Horizontes

BRAVER, Lee. Division III of Heidegger’s “Being and time”: the unanswered question of being. Cambridge (Mass.): the MIT press, 2015.

Passando de um dado horizonte para a dação de horizontes

1. Ser e Tempo constitui, no fundo, uma obra de fenomenologia transcendental que, apesar de conter doses de existencialismo kierkegaardiano, hermenêutica diltheyana e subjetividade coletiva hegeliana, opera dentro de um arcabouço formado pela fusão entre Kant e Husserl, segundo os quais a experiência da realidade não se limita a uma impressão sensorial passiva, mas depende de uma organização ativa da consciência.

2. Ser e Tempo segue essa abordagem básica, com diferenças importantes, ao afirmar que os entes podem aparecer na clareira (Lichtung) — nome heideggeriano para a consciência de qualquer coisa — porque um espaço é aberto para eles, sendo as condições estabelecidas para experimentar algo transferidas às propriedades daquilo que é experimentado.

3. Um dos pontos principais da Primeira Divisão é o caráter primária e majoritariamente engajado e ativo do Dasein, e não contemplativo, de modo que os entes manifestam-se primeiro como prontos-para-uso (Zuhandenheit) nos projetos do Dasein — constituindo o mundo (Welt), para Heidegger, uma totalidade de entes organizados em termos das atividades do Dasein —, podendo também, por desengajamento, tornarem-se objetos inertes simplesmente-dados (Vorhandenheit); é o projetar-se adiante em direção a metas e o retomar de papéis e ferramentas à mão que estica a clareira dentro da qual algo ou alguém pode ser encontrado, denominando-se essa transferência de traços da compreensão “transcendental” para aquilo que é compreendido a Lei da Transitividade Transcendental, adaptação do princípio kantiano segundo o qual as condições de possibilidade da experiência são também condições de possibilidade dos objetos da experiência.

4. É por essa Lei que a primeira página do livro passa imediatamente da pergunta sobre o ser à pergunta sobre o sentido do ser, investigável apenas mediante o exame do ente que compreende e para quem o sentido pode ser — o Dasein —, perguntando Ser e Tempo pelo ser através da ontologia fundamental, na qual o exame do ser apoia-se na análise do modo de ser próprio, a analítica existencial, não sendo o Dasein onde o sentido meramente se localiza, mas aquele que o gera, entendendo-se o verbo “compreender” não como registro passivo mas como processo ativo e produtivo, análogo a Kant e Husserl.

5. Uma resposta possível à pergunta sobre por que Heidegger não terminou o livro reside na hipótese de que ele de fato o terminou, sendo isso apenas difícil de perceber devido à pressa da publicação, seguindo a estrutura do livro o que se pode chamar de espiral hermenêutica, na qual certas ideias são expostas e depois retomadas para mostrar suas condições de possibilidade em termos kantianos.

6. Uma estranheza reside no fato de o livro não seguir exatamente essa linha de raciocínio, pois a Divisão II se quebra em duas peças distintas: os três primeiros capítulos até o §64 constituem um aprofundamento e escurecimento existencial do exame da Divisão I, enquanto o §65 representa o ápice da Segunda Divisão ao revelar a temporalidade como o nível subjacente ao cuidado, prometendo o §66 revisitar os aspectos da Divisão I para mostrar seus fundamentos temporais, do que resulta a hipótese de que II.i até II.iii.§64 constitui um rascunho comprimido do que originalmente seria toda a Divisão II.

7. A Divisão I estabelece três modos de ser — disponibilidade (Zuhandenheit), simples presença (Vorhandenheit) e um retrato inicial da existência —, sugerindo a hipótese proposta, denominada Teoria da Divisão Superlotada (Overstuffed Division Theory), que a Divisão II teria detalhado o terceiro modo, a existência, e a Divisão III teria concentrado-se nos diferentes modos temporais subjacentes aos modos ontológicos: temporalidade própria possibilitando o ser-no-mundo, tempo-agora possibilitando a simples presença, tempo-do-mundo condicionando o equipamento disponível, e a história possibilitando o ser-com outros.

8. As duas divisões foram amontoadas numa só quando a Divisão II foi apressada à impressão a fim de garantir uma promoção na Universidade de Marburg, resultando o último quarto do livro (II.iii.§65–II.vi) numa tentativa embaralhada e altamente comprimida de reconceber os modos de ser já discutidos como formas de temporalização, precisamente o que o livro deveria demonstrar.

