Vida psíquica

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

1. A importância da tonalidade emotiva para a antropologia filosófica

1. A primeira elaboração filosófica das tonalidades emotivas que captou o núcleo antropológico decisivo da questão deve-se a Heidegger, para quem elas ocupam um lugar fundamental na “analítica existencial” enquanto “situações emotivas” [ Befindlichkeiten ] da existência humana, e a compreensão alcançada por ele pode ser resumida em dois pontos fundamentais: a constatação de que o “ser-aí” (Dasein) está sempre num estado emotivo [ gestimmt ], o que significa que as tonalidades emotivas não são algo exterior que sobrevém acidentalmente, mas pertencem como elemento necessário e indispensável à natureza originária do ser humano, não sendo possível evitar a dependência da tonalidade emotiva, pois não há realmente nenhum estado da vida humana que não esteja já de certa maneira emotivamente entoado.

2. A interpretação do mundo na tonalidade emotiva

2. As tonalidades emotivas determinam desde o princípio o modo como o mundo e a vida aparecem ao homem, pois Heidegger evidenciou que a tonalidade emotiva já sempre abriu o ser-no-mundo em sua totalidade, tornando possível um dirigir-se para algo, de modo que o modo de se dirigir a algo e como isso lhe aparece é determinado desde o início pela tonalidade emotiva em que o homem se encontra [ befinde ], e a percepção mesma já é sempre emotivamente entoada, não se tratando de uma coisa percebida que depois assume uma coloração sentimental, mas a tonalidade emotiva é o dado originário.

3. Tonalidade emotiva e humor

3. Essas afirmações contradizem tanto os hábitos de pensamento tradicionais que se ergue a mais árdua oposição contra a alta consideração das tonalidades emotivas, pois se coloca como fundamento da vida da mente o que há de mais fugaz e instável, como as sombras das nuvens que se refletem numa paisagem, e por isso se fala quase que exclusivamente de tonalidade emotiva e “humor” [ Laune ], sendo uma pessoa de bom ou mau humor, e define-se como “lunática” aquele que se deixa levar pelo jogo altalenante do humor.

4. As tonalidades emotivas constantes

4. A construção de uma antropologia filosófica a partir da tonalidade emotiva é, assim, desde o princípio minada pelo suspeita de indeterminação subjetivista, parecendo fundada a concepção tradicional de que as tonalidades emotivas não seriam mais que perturbações superficiais ou turvações da consciência, das quais seria importante libertar-se, pois o homem deve confrontar-se com situações que exigem uma resposta determinada, independentemente de sua tonalidade emotiva, como nas exigências morais que se situam num plano que não pode sequer ser alcançado pela simples tonalidade emotiva.

5. A distonia emotiva

5. Aprofundando esse contexto, nenhuma das objeções possíveis pode abalar a validade da frase de Heidegger de que “o ser-aí está sempre num estado emotivo”, pois o que muda na variação das tonalidades emotivas é o conteúdo particular, e a passagem conduz sempre a uma nova tonalidade, nunca totalmente fora da entonação emotiva [ Gestimmtheit ] do homem, de modo que se deve admitir como critério fundamental que à existência humana, em toda parte, pertence necessária e inevitavelmente um estrato de tonalidade emotiva como fundamento último.

6. A atonia emotiva

6. Semelhante à distonia, mas distinta dela, é o estado de uma estranha “atonia” [ Ungestimmtheit ] que Heidegger descreveu como “indiferença emotiva”, na qual o ser-aí é pesado para si mesmo, e que se distingue de toda tonalidade emotiva e também da distonia por perder a força unificadora pela qual o mundo inteiro é interpretado de modo homogêneo, fazendo a vida flutuar sem forma, enquanto a distonia permanece como uma modalidade da tonalidade.

7. O caráter emotivo do atitude teórica

7. O estado tranquilo e constante que está na base do atitude puramente teórico parece ser um solo firme subtraído à influência das tonalidades, no qual o homem reconhece as coisas “tal como são”, mas esse estado, embora equidistante da forte tensão das tonalidades elevadas e depressivas, não é uma condição psíquica fora do estar-entoado, mas uma sua modalidade bem determinada, um estado de “calma chata” alcançado por uma “doce atenuação de forças particulares exageradas”, que representa uma excelente modalidade do estar emotivamente entoado.