A um possível objetor que insiste em que o martelo só pode estar disponível por também ocorrer como coisa fisicamente neutra, Heidegger responde que, mesmo concedendo que o manual só é por razão do simplesmente dado, disso não se segue que a manualidade se funde ontologicamente na presença-simples, pois o martelo é martelo por ter sido designado ao papel de cravar e arrancar pregos, e não por suas propriedades físicas
Os materiais, como o couro, a linha e as agulhas na obra, e mais amplamente a natureza, descoberta juntamente pelo uso do utensílio, mostram-se como o bosque de madeira, a montanha de pedreira, o rio como força hidráulica e o vento nas velas, encontrando-se a natureza, de modo próximo e habitual, como algo manual
Os signos, como o pisca-pisca do carro, são espécie especial de utensílio, utensílio indicador, assimilado por Heidegger aos signos naturais, como as nuvens de tempestade, ao passo que a linguagem não é concebida como sistema de signos, mas como meio expressivo de partilha do mundo
A noção de referência (
Verweisung), presente na estrutura do para-isso, expande-se na noção de envolvimento (
Bewandtnis), segundo a qual um ente manual é o que é em virtude de seu envolvimento num papel a ele designado, o que permite estender a manualidade para além do utensílio a objetos como pinturas, artefatos religiosos e romances, cujo ser consiste em envolvimento
Ampliando-se o foco para além das ferramentas, torna-se menos evidente que o manual dependa do simplesmente dado, como no caso do drama Hamlet, do qual dois leitores têm exemplares distintos mas leem o mesmo drama, não se reduzindo essa relação entre drama e exemplar às categorias tradicionais de universal e particular ou tipo e ocorrência
Circunspecção e ruptura
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Na lida cotidiana, o utensílio manual próximo deve, por assim dizer, retirar-se para ser autenticamente manual, não sendo aquilo com que primariamente nos ocupamos, mas a obra a ser produzida
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O trato com os entes manuais não é cego, possuindo modo próprio de visão que guia a manipulação e lhe confere confiabilidade, subordinando-se ao múltiplo das referências do para-isso, sendo essa visão a circunspecção (
Umsicht)
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ao cravar um prego com o martelo, o modo de manejá-lo calibra-se à situação sem necessidade de deliberação reflexiva, e refletir sobre o gesto atrapalha a execução
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o exemplo do carpinteiro-mestre, capaz de conversar e opinar sobre política enquanto faz um corte perfeitamente reto, sem olhar constantemente para o que faz, ilustra a mestria adquirida por décadas de experiência, em contraste com a falta de destreza do próprio autor ao usar a serra circular
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Quando o utensílio malfunciona ou resiste, tematizado no §16 sob os termos de conspicuidade, obstinação e obtrusividade, força-se o foco sobre ele, sendo a distinção entre manual e não-manual relativa às habilidades de cada um
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uma embreagem emperrada pode ser sério desafio para um motorista, mas nenhum problema para outro mais experiente ou para o dono do carro já habituado a ela
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a não-manualidade não é modo distinto de ser nem modo de presença-simples, sendo antes modo deficiente da manualidade, de modo que um martelo quebrado não é apenas madeira e metal, mas martelo quebrado
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Na ruptura, a pura presença-simples anuncia-se no utensílio malfuncionante apenas para retirar-se de novo na manualidade daquilo com que se ocupa ao consertá-lo, tornando-se salientes propriedades físicas antes irrelevantes, como a cor do martelo, notada apenas quando quebrado
Significância e mundanidade
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A circunspecção é guiada pela totalidade de referências que contextualizam a tarefa, remetendo do utensílio e material à tarefa e desta a projetos mais amplos, como construir uma prateleira a fim de organizar a garagem
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Esses envolvimentos remetem, em última instância, a um para-o-bem-de-que (
Worumwillen), que sempre concerne ao ser do ser-aí (Dasein), para o qual seu próprio ser é, em seu ser, uma questão
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Não há necessidade nem conveniência em supor um único para-o-bem-de-que último que ancore toda a existência, como o fim último da vida humana postulado por
Tomás de Aquino, pois a deliberação racional é modo especial de experiência que surge sob certas pressões práticas, sendo mais comum navegar as tensões entre os múltiplos para-o-bem-de-que — ser pai, marido, filho, vizinho — pelo modo como cada um importa
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A estrutura do para-isso, unificada e remetida aos para-o-bem-de-que, constitui a significância (
Bedeutsamkeit), composta de relações de significar, estrutura que perfaz a totalidade relacional daquilo em que o ser-aí, enquanto tal, já é
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O mundo não é apenas contexto de utensílios, mas também contexto humano, uma trama de papéis fundada nas possibilidades humanas que sustenta, de modo que martelos, pregos e tábuas não fazem sentido fora da carpintaria e da posse de casa, assim como não há ser carpinteiro fora das ferramentas e tarefas do ofício
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Aquilo em que o ser-aí se compreende de antemão, no modo de remeter-se a si mesmo, é aquilo em termos do qual já deixou os entes ao encontro previamente, e esse em-que constitui o fenômeno do mundo, horizonte unitário de compreensão em cujo pano de fundo se dá sentido tanto à vida humana quanto aos utensílios nela envolvidos
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O ser-aí (Dasein), enquanto é, já se submeteu sempre a um mundo que vem ao encontro, submissão que pertence essencialmente a seu ser, o que contrasta com as fantasias filosóficas de desencarnação, como o caráter inteligível kantiano, a nulificação do mundo em
Husserl ou a visão de lugar nenhum (view from nowhere) de Thomas Nagel, prefiguradas já na filosofia pitagórica e platônica que opõe a prisão terrena da vida encarnada à morada pura do além, sendo antes próprio do ser humano estar enredado no mundo, incapaz de dele se desvencilhar, o que se resume na fórmula ser-no-mundo