Temporalidade

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

1. A questão

1. O fato de o homem não ter sempre a mesma consciência do tempo, que muda conforme o estado emotivo, é conhecido e refletido na linguagem comum, mas só adquiriu pleno significado filosófico quando se compreendeu que essa consciência “subjetiva” do tempo não é uma simples desvio do “tempo vivido” em relação ao “tempo cronológico”, mas remete à estrutura originária do ser humano, de modo que a existência humana só pode ser compreendida a partir de sua temporalidade, sendo a questão da temporalidade a questão da própria natureza do homem.

2. A redução à temporalidade interior do homem

2. A operação decisiva de Heidegger consiste em reconduzir o escorrer objetivo do tempo, e portanto da história que acontece objetivamente, à estrutura temporal e histórica do ser humano como sua fonte originária, de modo que o instante [ Augenblick ] recebe uma forma temporal própria e complexa que implica em si as relações com o futuro e com o passado.

3. A noção do tempo na filosofia da existência

3. Heidegger desenvolve essa tese geral de um modo preciso, condicionado por sua abordagem às tonalidades emotivas, e daí a estrutura interna do tempo própria do homem recebe a acuidade particular característica da noção do tempo na filosofia da existência, onde o passado não é mais tudo o que, do que foi, se insere no presente e o determina de modo positivo, mas é considerado como um fardo que pesa sobre o presente, restringindo seu campo de ação, e o futuro não é mais o que se espera, mas o que se teme e que exerce uma pressão sobre o presente, levando-o a decidir-se.

4. O caráter diferente da temporalidade feliz

4. Questiona-se, porém, se o que foi exposto sobre os pressupostos especiais da consciência existencial da temporalidade é realmente exaustivo, e suspeita-se que a estrutura temporal tenha sido determinada unilateralmente, pois, ao lado das formas estudadas por Heidegger, há outras novas formas da consciência do tempo que não se podem compreender a partir da contraposição entre tempo autêntico e inautêntico, e que se distanciam radicalmente da temporalidade da decisão, mas não pertencem à esfera da inautenticidade, antes se põem em contraste com a autenticidade heideggeriana com a pretensão de uma certa superioridade, sendo instantes de que o homem goza como vértices de uma vida superior, particularmente preciosos.

5. A dependência da percepção do tempo pela tonalidade emotiva

5. Para informar-se provisoriamente sobre a dependência da consciência do tempo pelo estado emotivo, parte-se de fatos comumente conhecidos, como a dependência da estima do tempo (representação da duração de um tempo transcorrido) pelos diferentes estados afetivos, onde o tempo vivido não corre sempre igual, mas acelera ou desacelera conforme a experiência que nele se desenrola, tornando-se longo no estado de tédio e encurtando-se no divertimento.

6. A intemporalidade da experiência da felicidade

6. O provérbio diz que para o feliz não bate nenhuma hora, o que não significa apenas que o tempo corre mais rápido, mas tem um significado mais radical: a pessoa feliz não presta mais atenção ao tempo, sentindo-se quase elevada acima do tempo, num estado de intemporalidade [ Zeitlosigkeit ] que apresenta um caráter positivo, uma nova natureza do tempo, onde o homem se esquece do futuro, libertando-se das preocupações e temores, e também se esquece do passado, que não oprime mais seu presente, e o presente se tornou infinitamente longo, sem uma cesura que o separe do passado e do futuro, assimilando-se a um estado de intemporalidade e eternidade pura.

7. Felicidade e esquecimento

7. Um primeiro significativo indício dessas relações entre felicidade e experiência do tempo encontra-se em Nietzsche, onde a felicidade é explicitamente reconduzida à capacidade de esquecer o passado e de viver simplesmente o presente, como na felicidade do rebanho no pasto, que consiste em estar absorvido no instante, e a felicidade se torna felicidade pelo poder de esquecer ou pela capacidade de sentir, enquanto ela dura, de modo não histórico.

8. Os diversos modos da experiência da felicidade

8. As formas da experiência do tempo na felicidade se revelam diversificadas quanto as formas do sentimento da felicidade, havendo, num plano inferior, as formas da tonalidade exuberante, agitada ou alegre, que facilmente resvalam numa estupidez banal, que podem ser consideradas fenômenos de suspensão da temporalidade, onde o homem simplesmente esquece a passagem do tempo, sem que surja nesse esquecimento qualquer aspecto novo e positivo da temporalidade.

9. O próximo passo

9. Os fenômenos muito diferentes, esboçados aqui com um primeiro olhar rápido, necessitam agora ser analisados mais de perto, e a dificuldade se acentua pelo fato de que o homem, no estado de felicidade, não reflete sobre si, sendo as testemunhas diretas excepcionalmente raras, de modo que se deve proceder pela via da expressão indireta para remediar a insuficiência da auto-observação imediata.