O termo “queda” desloca-se na arquitetônica de Heidegger e deve ser tratado como ambíguo, sendo necessário distinguir os fenômenos a que se aplica, especialmente quando §41 reconstrói a estrutura do cuidado ao caracterizar a existencialidade como ser-adiante, a facticidade como já-ser-em e coordenar a ambos o ser-junto (Sein bei), entendido como o modo pelo qual Dasein está em meio aos entes intramundanos.
-
§41 redefine existencialidade como ser-adiante.
-
A facticidade é caracterizada como já-ser-em.
-
O ser-junto é coordenado com essas determinações.
-
A queda pertencente ao cuidado identifica-se com o ser-junto.
-
Dasein é descrito como estando em meio a entes que aparecem intramundanamente.
-
O ser-junto designa o comércio essencial de Dasein com entes que aparecem no interior do mundo, sendo inicialmente apresentado em §12 como familiaridade com o mundo, embora a distinção posterior em §14 entre mundo enquanto meio social concreto e “mundo” enquanto totalidade de entes intramundanos esclareça que se trata da familiaridade com os entes do “mundo” técnico.
-
Em §12, ser-junto conota familiaridade ambiental.
-
Em §14, distingue-se mundo como meio social e “mundo” como totalidade de entes.
-
O mundo é o âmbito em que Dasein vive.
-
O “mundo” é a totalidade de entes que podem ocorrer no mundo.
-
A formulação posterior especifica o ser-junto como familiaridade com entes intramundanos.
-
O ser-no designa a familiaridade básica de Dasein com o mundo.
-
Dasein está no mundo e em meio ao intramundano.
-
Fenomenologicamente, o ser-junto não constitui relação causal ou objetiva entre Dasein e entes intramundanos, mas modo existencial de familiaridade que distingue Dasein dos entes simplesmente localizados, pois “ser” enquanto infinitivo de “eu sou” significa residir e estar familiarizado com.
-
§12 distingue localização espacial de ser-junto existencial.
-
Dasein é familiar com seu mundo e com os entes nele.
-
A expressão “eu sou” implica residir e habitar.
-
Ser significa estar familiarizado.
-
O mundo não é estranho nem desconhecido a Dasein.
-
A familiaridade com o intramundano equivale a absorção no mundo da ocupação, fundada no ser-no-mundo e reiterada em §41 como o fato de que a existência fática é sempre já absorvida no mundo de sua preocupação.
-
O ser-junto é fundado no ser-no.
-
A absorção é caracterizada como Aufgehen na Welt.
-
A existência fática é lançada como poder-ser-no-mundo.
-
Essa existência é sempre já absorvida no mundo da ocupação.
-
A queda integra essa estrutura de absorção.
-
A absorção no intramundano manifesta-se no uso constante de utensílios e condições práticas em toda atividade, inclusive teórica, sem implicar necessariamente fixação temática nos instrumentos empregados.
-
Compras envolvem uso de carro, carrinho e dinheiro.
-
Toda atividade supõe comércio com entes intramundanos.
-
A pesquisa teórica possui sua própria práxis.
-
O disponível retira-se em sua disponibilidade.
-
A atenção concentra-se na tarefa, não nos utensílios.
-
A absorção não é necessariamente temática.
-
A absorção pode ser compreendida como ocupar-se com o intramundano, mesmo sem atenção explícita, o que se evidencia em descrições fenomenológicas do agir cotidiano e em análises desenvolvidas por
Dreyfus (1979, 1991) e Dreyfus e Dreyfus (1986).
-
O ocupar-se pode ocorrer de modo habitual e não consciente.
-
No exemplo de Jones fazendo compras, há controle habitual do carrinho.
-
Ao assistir a um jogo de beisebol, Jones ajusta o corpo, bebe refrigerante e manipula objetos sem tematização.
-
Grande parte da interação com o ambiente ocorre de modo subliminar.
-
Nessas ações, Dasein ocupa-se continuamente com as coisas do entorno.