Constata-se como particularidade significativa do pensamento francês contemporâneo o pouco interesse dedicado aos filósofos pré-socráticos, considerando-se tacitamente que a filosofia começa com
Sócrates, tal como conhecido por Xenofonte e
Platão, sendo os textos atribuídos a
Parmênides,
Heráclito ou Pitágoras praticamente ausentes das editoras clássicas, restando aos autores obscuros apenas curiosidade suspeita ou pedantismo arqueológico e filológico
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Observa-se que Parmênide é conhecido quase exclusivamente através de
Platão, seja como o velho ginasta que se entrega a exercícios ante um
Sócrates ainda por nascer, seja como vítima do parricídio imaginário exigido pela salvação dialética da filosofia, permanecendo sua verdade, como a de
Heráclito ou Pitágoras, oculta em confins pouco frequentados, sendo o pensamento pré-socrático, na fórmula de
Nietzsche, o mais bem sepultado de todos os templos gregos
Jean-Jacques Riniéri traduz Parmênide não por ardor filológico, curiosidade arqueológica ou diletantismo antiquário, mas como exercício pessoal, sendo homem de seu século, o que impõe a pergunta sobre o sentido desse retorno, sugerindo-se que remontar a Parmênide não é retrocesso, mas modo de um homem de hoje entender-se com seu próprio tempo
Considera-se paradoxal, mas não o é, que o enigmático Parmênide possa iluminar nosso tempo, se se admite que a essência mesma da filosofia possa ser sua própria história, elemento mais íntimo da história universal, descoberta inesgotavelmente problemática de
Hegel
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Observa-se que, antes de
Hegel, os filósofos pouco se preocupavam com seus predecessores, como mostra a leitura insuficiente que
Kant faz de
Descartes ou mesmo de
Platão, ignorando a profundidade do Sofista ao tratar como novidade a introdução do conceito de grandeza negativa
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Com
Hegel, a filosofia torna-se expressamente recolecção de si mesma, iluminando toda a história num panorama dialético do governo do mundo pela razão em busca de si, história que pressupõe fundamento geográfico, desenrolando-se do Oriente ao Ocidente, da China e da Índia à unidade persa até a Grécia, situada nem primeira nem última, como ponte para o futuro da história
Contrapõe-se a essa concepção hegeliana de uma história universal em galeria de imagens a crítica nietzschiana, que faz da história o grande laboratório de experiências da vontade de potência, sendo cada povo e cada cultura tentativa singular medida não pela cronologia, mas pela tensão do arco e a distância do alvo, tendo sido os gregos aqueles que levaram o homem mais longe
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Opõe-se à ideia hegeliana dos gregos mediadores a descoberta nietzschiana de um avanço prodigioso do mundo grego, que não deve ser posto em seu lugar no passado, mas reconhecido como irradiando à frente de tudo o que se alcançou até hoje, citando a advertência nietzschiana contra os “camelos da cultura” e a exigência de sermos nós mesmos criadores para tirar algo dos gregos
Contrapõe-se à audácia do criador o labor do epígono, que administra e explora capital de valores preexistente, exemplificado por
Hegel, epígono genial cujo sentido histórico serve apenas para domar o passado sob os preconceitos do presente, realizando entre nós a profecia hesiódica de gerações de “crianças de cabelos grisalhos”
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Observa-se que a miragem de que
Hegel é vítima foi instituída pelos próprios gregos, epígonos de si mesmos, sendo o helenismo tardio e degenerado o que manifestou mais vigor histórico, cabendo remontar retroativamente dos gregos decadentes aos gregos iniciadores, citando a máxima nietzschiana sobre fecundar o passado engendrando o futuro, e a constatação de que os sistemas filosóficos estão superados, brilhando os gregos, sobretudo os anteriores a
Sócrates, com fulgor mais vivo do que nunca
Reconhece-se que, mesmo epigonal, a tentativa hegeliana deixa entrever uma iniciativa grandiosa, ainda que a história da filosofia não tenha, com ela, conduzido suas tropas ao combate, substituindo-se à ficção hegeliana de uma história em extensão a representação compreensiva nietzschiana, na qual os fundadores do mundo grego guardam em si a possibilidade de nosso próprio porvir
Situa-se o pensamento de Riniéri mais próximo de
Nietzsche que de
Hegel, aventurando-se no “vento do degelo” rumo ao mistério pré-socrático, sugerindo-se que o impulso decisivo lhe venha, mais ainda que de
Nietzsche, de Heidegger, cuja singular maestria se pressente num mundo votado à confusão
Observa-se que, se a nostalgia de
Nietzsche se orienta para
Heráclito, Riniéri se dirige, como que por instinto, a Parmênide, por ser este, entre os primeiros pensadores gregos, aquele que, segundo Heidegger, determinou, dando-lhe a medida básica, a essência do pensamento ocidental até hoje
O texto de Parmênide desdobra-se à medida de um poema, resplandecendo nele, involuntário, um dos mais belos versos da língua grega, luar pré-socrático, destroço radioso de um conjunto mutilado, citado no original grego sobre a luz alheia que erra noturna em torno da terra
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Conclui-se que o poema não rompe o silêncio, mas o leva à sua plenitude, e que Riniéri se reencontra a si mesmo no poema de Parmênide, ou antes é o poema que dele se apodera, reaparecendo no imaginário as Helíades correndo diante do atrelamento fabuloso e o galope das éguas, até que, ao fim do caminho, se erguem as portas do Dia e da Noite