Distinção kantiana fundamental entre conhecimento e pensamento
Todo conhecimento é pensamento, mas nem todo pensamento é conhecimento
Pensar consiste em operações discursivas, como estabelecer relações causais ou subsumir casos particulares sob regras gerais
Tais operações, apesar de regulares, mantêm a gratuidade de um jogo submetido a regras
A filosofia pré-crítica, exemplificada por Descartes, Espinoza e Leibniz, se contentava em jogar esse jogo sem alcançar conhecimento efetivo dos objetos
A intuição como porta de entrada para o conhecimento sério
Primeira Crítica: a intuição é o meio imediato pelo qual o conhecimento se relaciona com os objetos e o fim para o qual toda pensamento tende
Definição nos Prolegômenos: intuição é uma representação que depende imediatamente da presença do seu objeto
Enquanto o pensamento permanece vazio por si só, a intuição é o encontro com a presença
Duas formas de coincidência entre intuição e objeto: a intuição criadora divina e a intuição receptiva e finita humana
A objetividade como antiphanie da presença
A intuição finita humana tem por natureza fazer face e acolher o dom da presença no vis-a-vis inevitável da objetividade
A palavra “objeto” (e mais fielmente o grego antikeimenon) indica essa presença que se opõe
O vis-a-vis precede e fundamenta a correlação sujeito-objeto exagerada da modernidade
O problema central da Darstellung (exhibitio)
Darstellung nomeia a apresentação intuitiva da coisa, sem a qual há pensamento, mas não conhecimento
É o problema de como um conceito puro pode se tornar concreto, intuitivo e presente
Kant traduz o termo grego hypotyposis (e o latim exhibitio) como Darstellung
O problema da “exibição” dos conceitos é o próprio problema da Crítica da Razão Pura
Primeira divisão: esquematismo (para conceitos sensíveis) e simbolização (para conceitos suprassensíveis)
Segunda divisão: construção (intuição a priori) e exemplificação (intuição empírica)
O vocabulário kantiano permanece flutuante, indicando a centralidade e dificuldade da noção
Quatro modalidades a estudar: exemplo, símbolo, construção e esquema
Primeira modalidade: O exemplo
Consiste em mostrar na experiência um objeto correspondente a um conceito dado
Serve como prova da realidade do conceito e para “aguçar o juízo”
É comparado ao “andarilho” (Gängelwagen) que auxilia as crianças a caminhar
No entanto, sua apresentação é fraca; exemplificar não é ainda pensar plenamente
No plano prático-moral, os exemplos são perigosos, pois requerem avaliação prévia por princípios
Segunda modalidade: O símbolo e a analogia
Pertence ao modo intuitivo de representação, mas lida com conceitos sem exemplo, os suprassensíveis
O conceito de Deus, por exemplo, é uma ideia pura que escapa radicalmente à intuição empírica
Para falar do suprassensível, Kant permite um “antropomorfismo simbólico”, não dogmático
A analogia, neste contexto, não é semelhança imperfeita entre coisas, mas perfeita entre relações
Exemplo: representar um Estado despótico por um moinho, dada a semelhança nas relações de causalidade
A analogia simbólica preserva a pureza do conceito, respeitando a fronteira entre fenômeno e númeno
O tipo como especificação do símbolo para a ideia prática de liberdade
A ideia de liberdade, embora transcendente, é imanente e pode ser ligada ao conhecimento prático
O juízo moral usa a natureza como tipo: a forma universal da lei natural serve de esquema à lei moral
O tipo é uma apresentação indireta, mas mais estreitamente ligado ao que apresenta do que o símbolo
O céu estrelado é o tipo da lei moral, não apenas seu símbolo
Enquanto o símbolo é relatio vaga, o tipo é relatio adhaerens, mais rigoroso
A beleza como símbolo da moralidade
A terceira Crítica estabelece a beleza como símbolo da moralidade
O belo tem sentido apenas para seres finitos e sensíveis como os humanos
A relação aqui é simbólica, não tipológica, portanto menos rigorosa
A beleia simboliza a moralidade não por semelhança, mas por uma perfeita identidade de relações internas
A aprovação desinteressada e universal do belo reflete, no sensível, o jogo das relações presentes na moralidade
