Aquilo que pode ser expressivamente articulado na interpretação, e mais primordialmente ainda no discurso, é o que se chamou de sentido
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o dar sentido a canecas de café usando-as para beber café exemplifica um envolvimento entre outros entrelaçados numa matriz de possibilidades, que inclui também modos possíveis de ser ser-aí
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os elementos dessa matriz “apontam para” ou “significam” uns aos outros, sendo a totalidade dessas indicações a significância
Aquilo que se articula estruturalmente como tal na articulação expressiva do discurso chama-se totalidade-das-significações, dissolúvel em significações, sendo as significações, como o que foi expressivamente articulado a partir do que pode ser articulado, sempre portadoras de sentido
A intelegibilidade do ser-no-mundo se exprime como discurso, sendo posta em palavras a totalidade de significações da inteligibilidade, acrescentando-se palavras às significações
O discursar é o modo pelo qual se articula “significantemente” a inteligibilidade do ser-no-mundo, corrigindo formulações anteriores no sentido de que no discurso não apenas se põe em palavras uma inteligibilidade prévia, mas também se a articula estruturalmente, o que constitui uma reafirmação do constitutivismo linguístico
A maneira como o discurso se exprime é a linguagem, um todo de palavras dotado de um ser “mundano” próprio, podendo essa totalidade ser encontrada como à-mão e decompor-se em coisas-palavras simplesmente dadas
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essa sugestão inicial, de palavras como ferramentas afinal simplesmente dadas, é corrigida quando se pergunta que tipo de ser tem a linguagem, se pode haver algo como uma língua “morta”, implicando que as línguas têm o tipo de ser do ser-aí
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em Problemas Fundamentais, afirma-se que a linguagem não é idêntica à soma total de palavras impressas num dicionário, mas, por ser como o ser-aí é, por existir, é histórica
Ouvir e calar são possibilidades pertencentes ao discurso falante, não sendo perturbações acústicas nem inscrições gráficas nem sequer palavras, tornando-se nesses fenômenos inteiramente clara pela primeira vez a função constitutiva do discurso para a existencialidade da existência
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o ser-em e sua disposição se dão a conhecer no discurso e se indicam na linguagem pela entonação, modulação, ritmo da fala, “o modo de falar”
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o discurso compreende não apenas palavras e gramática, mas também o modo de usar uma língua para comunicar, indo muito além da “semântica” em sentido estrito
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há razão para estender o termo “linguagem” para além das línguas em sentido estrito, incluindo a linguagem corporal, a “linguagem da arte”, a dança, a jardinagem e muito mais, como modos de comunicação que expressam a compreensão das possibilidades em termos das quais as coisas fazem sentido e importam
A análise estrutural do discurso reflete a estrutura tripartite da asserção, sendo o discursar sempre discurso sobre algo, que não precisa necessariamente servir de tema a uma asserção, sendo aquilo de que se discursa sempre endereçado num respeito definido e dentro de certos limites
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o comportamento expressivo e comunicativo — falar, escrever, mimar, dançar — é sempre sobre algo, exibindo entes de modo definido, dizendo algo sobre eles, exprimindo tanto uma compreensão das possibilidades em termos das quais os entes fazem sentido quanto uma sintonia com os modos como importam, sendo por meio dessas facetas que o ser-aí se exprime
Um dos aspectos do exprimir-se é o estabelecimento de um tom, exemplificado por anunciar de modo autoirônico “e agora, le pièce de résistance” ao trazer o prato principal de um jantar, ou pela diferença de tom entre vestir terno formal e vestir bermuda e camiseta, orientando em cada caso a experiência conjunta em direção ao mundo de modo diferente
Heidegger reorienta a abordagem da linguagem deslocando o paradigma da atividade linguística, deixando de ser a asserção o paradigma para dar lugar à poesia, à conversa fiada, ao gracejo e à canção, formas mais amplas e amorfas de comunicação
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ao cantar Robert Johnson “hellhound on my trail” ou “blues falling down like hail”, não está fazendo uma asserção, mas exprimindo uma atmosfera compartilhada por quem escuta sua canção assombrada
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a pesquisa filosófica terá de dispensar a “filosofia da linguagem” caso pretenda investigar “as coisas elas mesmas” e alcançar o estatuto de uma problemática conceitualmente esclarecida, o que exige ir além do estudo restrito da asserção
Qualquer uso concreto da linguagem, qualquer ato expressivo concreto, exibe as três facetas da abertura, tal como sintonias e interpretações, expressando entonação, modulação e ritmo da fala a disposição, e a conceitualidade que perpassa o uso da linguagem a articulação estrutural das possibilidades concretas do ser dos entes, não nomeando “discurso” uma ação concreta específica, mas uma faceta ou dimensão de tudo o que o ser-aí faz