clausura, de modo que o mundo aparece como prisão com portas fechadas para o aberto, e o futuro é obstruído pela inacessibilidade do possível, do novo.
* A angústia hoje ubíqua não se reduz a catástrofe permanente, pois predomina série de angústias difusas estruturais não reconduzíveis a eventos concretos, e o regime neoliberal opera como regime da angústia ao isolar e transformar pessoas em empreendedoras de si, enquanto concorrência onipresente e coerção de desempenho corroem comunidade, narcisismo produz solidão e angústia, e angústias de fracasso, inadequação, ritmo e dependência moldam o eu, com ubiquidade da angústia aumentando produtividade.
* A angústia isola de tal modo que não há possibilidade de angústia compartilhada nem de comunidade ou Nós, pois cada um fica entregue a si mesmo, enquanto a esperança contém dimensão do Nós e implica comunicar a outros a mesma esperança e manter viva a chama que irradia ao redor, sendo fermento de revolução e do novo, incipit vita nova, ao passo que não há revolução da angústia porque quem se angustia se submete ao domínio, e a impossibilidade atual de revolução decorre da incapacidade de esperar causada por paralisia na angústia que atrofia viver em sobreviver.