Marcel Proust

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

O TEMPO “PERDIDO” E “REENCONTRADO” EM MARCEL PROUST

1. A importância de Proust para a presente pesquisa

1. As experiências e interpretações particulares do tempo no centro do ciclo de romances de Marcel Proust devem ser utilizadas com grande prudência numa análise antropológica sistemática, pois a obra é a expressão de uma concepção de mundo particular, que impregna todas as experiências da vida, incarnando um subjetivismo meramente estético onde as disposições interiores representam a única realidade, mas a extrema coerência da descrição poética e da experiência vivida subjacente, com a perspicácia para as mais leves variações dos estados interiores, confere um valor incomparável às amplas análises da temporalidade, apesar das críticas.

2. A descrição da experiência da felicidade

2. O título do ciclo narrativo, “Em busca do tempo perdido”, e o do último volume, “O tempo reencontrado”, indicam o significado decisivo dado ao tempo na vida humana: o tempo pode ser perdido e reencontrado, e o autêntico cometido da vida do homem consiste em reencontrar o tempo que se perdera, um tempo superior que se revela apenas em momentos supremos e definidos, dominados especificamente pela experiência da felicidade, numa tonalidade emotiva feliz e libertadora.

3. A transformação da vida e do mundo

3. A particularidade dessa experiência é que a felicidade acontece inesperadamente e sem um motivo razoável, nascendo de uma ocasião fútil e insignificante, como o tintinar de uma colher ou o sabor de um pedaço de bolo, que são ocasiões que liberam um efeito desproporcional, sugerindo a ideia de um “encantamento” que provoca um completo renovamento do sentimento vital.

4. A experiência vivida como recordação

4. Essas experiências felizes recorrem em vários pontos e sua razão encontra uma surpreendente clarificação no curso da reflexão: o que é decisivo é uma recordação proveniente de uma profundidade latente da vida, cuja liberação repentina sugere o paralelo com um encantamento, onde um instante presente evoca outro instante da vida anterior, não através da memória “regular” ou “intelectual”, mas por uma lei própria que recupera coisas há muito esquecidas, unidas unicamente pela tonalidade emotiva que as envolve.

5. A fusão de presente e passado

5. A razão de uma felicidade tão profunda não pode residir no conteúdo da recordação, mas apenas no processo mesmo de recordar, na experiência do tempo em que presente e passado se fundem estranhamente, e a felicidade se funda, independentemente de cada conteúdo recordado, na experiência do tempo vivida na recordação, onde o instante recordado não é objetivo como passado, mas o homem se sente fisicamente transportado para ele.

6. A estrutura da intemporalidade

6. A experiência da eternidade não depende da duração temporal, mas é possível na fugacidade do instante, devendo ser considerada uma nova “dimensão” da temporalidade, que se abre “perpendicularmente” à direção do tempo histórico humano, e nesse sentido se fala de um “instante eterno” ou “eterno presente”, onde a consciência da eternidade que se revela no instante é inseparável da consciência da precariedade desse mesmo instante, como na expressão “felicidade frágil como vidro”.

7. A transformação global da consciência

7. Essa experiência da eternidade não é possível no contexto de uma consciência imutada, mas determina uma radical transformação da consciência, sendo uma expressão de uma profunda reestruturação global, onde as tonalidades emotivas elevadas abrem novas possibilidades de compreensão da essência das coisas e de aperfeiçoamento pessoal, fazendo o homem sentir o despertar de um plano extremo e oculto de seu ser, o retorno ao “verdadeiro Eu”.

8. O “tempo reencontrado” como anamnese

8. O caráter da recordação se precisa: não se trata de um regresso cronológico a um instante passado, mas de um retorno a um estrato do ser mais profundo e normalmente submerso, uma anamnese em sentido platônico, onde a “vida verdadeira”, geralmente submersa sob a atividade prática cotidiana, é trazida à luz, e esse “tempo reencontrado” é a existência extra e supratemporal que se manifesta nos raros instantes de felicidade.

9. O significado permanente do referimento ao passado

9. Apesar da concepção intemporal, o sentido da recordação não pode ser compreendido exclusivamente nesse sentido, pois a felicidade nasce apenas do retorno a um instante particular bem preciso, datável temporalmente, e Proust tenta interpretar a plenitude da experiência com base na compenetração entre percepção e recordação, onde a imaginação e a sensação imediata se reúnem, permitindo ao ser capturar “um fragmento de tempo em estado puro”.

10. Alcance e limites dessa interpretação

10. O valor da concepção do tempo desenvolvida por Proust reside na extensão e precisão com que são analisadas certas experiências do tempo vivido, que conduzem para além da temporalidade da existência histórica, onde o homem adquire a capacidade de “sentir, enquanto ela dura, de modo não histórico”, e o procedimento hermenêutico, que trata as experiências da vida como “signos desconhecidos” a serem “decifrados”, confere um valor documentário à arte.