O ser é sempre questão e, para sê-lo, deve importar, sendo as maneiras pelas quais importa desveladas na afinação, de modo que fracasso, êxito, peso, leveza, culpa e liberdade são modos de portar-se na vida e não meras disposições internas.
-
O importar é condição do ser-em-questão.
-
Ser fracassado ou estar em alta descreve modos existenciais de condução.
-
A vida pode ser sentida como fardo ou como facilidade.
-
Pode haver sensação de estar liberado ou encurralado.
-
Culpa e leveza são modalidades do carregar-se no mundo.
-
A afinação manifesta como alguém está e como está indo.
-
A afinação não apenas dá o tom da vida, mas sintoniza para os imports diferenciais de coisas, pessoas e eventos, de modo que o medo revela o temível como ameaçador, e a temibilidade não é traço neutro, mas descoberta pela própria afinação.
-
Import é o modo como algo importa.
-
O medo sintoniza para o temível.
-
Perigo objetivo pode existir sem ser percebido.
-
Temível é o que é desvelado como ameaçador pelo medo.
-
A pessoa destemida não vivencia o temível com a mesma prontidão.
-
O chefe não aparece como temível para quem o enfrenta facilmente.
-
O contraste entre destemor e temor exibe que o medo possui duas faces inseparáveis — o ente temível e o Dasein que teme — e rejeita modelos em camadas que separam realidade neutra e experiência valorada, pois o medo já descobre o ameaçador em sua temibilidade.
-
O medo envolve simultaneamente o que ameaça e quem é ameaçado.
-
Modelo em camadas distinguiria neutralidade afetiva e valoração posterior.
-
A apreensão de mal futuro não precede o medo.
-
O medo não acrescenta depois uma coloração ao que já foi notado.
-
O medo descobre previamente o que se aproxima como temível.
-
A comicidade de personagens que gritam tarde explora contraste com a experiência ordinária.
-
A diferença entre julgar perigo e experimentar ameaça mostra que a linguagem e o conteúdo perceptivo já trazem import, e que o ser-no-mundo é fenômeno unitário cujas facetas podem ser distinguidas analiticamente sem isolamento conceitual, sendo o medo um modo ôntico de disposição pertencente ao ser-no.
-
Um cão pode ser perigoso sem ser vivido como ameaçador.
-
Descrever o cão como rosnando já pertence ao contexto do medo.
-
Ser-no-mundo inclui mundo, quem está-no-mundo e ser-no.
-
As facetas são distinguíveis, mas não separáveis conceitualmente.
-
Disposição é faceta do ser-no.
-
O medo é modo concreto de disposição em que ameaça e ameaçado são intrinsecamente correlatos.
-
O exemplo do cão grande e agressivo evidencia que, ao cessar o medo e surgir conforto, o próprio conteúdo do que é visto muda, pois traços antes salientes como dentes e músculos cedem lugar a padrões e suavidade, indicando que a experiência é atravessada por import.
-
O cão aparece como temível sob medo.
-
Dentes e musculatura tornam-se proeminentes.
-
A intervenção do dono altera o campo da experiência.
-
O contato amigável dissolve o aspecto de temibilidade.
-
Outros traços passam a ser notados, como padrão no rosto e maciez.
-
O conteúdo cognitivo varia conforme medo ou conforto.
-
A experiência perceptiva é saturada por import.
-
Modos de sintonização para o importar não se limitam a experiências intensas como medo, pois a confiabilidade cotidiana de utensílios, como a xícara sempre à mão ou o canivete fiel, também constitui import.
-
Confiabilidade é modo de importar.
-
Ação rotineira pressupõe presença estável de objetos.
-
A linguagem de “fiel” expressa esse import.
-
A sintonização cotidiana opera com baixa intensidade.
-
A própria possibilidade ontológica de ser afetado por inutilizabilidade, resistência ou ameaça do disponível exige determinação prévia do ser-no para que o intramundano possa importar, e essa submissão desveladora ao mundo permite que algo relevante encontre.
-
Inutilizabilidade, resistência e ameaça são imports do equipamento.
-
O ser-no deve estar previamente determinado para que algo importe assim.
-
A circunspecção cotidiana é atravessada por afinações.
-
Disposição implica submissão desveladora ao mundo.
-
O encontro do que importa depende dessa abertura.
-
A fenomenologia apresentada sustenta que a afinação é mais ampla que humor, emoção ou afeto, pois inclui sensibilidades e virtudes como modos atmosféricos e compartilháveis de fazer distinções e perceber chamadas à ação, sem reduzir-se a estados internos privados.
-
Sensibilidade de conhecedor torna distinções refinadas relevantes.
-
Connoisseur de vinho, arte, carros ou café percebe diferenças que outros não veem.
-
A presença do conhecedor altera a atmosfera e produz autoexperiência de rudeza.
-
A sensibilidade funciona como ambiência compartilhada.
-
Virtude, em leitura aristotélica, inclui modo de ver e notar o que pede compaixão.
-
A pessoa bondosa percebe sofrimento e sente-se convocada a responder.
-
Intervenção bondosa em abuso verbal sintoniza a situação como exigindo cuidado.
-
A virtude torna-se imediatamente inteligível na cena compartilhada.
-
A síntese da fenomenologia reúne que afinações desvelam imports, operam atmosfericamente como tenor situacional, manifestam como alguém está e como vai, e não atuam como coloração posterior de objetos cognitivos previamente dados.
-
Afinações mostram modos de importar de coisas e da própria vida.
-
Afinações funcionam como sintonização de situação, não como interioridade privada.
-
A auto-revelação inclui avaliação prática de estar indo bem ou mal.
-
Objetos não são primeiro dados neutros para depois serem interpretados.
-
O importar constitui o próprio modo de aparecer do intramundano.