Tempo embriaguez

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

1. A necessidade de considerar os estados de embriaguez

1. O vivido do tempo na tonalidade emotiva da felicidade é extremamente difícil de conhecer de modo imediato, devido à relativa raridade dos sentimentos de felicidade suficientemente pronunciados e, sobretudo, à pouca disposição de quem os sente para refletir sobre si mesmo, já que tal reflexão minaria o próprio estado de felicidade; por isso, deve-se tentar integrar os dados raros e imprecisos da introspecção direta com outros fenômenos similares, como os estados de embriaguez provocados artificialmente, que, por possibilitarem observação sistemática e por alterarem a estrutura da consciência, podem fornecer resultados complementares.

2. O sentimento da felicidade na embriaguez

2. A embriaguez induzida pela mescalina é acompanhada por todos os fenômenos de um sentimento de felicidade profundamente marcado, incluindo uma euforia característica que não se desvanece mesmo com mal-estar físico, e, a partir das experiências que testemunham um sentimento de felicidade verdadeiramente profundo, nota-se que não é possível situar esse sentimento como um estado psíquico puramente interior, desvinculado da experiência do mundo externo, pois ao sentimento da própria felicidade se junta espontaneamente um sentimento de perfeição do mundo circundante, como mostram os relatos de uma sensação de felicidade infinita, de paz reconfortante e de alegria diante do ilimitado e do infinito.

3. O distúrbio da consciência do tempo

3. Sobre esse fundamento de tonalidade emotiva, a primeira e mais importante característica é uma particular experiência do tempo, que no contexto habitual aparece como um distúrbio do senso do tempo, começando com uma incapacidade de avaliar corretamente o passar do tempo, onde os momentos vividos na embriaguez parecem, em retrospectiva, infinitamente longos, com uma tendência a superestimar enormemente o tempo, de modo que o devir temporal é subjetivamente acelerado e o que foi vivido recentemente parece distante.

4. A experiência da intemporalidade

4. Nessas testemunhas, interessa não tanto os distúrbios da orientação no tempo, mas a nova modalidade própria do tempo que se desenvolve nessas experiências, que comportam determinações peculiares e novas que devem ser avaliadas positivamente, caracterizadas pela falta de todos os traços que definem o tempo histórico, com as relações com o passado e o futuro muito distantes, restando apenas o instante, que se perde sem limites definidos no infinito, num presente permanente e sem direção.

5. A transformação da consciência do espaço

5. À modificação da consciência do tempo acompanha-se uma transformação, ainda que menos radical, da percepção do espaço, no sentido de um alargamento do espaço circundante, onde o espaço apertado parece ampliar-se ao infinito e as dimensões da corporeidade aumentam, com todos os objetos parecendo mais distintos e “mais reais”, numa “experiência vivida da plasticidade” e numa intensificação da realidade, que Huxley define como “intensidade de existência” [Daseinsintensität] ou “Istigkeit”, onde todas as coisas são “saturadas de essência” e se experimenta “o fato miraculoso da existência pura”.

6. O aumento da sensibilidade

6. A isso se junta uma extraordinária intensificação de todas as percepções sensoriais e um prazer maior por seus efeitos, com as impressões sensoriais mais marcadas, especialmente as cores e a audição, onde as cores se tornam mais luminosas e intensas, mostrando-se com uma luminosidade acentuada e com “enorme intensificação da percepção dos cores”, elevando todos os cores a uma maior potência e tornando consciente o indivíduo de inúmeras e sutis sombras de variação, um fenômeno geral da exaltação do sentimento vital, não específico da mescalina, como confirmam observações sobre a embriaguez por haxixe e álcool.

7. O aumento da capacidade de compreensão

7. Esse aumento da sensibilidade vai de par com um vistoso aumento da capacidade de compreensão, o fenômeno que Nietzsche descreveu como “sensibilidade inteligente”, que se manifesta primeiro como uma acentuação da capacidade de fruição estética, onde o mundo sensível circundante é transportado a uma esfera estética superior e o simbolismo das cores e das formas se torna compreensível.

8. O distúrbio da consciência da realidade

8. Alguns fenômenos patológicos, pertencentes à esfera da patologia, devem ser lembrados por fornecerem uma primeira conclusão sobre a transformação da consciência da realidade na condição de felicidade, como aqueles em que a nítida separação entre Eu e mundo externo se perde, com o homem se sentindo estranho a si mesmo ou identificando-se com algo estranho, ou experimentando a fusão entre interior e exterior, numa identificação com o objeto que remete à “reconciliação” da natureza com seu “filho perdido” e ao “evangelho da harmonia cósmica” de que fala Nietzsche.

9. O valor das testemunhas citadas como fontes

9. A descrição da transformação da consciência no estado de embriaguez ultrapassou o âmbito da estrutura do tempo, mas é necessário precisar claramente o “valor de fonte” desses resultados obtidos de fenômenos patológicos para as pesquisas de antropologia filosófica, deixando de lado aqueles fenômenos que não se encontram também na vida psíquica sã, como as visões de cores, as alucinações e os distúrbios mais radicais da consciência da realidade, considerados patológicos.