9. Ser e Tempo escreve uma “genealogia dos diferentes modos possíveis de Ser” ao remetê-los a seu progenitor comum, o tempo, construindo essa fundação da ontologia sobre a analítica existencial, de modo que é porque o Dasein é no fundo tempo que o ser é temporal.

10. Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia, uma das duas obras indicadas como reconcepção da Divisão III faltante, reafirma forte compromisso com a ontologia fundamental, insistindo que a analítica ontológica preparatória do Dasein deve ser chamada de ontologia fundamental, sendo ela a única via para a iluminação do sentido do ser e do horizonte de sua compreensão, devendo essa exposição ser repetida em nível mais elevado.

11. O ser só pode ser significativo — e portanto o sentido só pode ser — para uma compreensão, sendo esta compreendida em termos da constituição de quem compreende, de modo que, alcançada a temporalidade do Dasein no §65, a espiral hermenêutica gira mais uma vez para mostrar que todos os modos de ser, não apenas a existência, são formas de temporalização.

12. Ainda que o final de Ser e Tempo sugira que a exibição da constituição do ser do Dasein seja apenas um caminho possível entre outros, Os Problemas Fundamentais insiste repetidamente que a direção do caminho seguido por Kant, o retorno ao sujeito em seu sentido mais amplo, é a única possível e correta, chegando à conclusão de que todos os grandes filósofos recorrem a alguma forma de subjetividade, mas nenhum o fez corretamente.

13. A filosofia, para Heidegger, pergunta como o ser é e por que é assim, questões malogradas pela tradição filosófica — a primeira ao focar exclusivamente na simples presença, a segunda ao recorrer a entes particulares como Deus ou as Formas, erro posteriormente chamado de ontoteologia, pois cada explanans torna-se, por sua vez, explanandum num regresso infinito de explicação.

14. Nesse ponto da carreira heideggeriana, o caminho seguido por Kant deve ser retomado, porém aperfeiçoado, sendo esse o passo em que, ao responder a Hume que a realidade não precisa ser causal, Kant respondeu que há uma razão muito boa — nós mesmos —, ponto considerado pelo jovem Heidegger um enorme avanço, o telos próprio da filosofia.

15. A discussão crítica da tese kantiana leva à necessidade de uma ontologia explícita do Dasein, pois somente com base na exposição da constituição ontológica básica do Dasein torna-se possível compreender adequadamente o fenômeno correlato à ideia de ser, sendo a ontologia do Dasein a meta latente e a exigência constante de todo o desenvolvimento da filosofia ocidental.

16. Assim como Kant fundamentou a matemática e a ciência nas faculdades transcendentais e Husserl nomeou o estudo da consciência a ciência de todas as ciências, o estudo do ser do Dasein (a analítica existencial) torna-se a fundação da ontologia, transformando o giro moderno em direção à subjetividade, à maneira de Hegel, na chave do progresso em vez da decadência.

17. O projeto kantiano é retomado com o propósito de realizá-lo corretamente, fornecendo não apenas um relato melhor do Dasein mas mostrando como todos os existenciais emergem do ser último, a temporalidade, unificando e explicando o grupo frouxo meramente pressuposto dogmaticamente por Kant.

18. O fenômeno primordial da temporalidade é assegurado ao demonstrar-se que todas as estruturas fundamentais do Dasein já exibidas são, no fundo, “temporais” e modos da temporalização da temporalidade (Zeitigung der Zeitlichkeit), surgindo daí a tarefa de repetir a análise do Dasein interpretando suas estruturas essenciais quanto à sua temporalidade.

19. Um problema menor decorre do apreço arquitetônico heideggeriano por tríades baseadas nos três tempos verbais, pois embora a simples presença corresponda nitidamente ao presente e a existência corresponda ao futuro, a disponibilidade parece também primariamente futural, possuindo o equipamento passado em seu material e presente em seu uso imediato mas sendo fundamentalmente teleológico, revelando-se os modos de ser assimétricos em relação ao Dasein, já que este deve ser-num-mundo de equipamento primeira e majoritariamente, enquanto a simples presença emerge apenas ocasionalmente durante quebras ou exame desengajado.

20. Existem três problemas mais significativos com a Teoria da Divisão Superlotada, sendo o primeiro a exigência frequente, na obra heideggeriana, de uma compreensão do próprio ser antes de se compreender plenamente o ser do Dasein, o que implica que os três modos de ser não bastam para responder à questão, sendo necessário um sentido de ser além desses modos — algo que a Divisão III teria fornecido e que não está contido nas análises das duas primeiras divisões: o ser em si mesmo.

