BLATTNER, William D. Heidegger’s temporal idealism. Cambridge, U.K. ; New York: Cambridge University Press, 1999.
A tese da habilidade: Todas as características do Dasein são características de habilidade.
“Mas certamente”, alguém poderá objetar, “esta Tese da Habilidade é indefensável: O Jones tem muitas características de estado, como o fato de ter um metro e oitenta”. Para defender a Tese da Habilidade, argumentarei, em primeiro lugar, que a característica de estado de ter um metro e oitenta está intimamente associada a uma característica de habilidade auto-interpretativa e, em segundo lugar, que o Dasein só pode ser identificado com a característica de habilidade relacionada, não com a característica de estado.
-
A defesa da Tese da Habilidade sustenta que as características de estado, como ser seis pés de altura ou ser biologicamente do sexo feminino no caso de Jones, encontram-se intimamente associadas a características auto-interpretativas que exprimem modos de ser compreendidos e assumidos, de modo que Dasein deve ser identificado não com o estado factual, mas com a habilidade correlata que encarna a autocompreensão.
-
A estatura, entendida como modo de portar-se enquanto pessoa alta, corporifica a autocompreensão de Jones acerca de sua altura física.
-
Tal estatura não é puramente física, pois não constitui atributo que uma árvore da mesma altura possa possuir.
-
A autointerpretação da altura pode manifestar-se em atitudes de superioridade ou, inversamente, em embaraço e retraimento.
-
De modo análogo, ser biologicamente feminina distingue-se de ser feminina enquanto interpretação assumida desse dado biológico.
-
A linguagem corrente acerca de graus de feminilidade e masculinidade evidencia o caráter interpretativo dessas determinações.
-
As características auto-interpretativas de ser alta e ser feminina correspondem às habilidades correlatas às características factuais de altura e sexo biológico.
-
As características auto-interpretativas constituem habilidades que exigem saber-como, podendo ser aprendidas, exercidas e desempenhadas de modo mais ou menos adequado, o que evidencia sua distinção em relação aos estados meramente factuais.
-
Ser seis pés de altura ou biologicamente feminina não implica qualquer know-how, ao passo que ser alta ou feminina envolve modos de conduzir-se e relacionar-se.
-
A falha no desempenho de tais habilidades torna-se perceptível quando alguém tenta afirmar superioridade física e fracassa, revelando inadequação no portar-se.
-
O comportamento de quem tenta impor-se fisicamente e termina por parecer tolo ilustra a dimensão prática dessas habilidades.
-
Tais modos de ser são aprendidos, socializados e até dominados, à semelhança de outras determinações auto-interpretativas como ser americana ou burguesa.
-
Cada característica de estado considerada, como altura ou sexo biológico, associa-se estreitamente a uma habilidade auto-interpretativa correspondente.
-
A análise não depende da oposição entre estado físico e habilidade auto-interpretativa, pois mesmo características aparentemente interpretativas e estatais, como ser líder de um grupo de leitura, revelam-se no exame final como conjuntos de habilidades exercidas.
-
A condição de líder não decorre naturalmente, mas de uma inserção social e interpretativa específica.
-
Segundo Heidegger, tal condição não constitui mero estado, pois requer saber como exercer a liderança.
-
Ser líder implica organizar reuniões, conduzir discussões e manejar instrumentos como o telefone, o que envolve capacidades práticas.
-
Características interpretativas que parecem estados revelam-se, em última instância, habilidades.
-
Nenhuma característica interpretativa de Dasein configura-se como simples estado, afastando a restrição do argumento às determinações físicas.
-
A segunda linha de defesa da Tese da Habilidade afirma que Dasein deve ser identificado exclusivamente com suas características auto-interpretativas, e não com suas características factuais, dado que mesmo aquelas que aparentam ser estados interpretativos revelam-se habilidades.
-
A identificação de Dasein com suas habilidades decorre da tese de que Dasein é apenas suas características auto-interpretativas.
-
Características factuais não exprimem o modo próprio de ser de Dasein.
-
A distinção entre o que parece estado interpretativo e o que efetivamente é habilidade prepara a fundamentação dessa identificação exclusiva.
-
Dasein deve ser concebido propriamente por suas características existenciais e interpretativas, podendo, com certa legitimidade e dentro de limites, ser abstraído como algo meramente ocorrente, embora tal abstração não coincida com sua facticidade própria.
-
Heidegger admite que Dasein pode ser considerado como algo ocorrente, termo que designa entes não existenciais.
-
Tal consideração exige abstrair a constituição existencial do ser-no-mundo.
-
Essa abstração apreende um aspecto não existencial de Jones, como sua dimensão biológica.
-
A abstração não se confunde com a ocorrência própria de Dasein, denominada facticidade por Heidegger.
-
A facticidade designa a determinidade de Dasein enquanto ente existencial.
-
A formulação resultante estabelece a Duality Thesis, segundo a qual Dasein pode ser considerado tanto em sua constituição ontológica essencialmente auto-compreensiva quanto de modo abstrato como algo meramente ocorrente.