CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.
1. O conjunto das considerações precedentes evidenciou a articulação de três temas: primeiro, que o circuito da objetivação inclui o homem e por isso o situa de modo que ele viva a preocupação prática de sua existência; segundo, que, inversamente, a dimensão prática dá abertura ao ente de tal forma que este, por si mesmo e em si mesmo, se torna acessível para além do que significa para a ação; terceiro, que as dimensões prática e contemplativa são por isso inseparáveis, o que coloca o problema da unicidade do ver e do fazer, identificando-se conhecimento e existência em relação ao caráter transfenomenal da visão.
2. O aparecimento (Erscheinen) dos objetos reenvia o homem a si mesmo, centrando-o em seu limite, porque esse aparecimento se joga na distância essencial da posição-frente (Gegenstand), sendo esse centramento complementar da situação de abandono imposta ao homem e traduzido pela necessidade prática de querer, assumir e retomar sua existência, ligando-se tal desamparo à natureza opositiva e separadora da objetivação.
3. É porque o campo da oposição tem por função fazer aparecer o existente como tal que ele situa o homem, sendo necessário, para que essa situação seja de fato uma situação, que o homem pertença ao campo da objetivação, o que supõe que este campo, ao exercer sua função delimitadora e separadora, seja também contínuo e unificante como condição geral dos limites.
4. O campo da objetivação é assim preservado de ser mera função de distanciamento, exigindo antes, para que essa função opere, ser contrabalançado por uma função de unificação que a mantenha coerente e faça do campo um elemento, não se reduzindo o campo a uma exterioridade frontal e objetiva, cabendo à afetividade a função dessa contratensão, dessa manutenção.
5. A inerência pela via da afetividade não é ainda todo o processo, pois para que a função de distanciamento complete sua obra e chegue a produzir a oposição do sujeito e dos objetos, promovendo o existente nos limites de um face a face que faz ressaltar seu ser e o manifesta como já-aí, é necessário que o sujeito seja reenviado a si mesmo e abandonado, como “largado”, parecendo haver contradição entre a função de pertencimento e a função de desamparo, embora ambas só façam sentido uma pela outra, sendo indissociáveis.
6. A indissociabilidade entre pertencimento e desamparo não é pensável no plano do campo de objetivação onde se opera o distanciamento global do conhecimento, reinando nesse plano uma antinomia entre o pertencimento unificante e a separação, antinomia tal que ambos parecem se excluir, tornando essa exclusão dificilmente pensável a unidade do espetacular e da existência, o que parece condenar o filósofo a fazer deles duas essências distintas.
7. É porque o campo de objetivação distancia sujeito e objetos que parece impossível pertencer-lhe de fio a pavio, aparecendo o fora da visão como exterioridade radical, traço do olhar puro incapaz de abrigar o olho que olha, um puro vazio que não traça, entre o homem e as coisas, senão uma relação rigorosamente superficial.
8. As duas funções são, contudo, inseparáveis, pois se o sujeito é reenviado a si mesmo e centrado sobre si pela assunção de seus limites, é porque ele comparece no fora da objetivação, na cena comum do sujeito e do objeto, requerendo isso que pertença pelo dentro a esse fora do qual é, todavia, o polo complementar para o conhecimento.
9. Faz-se assim pressentir o caráter segundo da objetivação, sendo esta a estranha necessidade: a condição da realidade supra-objetiva da objetivação reside num nível anterior a ela, não sendo esta um fato primeiro.
10. Desenha-se assim a noção de certa idealidade da objetivação, idealidade não contraditória com sua realidade, noção que se torna pensável a partir da significação da palavra “aparecer”, que significa vir a fora, emergir, podendo ter dois sentidos: sair à luz, produzir-se no campo do fenômeno, ou ainda emergir, produzir-se em sentido absoluto, vir a fora no espaço em si, antes do conhecimento, havendo assim dois níveis ou duas camadas: a produção horizontal, aparição a título de objeto, em face, à distância, e a produção vertical, aparição para ninguém, no absoluto.
11. A aparição horizontal não seria senão o signo da aparição absoluta, seu testemunho de certo modo, tendo a “luz” duplo sentido, podendo seu dia ser tanto o da distância espetacular da aparição e a entrada do existente na cena da aparição quanto o espaço da produção em si, uma objetivação num sentido muito mais radical, a vinda da forma.
12. Se a “luz” tem esses dois sentidos, eles não podem ser equivalentes, não tendo a mesma pretensão à originariedade, sendo o espaço como cena da atualização em si anterior ao espaço como cena da aparição objetiva horizontal, não podendo esta ser a realidade absoluta e primeira, mas apenas uma ideia ou signo da aparição primordial.
13. Se a objetivação é sintoma ou símbolo de um processo vertical, é possível “ler” a dimensão horizontal como indicação, significante de si mesma, do processo vertical, sendo a objetivação uma poesia que basta ouvir tal como se dá para nela deixar ressoar o eco de um pertencimento primeiro.
14. Tratando-se de um signo que revela sua própria secundariedade, o vínculo com o tema da oscilação afetiva e a dupla significação da experiência de realidade descrita anteriormente é o seguinte: um signo que se dá como signo não é véu nem ilusão, anunciando antes a verdade antecedente da qual é portador.
15. Compreende-se também melhor a complementaridade entre conhecimento e ação, pois se o sentido primeiro de “luz” é a aparição em si da forma, esse sentido não vai sem um caráter de vinda, de vinda ativa do existente, sendo a vinda primitiva do existente no “dia” absoluto uma vinda ativa.