21. O segundo problema reside no fato de que a explicação definitiva dos traços básicos dos fenômenos por meio dos existenciais do Dasein só funciona enquanto o Dasein retiver essas estruturas particulares, tendo Kant assegurado a universalidade e necessidade da matemática e da ciência supondo que todos os seres humanos organizam a experiência do mesmo modo, pressuposto contestado de imediato por Hegel por não se poder provar que todos os humanos possuem as mesmas faculdades transcendentais, sugerindo a história precisamente o oposto.

22. O Dasein torna-se de fato histórico em Ser e Tempo, mas apenas até certo ponto, sugerindo fortemente o livro que todo Dasein, em toda época e lugar, está-no-mundo do mesmo modo básico, encontrando os mesmos modos de ser, variando apenas os entes ônticos particulares mas não seus tipos ontológicos.

23. Uma das mudanças do trabalho tardio consiste no fato de que a história desce até o fundo, transformando o Dasein junto com os entes ao seu redor em mudanças epocais, tornando essa mudança insustentável a ontologia fundamental de Ser e Tempo.

24. Um sistema permanente de um único conjunto de modos de ser não pode ser construído sobre as areias agora movediças do ser historicamente alterável do Dasein, tendo Hegel conseguido incorporar a mudança histórica fundando ainda a ontologia no sujeito apenas por conter todas as formas possíveis de subjetividade e realidade numa totalidade completa e sistemática, não se admitindo que a história possa ser assim domada por um padrão ou lógica geral.

25. Essa nova ênfase na história é apoiada pelo fato de as duas obras indicadas como reconcepções da Divisão III, Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia e Introdução à Metafísica, focarem-se explicitamente na história, mostrando a própria separação entre a ontologia fundamental da Parte Um e a abordagem histórica da Parte Dois que esta última seria externa e talvez desnecessária à questão do ser, distinção mais tarde repudiada, cabendo a cada nova época conferir ao homem uma nova fundação de sua essência, jamais absoluta.

26. O terceiro problema decorre do movimento de Ser e Tempo consistir num recuo ou aprofundamento progressivo, partindo, como diz Aristóteles, do mais óbvio na ordem do conhecer mas menos essencial na ordem do ser, terminando no menos óbvio mas mais essencial, o que significa, no pensamento heideggeriano, partir dos entes para seu ser, dos fenômenos para aquilo que os torna possíveis.

27. Aquilo para onde a atenção deve agora se voltar está mais próximo do que o habitualmente mais próximo “à primeira vista”, sendo por isso mais difícil de ver, negligenciando o zelo da percepção sensorial comum o que sustenta e serve sob as coisas visíveis, a saber, a claridade e sua própria transparência, sendo a experiência do mais próximo a mais difícil.

28. A descrição das ferramentas retorna primeiro à sua disponibilidade (Zuhandenheit), depois à compreensão dessa disponibilidade, depois àquilo que torna essa compreensão possível — o cuidado (Sorge) em resolver a questão do próprio ser assumindo papéis que requerem equipamento — e finalmente ao tempo como aquilo que torna possível qualquer compreensão/aparecimento do ser, concluindo-se que, sendo o Dasein a clareira, sua natureza temporal torna a disponibilidade — e o ser em geral — temporal.

29. Kant foi o primeiro a apelar ao sujeito para explicar traços legítimos da realidade, residindo a crítica heideggeriana à solução kantiana na falta de unificação ou justificação adequada da seleção de exatamente esses conceitos, deixando sua constituição específica como fato bruto, solução que o jovem Heidegger buscou resolver mostrando como os três modos de ser emergem do cuidado do Dasein, derivado por sua vez de sua temporalidade.

30. É evidente, contudo, que essa resposta apenas empurra a questão um passo atrás, pois esses tipos de fenômenos são experimentados porque há esses existenciais, e estes existem porque o Dasein é temporal do modo específico que é, reaparecendo a pergunta em relação à própria temporalidade sem resposta disponível, regredindo infinitamente ao inexplicado, podendo Ser e Tempo cometer variação do mesmo erro ontoteológico atribuído à tradição, substituindo Deus pelo Dasein — uma ontoantropologia.

31. Encontra-se aqui, em veia marcadamente humeana e wittgensteiniana, o fim inescapável da explicação, não sendo o problema que Ser e Tempo dê uma má resposta, mas que dê uma resposta qualquer, uma explicação “última” para o fato e o modo pelos quais os entes se mostram, reconhecendo-se no trabalho tardio que em princípio não pode haver tal explicação final, pois aquilo que responde pela clareira não pode responder por si mesma.

