Sobre a datação histórica desse projeto, evocada pela citação de Galileu no Saggiatore de 1623, segundo a qual a língua em que está escrito o Livro da Natureza é a lingua matematica, e pela fórmula cartesiana do homem como mestre e possuidor da natureza, corrige que
Descartes não tinha propriamente vontade de tornar-se mestre e possuidor da natureza, não devendo ser confundido com o homem da vontade de potência nietzschiana
-
Situa entre
Descartes e
Nietzsche um caminho balizado pelos nomes de
Leibniz,
Kant,
Fichte,
Schelling e
Hegel, sendo somente com
Nietzsche que a calculabilidade, die Berechenbarkeit, se afirma formalmente como fundamento da dominabilidade, die Beherrschbarkeit, da natureza, segundo o voto não de
Descartes mas de algo mais secreto, a vontade de potência
Confirma não haver em Heidegger nenhuma ofensiva contra a técnica nem denegrimento da ciência moderna, citando-o ao afirmar que seu propósito é trazer mais luz à essência de ambas do que aqueles que, partindo da práxis, antes acumularam obscuridade que esclarecimento, remetendo eventuais pregações contra a técnica aos ecologistas, e não a Heidegger, que em Friburgo vivia cercado do conforto proporcionado pela técnica, com discos e aquecimento central, e não numa caverna
Questionado por que, apesar da vasta bibliografia sobre os perigos da técnica, ninguém parece atribuir importância às questões de Heidegger, compara-o a Cézanne, que também viveu na clandestinidade de Aix-en-Provence e escrevia ao filho que todos os seus compatriotas eram “uns imbecis” perto dele, lamentando que ninguém perceba que a presença de Heidegger no mundo é tão importante quanto a de
Platão,
Aristóteles,
Descartes,
Leibniz,
Kant ou
Hegel, e estranhando que seus compatriotas universitários não tenham compreendido terem sido contemporâneos de quem trouxe à palavra uma interpretação que invalida o que se costuma dizer sobre o assunto
Interrogado se não caberia à própria ciência pensar-se a si mesma, ou à filosofia oferecer esclarecimento mais fundamental sobre a técnica e as ciências a ela ligadas, responde que se trata antes do “passo que retrocede” da filosofia até um pensamento outro que a própria filosofia, no qual esta teria sua fonte, empreendimento que remete aos gregos não para neles permanecer, mas para retomar seu questionamento a partir de uma origem ainda velada, über das Griechische hinaus, para além do próprio grego, até seu início ainda inaparente
Confirma que é justamente isso que Heidegger, desde o início de sua conferência de 1953, chama ter uma relação mais livre com a técnica, esclarecendo que o comparativo “mais livre” é acréscimo seu, preferido ao absoluto “livre” empregado por Heidegger, ajuste que este teria aprovado inteiramente