BUZZI, Arcângelo. A Identidade Humana. Petrópolis: Vozes, 2002.
A IDENTIDADE NO SABER DA FILOSOFIA
1. O uno se reencontra consigo mesmo ainda quando tende para a diferença, e o que são os séculos perto do momento em que dois seres se reconhecem e se aproximam.
2. A elaboração da filosofia começa quando a identidade humana, saindo de sua menoridade, desperta e se dá conta de estar na mendicância de recursos para sua sobrevivência, subtraídos ao seu saber, despertar que a transforma em disposição de busca e a instala no dever de ir além de seu cotidiano, isto é, na liberdade de desprender-se de si em direção ao sumo bem desconhecido que prodigaliza os bens de que precisa para viver.
3. O ídolo amigo da infância, a quem se clamava como criador do céu e da terra, é interrogado se haverá de querer ainda ser amado caso venha a ser esquecido, e questiona-se por que o mundo não seria suficientemente pobre para se buscar fora dele ainda um outro.
4. A disposição de busca do sumo bem, que acena nos bens necessários à vida, constitui o ato de sobrevivência da identidade humana, o sair de si para entrar no abrigo de um outro fora de si, tarefa para a qual se elaborou uma ciência de procedimento chamada filosofia, única, no quadro das ciências, incumbida de ancorar a identidade humana num desvão de teto superior a ela, razão pela qual Kant a declarou rainha de todas as ciências (Wissenschaft), rainha que trata de esforços cujo bem é grande mas distante e por isso inacessível à visão comum.
5. Filosofar é irromper em direção ao que não é si mesmo, desvinculando-se da viscosa intimidade gástrica para conduzir-se para além de si, perto da árvore e todavia fora dela, sem nela se perder assim como ela não pode diluir-se em quem a contempla.
6. A filosofia usa o termo intencionalidade (Intentionalität) para indicar o espaço livre, o desvão superior à identidade humana que a provoca a sair de si e a mover-se em sua direção, espaço de todo invisível aos sentidos do corpo, cuja morada, pressentida pelo sentimento, só se vislumbra claramente no viés das ideias e dos conceitos, clarões do pensamento que pensa, isto é, que ouve seu apelo.
7. Na disposição intencional de corresponder ao espaço livre que a provocou, a identidade humana se compreende numa viagem de risco, pois reconhece que o que busca, para seu próprio investimento e personalização, é dom que a ultrapassa e está totalmente fora de seu alcance, viagem arriscada porque aquele espaço livre é apelo de um ser-da-distância que exige muito filosofar para ser discernido e não confundido com representações substitutivas.
8. A vontade de desfrutar os favores da realidade em doação contínua e renovada levou a identidade humana ao árduo trabalho de elaborar diferentes saberes a seu respeito.
9. A consciência científica moderna caracteriza-se por uma nova relação do homem com o mundo, no que a natureza deixa de se lhe apresentar como criatura divina, tendo o homem metido-lhe as mãos para arrancar as forças de suas formas.
10. O atual saber de uso da natureza é determinado pelas ciências positivas, saber geométrico-matemático que opera a natureza dentro de máquinas sugerindo o advento de uma ordem social orientada mais para o lazer que para o trabalho, sonho já imaginado por Aristóteles (384-322 a.C.) ao supor que, se cada instrumento pudesse trabalhar por si a uma ordem dada, se as lançadeiras tecessem sozinhas e o arco tocasse sozinho a cítara, empresários e patrões dispensariam operários e escravos.
11. O saber de filosofia, em relação ao saber de uso, é totalmente inútil, não ajudando a organizar a sociedade nem a fabricar um navio nem a fritar ovos, mas testemunha que a identidade humana, na escuta do generoso doar-se da realidade, está sempre ultrapassando as representações do saber de uso, procurando acercar-se do fundamento (Grund) da realidade insinuado em sua maneira de dar-se e de subtrair-se, de revelar-se e de esconder-se, de mostrar-se e de ocultar-se, o que equivale a entrar no reino da liberdade, podendo-se então definir a filosofia como a aprendizagem de saber ser livre, de saber chegar lá onde tudo acontece.
12. Os antigos gregos usaram a palavra physis (natureza) para nomear a realidade no vigor de seu apresentar-se e ausentar-se, palavra que clareia a estrutura da realidade, vindo o verbo phuein a significar jorrar, brotar, surgir, de modo que a realidade é natureza que de si jorra a si como a água que de si jorra água, emergindo dessa contemplação a experiência filosófica de que o homem pode desviar um rio, mas não pode fazê-lo remontar à fonte.
13. Dotada do preclaro dom da alma (psyche), a identidade humana faz filosofia para infiltrar-se no desvão infinito da natureza, ocupando esta, contudo, comparada à extensão dada aos negócios, sonhos, paixões e desejos de poder do cotidiano, um lugar exíguo na história dos homens, sendo, quando ocupa lugar de destaque nas escolas e universidades, mais ensinada como cultura esnobe que como filosofia propriamente.
14. A filosofia sente constantemente a necessidade de justificar sua existência diante das ciências e crê fazê-lo de modo mais seguro elevando-se à condição de ciência, esforço que, no entanto, representa o abandono da essência (Wesen) do pensamento, perseguida a filosofia pelo medo de perder em prestígio e importância caso não seja ciência.
15. Ao contrário da tecnologia fornecida pelas ciências positivas, que transforma a realidade em máquinas de mágicos poderes, em bens de consumo e em instrumentos de uso, a filosofia aponta para uma face da realidade subtraída às ciências positivas, evocada na máxima de Anaxágoras (500-428 a.C.) segundo a qual o que aparece é rosto daquilo que não aparece, sendo esse rosto escondido ao olhar dos observatórios e laboratórios o que a filosofia se envereda em buscar.