32. Reconhece-se que no fundo de toda atividade transcendental reside um ponto necessário e ineliminável de receptividade passiva, engolindo a lançabilidade (Geworfenheit/thrownness) o projetar-se (Entwurf): mesmo enquanto projetores de estilo kantiano, o Dasein foi lançado nesses modos particulares de projetar, limitando seu poder explicativo, sentido em que o ser envia a clareira e a compreensão epocal do ser, algo que não poderia ser autoproduzido.

33. Essa virada pode ser lida como mudança de posição em relação a Kant e Hegel: inicialmente alinhada à objeção hegeliana contra a sacola desfundamentada de formas e conceitos kantianos, tentando Ser e Tempo resolver esse problema remetendo todos os existenciais ao tempo, passando o trabalho tardio a apreciar a profundidade da falta de resposta kantiana, alinhando-se agora a ele contra a exigência hegeliana de explicações finais, descrevendo alguns textos do final dos anos 1920 a temporalidade como o mistério último em vez da resposta final.

34. Aqui o terceiro problema da Teoria da Divisão Superlotada — a inteligibilidade última — junta-se ao primeiro — a necessidade de uma explicitação do próprio ser — através da diferença ontológica entre os entes ônticos particulares e seu ser ontológico, sendo essa diversidade histórica dos modos de ser — physis para os gregos, entia creata para os medievais — o que leva a questionar de onde tais modos provieram, adicionando-se um terceiro nível a essa distinção: o próprio ser.

35. Essa resposta à pergunta sobre por que o ser é, e por que é do modo que é, constitui intencionalmente uma não-resposta, sendo o fato de o ser se manifestar diferentemente em épocas diferentes o fato bruto último, que não poderia ser explicado sem apelar a entes já dados e modos de pensar que, pertencendo a épocas específicas, não podem responder pela própria epocalidade, designando-se esse terceiro nível como o próprio ser, beyng (Seyn), Ereignis — o evento (que o ser acontece), a clareira (Lichtung), ou a verdade.

36. O retorno ao próprio ser estava planejado para a Divisão III, tornando sua ausência particularmente dolorosa, embora o texto publicado toque o tópico em dois lugares — o §7 e os §§43-44 —, constituindo bom princípio hermenêutico a atenção especial ao que não se encaixa, sendo um dos trechos mais mal-ajustados do livro justamente os §§43-44, ao final da Divisão I.

37. Uma discussão sobre realidade e verdade se intromete no meio dessa análise sem conexão óbvia com os parágrafos anteriores e posteriores, os quais se conectam suavemente entre si como se os §§43-44 simplesmente não existissem, levantando-se a questão de por que um grande non sequitur foi inserido ali, e sobre tópicos tão importantes.

38. A hipótese proposta situa esses parágrafos como parte da explicitação do próprio ser planejada para a Divisão III, ou ao menos como preparação para ela, tendo sido inseridas entre as divisões as partes com as quais havia razoável satisfação ao se decidir não publicá-la, aprendendo-se nessas seções que realidade e verdade requerem o Dasein para ser, sendo a verdade desvelamento ou aparecer, basicamente a mesma definição do ser no §7, não sendo acidental que a verdade se torne o tópico dominante da década seguinte de escritos e lições heideggerianas.

39. Essa definição de ser realiza várias coisas: primeiramente, interrompe a explicação, renunciando à busca por respostas últimas, resolvendo assim o terceiro problema, pois a fonte de todo aparecimento não pode ser explicada sem apelar a entes já aparentes, o que inutilmente pressupõe já o aparecimento — como o big bang, que só poderia ser explicado por entes que ele mesmo, como origem de tudo que é, deveria explicar.

40. Somente é possível nomear o ser, pois ele não se dignará à discussão, sendo o lugar que abrange todos os locais e espaços-tempo-de-jogo, dispensando o apropriar (Ereignis/propriating) o espaço aberto da clareira sem ser efeito de causa nem consequência de razão, não havendo nada mais a que o apropriar reverta ou em termos do qual possa ser explicado.

41. Em segundo lugar, essa definição libera para a aceitação do ser tal como aparece em vez da imposição de restrições pressupostas sobre o que ele deve ser, resolvendo assim o segundo problema, o da história, permitindo o reconhecimento do fluxo da experiência tanto no dinamismo do equipamento e do mundo do trabalho inicial quanto na variedade histórica dos modos de ser do trabalho tardio, sendo essa abertura radical ao que se mostra o “empirismo filosófico genuíno” creditado a Husserl.

