A resposta de Heidegger à acusação de secularização de
Kierkegaard foi de que isso seria impossível, pois a filosofia de
Kierkegaard não era propriamente uma filosofia, uma vez que a questão de
Kierkegaard não é a questão do ser em seu todo e como tal, mas sim a do cristianismo, como ele mesmo se declarou um autor religioso.
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Kierkegaard, que não é nem teólogo nem metafísico, embora seja o essencial de ambos, alia a paixão teológica à cegueira do metafísico tardio para a questão da verdade do ser, permanecendo inteiramente sob a dependência do Idealismo alemão ao afirmar que a subjetividade é a verdade.
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A tese do primado da subjetividade, que
Kierkegaard recebe de
Hegel, e sua visão hegeliana do mundo grego como “infância feliz da humanidade”, fazem com que ele se atenha, filosoficamente, a um ponto de vista da subjetividade e a uma interpretação não crítica do pensamento grego.
Em Cerisy, em 1955, Paul Ricœur questionou Heidegger sobre o “legado hebraico”, que parecia ausente de sua conferência, perguntando se um apelo que não é grego, como o da errância de Moisés ou do arrebatamento de Abraão, pode ser excluído da filosofia.
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Heidegger respondeu que o questionamento de
Aristóteles, seja ele ontológico ou teológico, tem raízes no pensamento grego e não tem relação com a dogmática bíblica, pois uma distância abissal separa o logos grego da interpretação joânica, e que a filosofia não é um quadro geral a ser preenchido com outras fontes.
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A filosofia, para Heidegger, é a problemática do ser do ente que começou com os gregos, e sua persistência por mais de dois milênios é o que caracteriza a filosofia no Ocidente, o que torna impossível usar o termo para designar qualquer amalgama de ideias gerais.
A relação entre filosofia e teologia é colocada em termos de uma incompatibilidade radical, pois a filosofia não pode ser medida pela ciência (incluindo a teologia), e a ideia de “querer ter uma filosofia” é tão absurda quanto querer ter uma residência secundária, exigindo-se uma entrega total à questão.
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A filosofia, para Heidegger, não é um quadro geral, mas a permanência secreta de uma questão inicial que se tornou questão com os gregos, e o filósofo não é um especialista em generalidades, mas aquele que remonta a esse início grego ainda por descobrir.
A história do Ocidente não é mais a das “res gestae” sob a preeminência de uma vontade divina, mas a “história do ser em sua clareira”, que se desdobra a partir de um centro que não é o Deus da revelação bíblica, e cujo termo próprio é o “
Ereignis”.
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Heidegger rejeita a acusação de Paul Ricœur de que ele pretenderia “pôr fim à história do ser”, pois o que ele faz é, ao contrário, avançar em seu caminho de pensamento, interpretando o que se passa quando a filosofia, depois dos gregos, é regida por representações cristãs.
A leitura de Mestre
Eckhart por Heidegger mostra como a representação do Deus criador é enfraquecida em favor de uma intimidade mais alta, a “Deidade”, que é mais alta que o ente e na qual o próprio Deus desaparece, o que se aproxima da “Uniquadridade” (
Geviert) de Heidegger.
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Para
Eckhart, todas as criaturas falam de Deus, mas não da Deidade, porque na Deidade tudo é Um e dela nada se pode dizer, enquanto Heidegger, ao falar da “Uniquadridade”, afirma que seu centro não é nenhum dos quatro (terra, céu, divino e mortais), mas sim o “Sacrado” (das Heilige).
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O “Sacrado” é pensado a partir do “Caos”, que Heidegger interpreta não como uma confusão, mas como a “fenda aberta” (das Aufklaffende) que é a abertura primeira que acolhe e precede todo ente, sendo, portanto, a interpretação mais originária da “
alétheia”.
O divino, para Heidegger, não é o centro, mas uma das “regiões do mundo”, e o mundo, mais sagrado que qualquer deus, é o que se aproxima do “Ereignis”, sendo que a filosofia grega já havia “saltado por cima do fenômeno do mundo”.
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A proposição de Heidegger de que “só um Deus ainda pode nos salvar” não nomeia o Deus dos cristãos, mas refere-se aos “deuses fugidos” de
Hölderlin, que não são algo passado, mas guardiões de um futuro possível, e o verdadeiro flagelo, para Heidegger, é o pretenso monoteísmo como redução numérica do divino.
A relação entre Deus e o ser, para Heidegger, não é uma identidade, e o ser no sentido grego não abre nenhum acesso possível ao Deus da Bíblia, mas a uma outra teologia, a da Uniquadridade, que é o oposto do que
Schelling chamou de “teopanismo”.
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Heidegger afirma que, sem sua proveniência teológica, ele nunca teria chegado ao caminho do pensamento, mas essa proveniência permanece sempre futuro, e os teólogos têm razão em ser reservados em relação a ele, pois sua filosofia vai mais longe e transcende a dogmática cristã.