O contraste com as coisas não humanas evidencia essa característica: a essas entidades, seu ser é indiferente, ou, mais precisamente, são de tal modo que seu ser não pode ser nem indiferente nem o contrário, contraste próximo do comentário de John
Haugeland sobre inteligência artificial, segundo o qual o problema da inteligência artificial é que computadores não se importam
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o problema da inteligência artificial seria antes que computadores nem se importam nem deixam de se importar
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a vida importa a cada um, mesmo quando importa por ser negligenciável ou irrelevante, ao passo que coisas não humanas não têm relação alguma com nada
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viver uma vida é responder à pergunta pela identidade, o que pode ser descrito, nos termos de Christine Korsgaard, como identidade prática
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a peculiaridade do ser do ser-aí, o que ele é, permanece velada quanto a seu de-onde e para-onde, mas se revela nele mesmo de modo ainda mais desvelado, o que se chama de jogado-ser (
Geworfenheit) desse ente em seu aí
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o si-mesmo, que como tal tem de lançar o próprio fundamento, jamais pode ter esse fundamento sob seu poder
Ao determinar-se como ente, o ser-aí sempre o faz à luz de uma possibilidade que ele mesmo é e que, em seu próprio ser, de algum modo compreende, sentido formal da constituição existencial do ser-aí, retomado em §12, onde se afirma que o ser-aí é ente que, em seu ser, se comporta compreensivamente em relação a esse ser, conceito formal de existência
A autoconsciência básica do ser-aí não é forma de consciência no sentido usual nem de subjetividade tradicional, razão pela qual Heidegger prefere o termo abertura (
Erschlossenheit) a autoconsciência ou subjetividade, estando o ser-aí aberto a si mesmo, sobretudo, ao importar-se com quem é
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a pergunta pela identidade está em jogo mesmo quando não se tem consciência dela, o terceiro traço ontológico: o ser-aí está entregue a seu ser
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essa formulação inspirou o lema sartriano estamos condenados a ser livres
O sentido heideggeriano-existencialista de si-mesmo ultrapassa as preocupações éticas com a responsabilidade pelos próprios atos, envolvendo também como se sente, age, se dispõe, fala e com quem se relaciona, como no exemplo de estar numa festa entre amigos quando um deles faz comentário sutilmente racista ou sexista, sem que se seja responsável, mas ainda assim sentindo-se implicado, pois quem se é é mais fundamental do que aquilo pelo qual se é responsável
O cuidado consigo estende-se ao cuidado com quem os outros são, nomeado em I.4 solicitude (
Fürsorge), de modo que a pergunta pela própria identidade envolve também a pergunta pela identidade alheia, não sendo possível desvincular quem se é de quem são aqueles ao redor, fenômeno chamado de imersão do si-mesmo no mundo social
A imersão do si-mesmo no mundo social não é tese psicológica sobre interdependência causal nem tese metafísica sobre interdependência de substâncias, mas tese fenomenológica sobre o modo como se está aberto a si mesmo, sendo a mediania (
Durchschnittlichkeit) o caráter indiferenciado que o ser-aí tem de modo próximo e na maioria das vezes
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experimentar-se como isolado dos demais, não apenas alienado, mas como sendo quem se é independentemente dos outros, é altamente atípico e dificilmente sustentável, encontrando-se sobretudo como rejeição dos modos de vida alheios, isolacionismo que ainda envolve cuidado pelo ser dos outros
A imersão no mundo social envolve certa abdicação da posse de si mesmo, dispersão no mundo social contraposta à propriedade de si ou autenticidade (
Eigentlichkeit), diante da qual, simplesmente por ser humano, coloca-se a escolha entre apropriar-se de si e dispersar-se
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porque o ser-aí é, em cada caso, essencialmente sua própria possibilidade, ele pode, em seu próprio ser, escolher-se e ganhar-se a si mesmo, ou pode perder-se e nunca se ganhar, ou apenas parecer fazê-lo, só podendo ter-se perdido e ainda não ganhado na medida em que é essencialmente algo capaz de ser próprio
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a propriedade de si consuma-se na constância de si mesmo, descrita como firmeza estável, conquista obtida por luta, não dada como condição lógica da experiência
A introdução da autenticidade aponta para outra dimensão: não apenas quem se é como indivíduo particular está em questão no comportamento cotidiano, mas também a própria compreensão do que é ser humano, ser-aí, distinguindo-se o existenciário (
existenziell), relativo aos entes, do existencial (
existenzial), relativo ao ser
A resposta heideggeriana à tradição kantiana da unidade da autoconsciência é que a abertura a si mesmo é mais fundamental do que a autoconsciência cognitiva ou a responsabilidade moral, sendo o próprio ser uma questão constantemente enfrentada ao viver adiante numa vida que importa, mesmo na condição excepcional de perda de interesse pela vida, de alienação radical discutida sob a rubrica da angústia, permanecendo inescapável a pergunta pela identidade, revelando-se o si-mesmo não como indivíduo isolado e persistente, mas imerso num mundo social que também o concerne
Com essa concepção do ser do ser-aí em foco, traça-se distinção fundamental entre o ser-aí, cuja essência reside em seu ter-de-ser, e todo o restante, reservando-se existência (
Existenz) para o ser do ser-aí e ser-simplesmente-dado (
Vorhandenheit) para o ser dos entes diversos dele, noção cujo sentido preciso é objeto de disputa, notando Denis McManus haver usos distintos e incompatíveis do termo em Heidegger, podendo em geral pensar-se os entes simplesmente dados como sendo o que são independentemente do mundo social humano
À luz dessa distinção entre ser-aí e simplesmente dado, reserva-se categoria para os traços ontológicos do simplesmente dado e existencial (existenziale, plural existenzialia) para os traços ontológicos do ser-aí, sugerindo-se que a análise categorial tradicional, como as Categorias de
Aristóteles e a Tábua de Categorias kantiana, funda-se numa concepção do ser como ser-simplesmente-dado