Uma possibilidade é entender a abertura como condição de possibilidade da descobertura, de modo que, sem abertura, não haveria descobertura, mas há muitos fenômenos que dependem da abertura, como a disposição afetiva do medo, sem que por isso a abertura seja chamada medo primordial, exigindo-se algo mais
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A preposição com talvez aponte para o modo como a descobertura necessariamente acompanha a abertura, sendo o ser-em-meio-a entes intramundanos elemento constitutivo do cuidado (
Sorge), de modo que a descobertura dos entes faz parte do pacote que se recebe com a abertura, havendo outros fenômenos igualmente parte desse pacote, como a linguagem, sem que a abertura seja chamada linguagem primordial, exigindo-se ainda algo mais
A descobertura não está apenas fundada na abertura nem é apenas consequência necessária dela, mas é uma forma de abertura, compartilhando ambas o caráter de desvelamento ou desencobrimento, termos por vezes usados nesses contextos, sendo ambas modos pelos quais fenômenos se tornam acessíveis ou se tornam acessíveis ao ser-aí, não sendo, contudo, equiprimordiais, pois a abertura é mais fundamental por instituir os próprios termos sobre cujo pano de fundo a descobertura ocorre
Para poder asserir que o café está frio ou que o tempo parece de chuva, é preciso compreender café e chuva, não apenas as palavras café e chuva, mas os próprios fenômenos
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Compreender um fenômeno é projetá-lo sobre um campo de possibilidades, exigindo apreensão prática do lugar do café na vida humana, em particular da significância do café frio em oposição ao quente, e do lugar do tempo na vida humana, em particular da significância da chuva para as várias coisas que se poderia fazer no dia
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Esses campos de possibilidade constituem o que se chama sentido (Sinn) dos fenômenos, termo que não se refere ao sentido linguístico ou semântico, chamado significação, mas a um sentido existencial mais amplo, sendo necessário, para asserir algo sobre o tempo de modo a exibir os entes tal como são, apreender o campo de possibilidades em termos do qual os entes exibidos pela asserção fazem sentido
O problema levantado por
Tugendhat poderia parecer ressurgir, pois compreender o sentido de tempo e chuva é condição para asserir qualquer coisa, sem ainda distinguir verdade de falsidade, já que se deve compreender o sentido de chuva simplesmente para poder fazer a asserção, seja ela verdadeira ou falsa
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A abertura é verdade primordial por instituir os termos para a descobertura, fornecendo ambas, descobertura e abertura, acesso aos entes e ao mundo, ainda que em níveis distintos de análise, sendo preciso mostrar como o acesso fornecido pela abertura pode ser verdadeiro ou falso em algum sentido reconhecível desses termos
Uma reflexão sobre a linguagem mostra que fazer uma asserção exige usar uma língua, não sendo as línguas meros blocos inertes para construir asserções, envolvendo o próprio vocabulário usado uma perspectiva sobre o mundo implícita na língua
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Debates sobre a língua usada para descrever pessoas são por isso tão politicamente carregados, sendo os confrontos políticos recentes sobre como falar de pessoas trans ou não binárias, sobre como lidar com pronomes, mais do que mera disputa por palavras, ignorando quem responde a tais debates com indiferença o que está em jogo neles, incorporando a língua usada para descrever a nós mesmos e aos outros toda uma conceitualidade (
Begrifflichkeit), conceitualidades capazes de desvelar melhor ou pior o mundo, podendo por isso ser verdadeiras ou falsas
A língua usada para descrever pessoas trans, ou para falar de povos indígenas, de raça e etnia, não é verdadeira ou falsa em virtude de corresponder ou não ao modo como o mundo é, razão pela qual os fatos da biologia não podem refutar a ideia de que mulheres trans são mulheres, podendo-se avaliar conceitualidades inteiras em termos de outros traços, como serem cruéis, libertadoras, justas ou injustas
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O ponto a reter, ao reconstruir a concepção de verdade primordial, é que essa abordagem permite formular tais questões, sem respondê-las
A análise poderia se estender ainda às teorias científicas naturais, discutíveis também em termos de verdade primordial, embora essa linha de pensamento não seja desenvolvida em Ser e Tempo, exigindo distinguir entre uma teoria científica propriamente dita, proposta para explicar um conjunto definido de fenômenos, e a conceitualidade em que essa teoria se enquadra
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Teorias que compartilham uma conceitualidade podem competir entre si, e só por isso se pode dizer de uma teoria que ela é simplesmente verdadeira enquanto uma concorrente não é, descobrindo as asserções implicadas por uma teoria os entes tal como são, ao passo que as implicadas por uma concorrente não o fazem
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Quando teorias científicas não compartilham uma conceitualidade, as questões se tornam muito mais difíceis, perguntando-se em virtude de que um modo científico de pensar o mundo seria melhor que outro, questões discutidas, por vezes sob o título de incomensurabilidade, desde a publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas de Kuhn em 1962, havendo muito a dizer que não é dito aqui, apenas se estabelecendo o modo como tais questões deveriam ser abordadas, sem respondê-las
Uma afirmação intrigante sustenta que a abertura mais primordial, e de fato mais autêntica, em que o ser-aí, como poder-ser (
Seinkönnen), pode ser, é a verdade da existência, tornando-se esta existencial e ontologicamente determinada somente em conexão com a análise da autenticidade do ser-aí
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Isso poderia sugerir que os desvelamentos do mundo só podem ser primordialmente verdadeiros se forem autênticos, não se dizendo nada sobre os termos em que se pode discutir a verdade ou falsidade de um desvelamento de mundo, talvez simplesmente porque tais termos são geralmente fáticos, concernindo a conceitualidades concretas e a modos concretos pelos quais podem desvelar ou encobrir
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O foco em Ser e Tempo recai sobre os modos pelos quais as conceitualidades usadas para falar da existência humana revelam ou ocultam nosso ser, argumentando-se na Divisão II que o ser do ser-aí é desvelado de modo especialmente claro na autenticidade, sendo apreender esse desvelamento e viver de acordo com ele a verdade da existência, e por isso a forma mais primordial de verdade, por ser ontológica
A afirmação do §44c de que a verdade é relativa ao ser do ser-aí não pretende endossar relativismo sobre a verdade em sentido convencional algum
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Não se admite a noção de que duas pessoas possam acreditar em coisas contraditórias sendo ambas verdadeiras, nem se nega que as visões em que se tem maior confiança, como as leis da lógica, sejam vinculantes para o que se diz e pensa, negando-se assim que a verdade seja deixada ao critério do sujeito
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O ponto é antes que, se a verdade é um aspecto de algumas asserções, e mais basicamente do desvelamento fundamental do mundo, então os portadores de verdade são aspectos da própria atividade, sendo as asserções e o desvelamento do mundo verdadeiros ou falsos, não proposições atemporais que carregariam verdade independentemente das línguas usadas e dos mundos desvelados
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Antes de descobertas as leis de Newton, elas não eram verdadeiras, o que não implica que fossem falsas, ou mesmo que se tornariam falsas se onticamente nenhuma descobertura fosse mais possível, sendo o ponto apenas que há verdade somente enquanto o ser-aí é e enquanto o ser-aí é, concluindo-se não poder haver verdades atemporais ou eternas porque o ser-aí não é atemporal nem eterno