42. Em terceiro lugar, essa definição ajuda a apreciar a profunda significância da fenomenologia, representando os §§43-44 a virada da espiral hermenêutica sobre a explicitação inicial da fenomenologia no §7, mostrando os fundamentos ontológicos e a inevitabilidade do método fenomenológico, já que a dicotomia tradicional entre aparência e realidade se resolve ao se adotar a definição de ser dos §7 e §§43-44, sendo os entes os fenômenos ou aquilo que aparece, pois ser é aparecer.

43. Esse relato da verdade supera também qualquer subjetivismo remanescente em Ser e Tempo ao remover a influência do Dasein sobre a existência e forma da clareira, não sendo mais o Dasein que projeta a clareira aberta, mas o próprio ser que se abre, atraindo o Dasein para o evento de sua ocorrência.

44. É inapropriado, nessa formulação da questão, possibilitar demais o entendimento do “projeto” (Entwurf) como desempenho humano, estrutura de mera subjetividade, tendo por isso o pensamento posterior a Ser e Tempo substituído a expressão “sentido do ser” por “verdade do ser” (Wahrheit des Seins) para preservar o sentido de “projeto” como disclosure aberta.

45. O retorno do Dasein ao próprio ser fora planejado para a Terceira Divisão, sendo difícil ver como tal mudança poderia efetuar-se dentro do arcabouço daquele livro, pois o ser ali era visto como experimentado pelo Dasein, em grande medida determinado pela natureza deste, negando-se ainda assim que o ser ou a verdade possam existir sem o Dasein, sendo um dos desafios do trabalho tardio manter essa interdependência mútua sem colocar o Dasein no comando.

46. Dentro do arcabouço transcendental de Ser e Tempo, a clareira é criada autonomicamente à maneira do sujeito transcendental kantiano, havendo constante ênfase no Dasein como iniciador, estabelecendo as condições de possibilidade para experimentar tipos particulares de entes que não poderiam surgir de mera recepção passiva da experiência, legado direto de Kant e Husserl.

47. Em Ser e Tempo, é por serem as criaturas que são e por fazerem os tipos de coisas que fazem que os entes se mostram ao Dasein de todo, e nos modos específicos em que o fazem; o trabalho tardio inverte essa formulação: é porque os entes se mostram, e nos modos específicos em que o fazem, que o Dasein é a criatura que é e faz os tipos de coisas que faz, sendo essa razão dinâmica pela qual o termo Ereignis passa a ser adotado — o manifestar-se do ser não sendo um ato realizado pelo Dasein, mas um evento no qual este é capturado.

48. Essa compreensão do ser resolve os três problemas da Divisão Superlotada, fornecendo explicitação do próprio ser ao girar a espiral hermenêutica, superando a metafísica transcendental que para na beingness sem indagar por que há esses modos particulares de experimentar os entes, superando a subjetividade ao remover iniciativa e controle do Dasein, e introduzindo uma historicidade profunda ao reconhecer a variedade de formas de beingness emergidas do Ereignis, deslocando-se de um horizonte particular dado — os existenciais do Dasein — para a própria dação da horizontalidade.

49. Essa leitura também explica outra porção mal-ajustada do texto, o §17 sobre signos (I.iii), no qual se aprende que, enquanto a maioria das ferramentas se retira inconspicuamente ao funcionar propriamente, os signos funcionam chamando atenção sobre si, iluminando a teia de relações instrumentais do mundo sem interromper o engajamento com elas como fazem as quebras, tópico que, embora nunca reapareça explicitamente, permanece importante para a própria possibilidade do livro, pois o estudo do uso de ferramentas enfrenta o dilema de que estas, ao funcionar, são inconspícuas e, ao serem estudadas, tornam-se simplesmente-presentes, evitando novamente o exame direto.

50. Enquanto “A Origem da Obra de Arte” aponta às obras de arte para resolver esse problema, é possível que o §17 fosse destinado a antecipar a discussão da Divisão III sobre fenomenologia como solução, podendo o próprio livro Ser e Tempo ter sido pensado como possuindo o modo de ser de um signo — uma ferramenta que se ilumina sem cometer o tipo de interrupção que transforma e distorce o sujeito —, tornando a Divisão III, “Tempo e Ser”, aquilo que, em O Que Se Chama Pensar, é chamado de humanidade: um signo não lido apontando para o ser que se retira.