BÉGOUT, Bruce. Le concept d’ambiance: essai d’éco-phénoménologie. Paris: Éditions du Seuil, 2020.
Defesa da abordagem fenomenológica como a única capaz de respeitar o modo de doação das ambiências, identificando o ser com o aparecer, mas com a necessidade de revisar o modelo fenomenológico dominante.
A fenomenologia pura é criticada como um exame especulativo do aparecer isolado e abstraído, uma “fenomenologia sem fenômenos”.
Esta deriva, ao buscar condições transcendentais, sacrifica a multiplicidade, contingência e fragilidade dos fenômenos, passando para a metafísica e ontologia.
A análise do como (quomodo) da doação e sua articulação com o quê (quid) permanece como horizonte indespassável, mas esse “como” deve ser acolhido como fenômeno, não como condição pura e inaparecente.
Definição da abordagem necessária como uma eco-fenomenologia, que considera o fenômeno a partir de sua inserção em um ambiente (Umgebung) e investiga a dimensão não-cosifica do entorno.
A experiência é primordialmente uma situação originária, uma “peridoação” ou doação do entorno (Umgebung), não um face-a-face sujeito-objeto.
O dado não são os dados ou sense-data, mas o conjunto da experiência que se manifesta como totalidade tonal.
Cita-se a evolução no pensamento de Husserl de uma concepção cosífica para uma concepção medial do Umgebung, que possui uma fenomenalidade irredutível às coisas.
Esclarecimento do ponto de vista ecológico em sentido filosófico, como a consideração da situação ambiental de todo fenômeno, onde a experiência é primeiro da situação pré-dada.
A situação possui um contorno particular que determina como se sente e age dentro de seu perímetro.
A relação frontal eu-mundo é secundária; a situação presente como experiência primeira e englobante é primordial.
O sentido primordial de um fenômeno é medial (sua posição dentro de um meio), e a ambiência expressa a presença do meio sensível.
Definição da eco-fenomenologia como uma filosofia que pensa a imersão prévia do sujeito no que o cerca, afirmando o primado da pertença sobre a relação.
O homem é um ser corpóreo ancorado na realidade, não apenas um indivíduo separado.
Não se trata de uma ecologia fenomenológica nem de uma fenomenologia ecológica, mas de uma fenomenologia do primado da pertença.
A ambiência, como eco-fenômeno, dita a maneira como deve ser recebida, deslocando o olhar do homem para o meio que o imbebe.
Caracterização do foco da eco-fenomenologia no fundo primordial onde as interações aparecem, ou seja, a presença indiferenciada do campo da experiência.
A eco-fenomenologia abandona as interações sujeito-objeto e objeto-objeto.
Seu objetivo é compreender o medium sensível e fluido no qual os indivíduos banham, como um oceano ambientador.
Reafirmação do princípio fenomenológico de que o modo de doação desenha o quadro de interpretação, exigindo uma abordagem fiel ao dado e contestando progressivamente as condições transcendentais fixadas.
A exigência do “retorno às coisas mesmas” impõe à própria pesquisa fenomenológica que conteste suas condições transcendentais prévias (consciência pura, percepção, vida).
A ambiência não é o “fenômeno dos fenômenos”, mas força a considerar a inseparabilidade entre o dado e seu modo de doação.
As condições transcendentais do aparecer aparecem elas mesmas; tudo é dado, e o logos do fenômeno reside na doação fenomenal.
Cita-se o princípio husserliano de se deixar instruir pelos fenômenos para extrair deles conceitos e métodos compreensivos.