Terceira modalidade: A construção de conceitos
É uma criação original de Kant, descoberta crítica entre 1755 e 1770
Constructio mentalis: apresentar a priori a intuição que corresponde a um conceito
Aplica-se exclusivamente aos conceitos matemáticos, especialmente os de grandeza
Resolve o enigma da evidência geométrica: o geômetra “constrói” a figura no espaço puro da intuição
A construção não é manipulação técnica, mas produção originária da figura no espaço pela imaginação produtiva
Passagem crucial: a filosofia conhece por conceitos, a matemática conhece pela construção de conceitos
Defesa da intuição contra objeções logicistas
Objeção moderna: a matemática se abstrai da intuição, operando por axiomatização e formalização
Resposta: mesmo as geometrias “profundas” (grupos de transformação) pressupõem uma concretude intuitiva
A intuição, para Kant, é o acesso a uma “realidade mais sutil” que dá vida aos entes matemáticos
A axiomatização é a aparência exterior de uma revelação mais essencial, de fundo intuitivo
Quarta modalidade: O esquematismo dos conceitos puros
Elaboração posterior à Dissertação de 1770, centro da Analítica Transcendental
Enquanto a construção era produção de figuras no espaço, o esquematismo é produção no tempo
A imaginação produtiva é o poder comum a ambos, mediadora entre sensibilidade e entendimento
Esquematizar é tornar intuitivo um conceito através de uma determinação temporal a priori
Exemplo: o esquema da substância é a permanência no tempo; o da causalidade, a sucessão regular
A imaginação como raiz comum e seu destino nas edições da Crítica
Na primeira edição, a imaginação produtiva aparece como termo último da análise do entendimento
A unidade da apercepção se relaciona com a síntese da imaginação, e esta constitui o entendimento
Na segunda edição, há um deslocamento: a unidade da apercepção é o ponto mais alto
A imaginação é rebaixada a uma “função do entendimento”, um mero intermediário
Heidegger vê aqui um recuo de Kant, para salvaguardar a supremacia da razão, abafando a radicalidade da imaginação
A finitude como chave de interpretação
Heidegger privilegia a primeira edição por nela ver expressa a finitude radical do conhecimento humano
A imaginação, como raiz comum de sensibilidade e entendimento, é o coração dessa finitude
A finitude não é mera limitação (Schranke), mas um limite positivo (Grenze) que abre um horizonte
Este limite positivo é a objetividade: o ente nos aparece como objeto que se opõe (Gegenstand)
A receptividade humana não é passividade, mas acolhimento ativo do que se apresenta adversativamente
Consequências para a noção de coisa em si e para a diferença entre conhecimento humano e divino
Diferença entre coisa em si e fenômeno não é objetiva, mas subjetiva: é uma diferença de relação
O fenômeno não é véu; é a maneira como a coisa se dá a uma intuição finita e receptiva
Para uma intuição originária (divina), as coisas não seriam objetos, mas produtos
Conhecimento divino e humano não diferem em grau, mas em espécie: um é produtivo, o outro receptivo
Deus é tão ignorante do fenômeno quanto nós da coisa em si
O esquema como pura auto-apresentação (das reine Bild)
Para Platão, a ideia (eidos) é aschematistos (não figurativa); o esquema é seu obscurecimento
Para Kant, o esquema é das reine Bild, a apresentação originária do conceito, sua ipsidade sensível
O esquematismo inscreve o conceito a priori no fenômeno, onde o ser das coisas se anuncia
Esta epifania da presença é o que maravilhou os gregos e é reaberta por Kant para o homem moderno
Conclusão: O lugar do homem e a fonte da filosofia
A finitude humana, descoberta por Kant, faz do homem um “rei da finitude”
A Darstellung, em suas múltiplas formas, é o operador dessa finitude no pensamento
O relacionamento de Hölderlin com Kant é um retorno “até a fonte” desta descoberta
A filosofia não é teologia especulativa, mas o pensamento do filho da terra, do ser finito que, em seu limite, encontra a presença do que é
A primeira Crítica oferece uma nova interpretação do homem como espírito finito em relação a coisas finitas, cuja essência é se deixar dar o que já está aí