4 O retorno ao Ser

BEAINI, Thais Curi. Máscaras do Tempo. Petrópolis: Vozes, 1995.

O retorno ao Ser enquanto origem originária

1. O objetivo desta reflexão consiste em traçar a circunscrição do Ser, que desabrochou de modo peculiar no pensar pré-socrático: na postura de colocar-se diante da realidade, ouvindo-a, contemplando-a, descobrindo-a.

A. Os Pré-Socráticos: a Physis

1. Olhar o Mundo poeticamente: esta é a vocação que nos impulsiona ao cerne do mistério, do oculto, do primordial.

2. O que diz então a palavra Physis? Evoca o que sai ou brota de dentro de si mesmo (por exemplo, o brotar de uma rosa), o desabrochar, que se abre, o que nesse despregar-se se manifesta e nele se retém e permanece; em síntese, o vigor dominante (Walten) daquilo que brota e permanece.

3. Para Anaximandro, o apéiron, o ilimitado é arkhé: o uno do qual, ciclicamente, no seio do devir, originam-se os entes diferentes, a multiplicidade.

4. Tô Khreón é então o pôr nas mãos a presença, que significa entregar a presença àquilo que se presenta, mantendo assim o que se presenta como tal justamente nas mãos, isto é, guardando-a na presença.

5. O Ser, preservado enquanto tal, e desdobrado enquanto ser-do-ente, refere-se diretamente, segundo Heidegger, à presença, a qual nos remete também à ausência.

6. Convém que se retorne ao enigma mítico da transição do Caos ao Cosmos, da passagem do que é, enquanto abertura plena, o escancarado, o abismo sem fronteiras, que vem-a-ser Cosmos: delimitação, ordem.

7. O Ser é o arkhé: o brotar, sair do obscurecimento rumo à luminosidade, o tornar-se.

8. Segundo a mantença; deixam pois ter lugar o acordo e assim também o cuidado, um para o outro (no penetrar e assumir do des-acordo).

9. Refletindo acerca do frg. 1 de Anaximandro, Heidegger estabelece um paralelo entre Dike, Justiça, equilíbrio e Tô Khreón, o Ser que, em seu des-velar-se, outorga a harmonia, a juntura (união) entre oculto e manifesto.

10. Dike, pensando a partir do ser como presença, é o acordo que articula e harmoniza. Adikia, a desarticulação, é o desacordo.

11. O Ser, enquanto Justiça, acordo, preserva os limites do ente e da totalidade, questão que será muito enfatizada por Heráclito, permitindo que cada um seja propriamente o que é.

12. A mantença (Brauch) entrega as coisas que se apresentam em sua presença, isto é, na demora.

13. Aquilo que se apresenta presentifica-se segundo a mantença. O Khréon é uma interpretação daquilo que os gregos experimentam sob o nome de Moira como o dispensar a parte que a cada um toca. Tô Khréon esconde em si a essência inexplorada do recolhimento que ilumina e protege. A mantença é o recolhimento: ho logos. A partir da essência pensada do logos determina-se a manifestação do ser enquanto uno unificante: Hên. O mesmo Hên pensa Parmênides. Ele pensa a unidade do que unifica expressamente como Moira (fragmento 8, 37).

14. A mantença remeteu-nos à ligação, do que se fixa e comunica, contida no Logos que, por sua vez, refere-se à Moira, à divindade lunar do Destino que rege os entes em sua claridade e obscuridade, e esta trilogia nos conduz ao Ser, pensado primordialmente, no tocante ao âmbito da indissolúvel pertença entre velamento e des-velamento: Verdade.

15. Concluindo, pode-se dizer que do apéiron divino, enquanto ilimitado, instaura-se a multiplicidade dos entes, cada qual contendo em si sua própria restrição.

16. A Physis é composta por entes diferentes entre si, mas todos possuem em seu ser a necessidade de manter-se tal qual são.

17. Por outro lado, há um equilíbrio na Physis que permite, a cada ente diferente, ter nela o seu lugar próprio.

18. A Manhã da história do Ser, iniciada com Anaximandro, expressa a essencialidade do arraigar-se humano a um Ser que, em seu recusar-se-outorgador, será preservada no Logos, no qual surge em sua unidade primordial, pelo dizer de Heráclito.

19. Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo.

20. A lei de inserção dos entes no devir retrata também sua permanência: o destinar-se de uma medida de equilíbrio não transgredida no perpétuo fluir, a ordem reguladora dos contrários regida pelo impulso aguardado pelo surgir, enquanto passagem à não-latência.

21. O relâmpago, movimento das nuvens, das quais é oriundo o som, e o Fogo, símbolo do fluxo, do devir, quando de seu brilhar, delineia a especificidade dos entes que clareiam, no ato des-velador, acenando também à totalidade que paira na sombra de seu imperar.

22. Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida.

23. Heráclito refere-se aqui à gênese, brotar daquilo que vem-à-luz, movimento de passagem ao manifesto: impulso de um lançar-se para fora de si.

24. O relâmpago, que conduz ao raio, representa Zeus, os fenômenos atmosféricos celestes, a Justiça, e a ordenação. Por isto, Heráclito escreve no frg. 32.

25. O um, o único sábio, não quer e todavia quer ser chamado pelo nome Zeus.

26. Zeus, que governa por sua soberania, pode ser comparado ao Logos, mas dele difere posto que, não sendo um deus-criador, faz parte da Physis, não podendo, portanto, ser comparado a ela.

27. O Fogo, mais permanente que o raio, encontra uma luz diurna cuja duração e intensidade do surgir a tornam regente do calor, energia, colheitas, daquilo que vem-à-vida na Vida: o Sol.

28. O Sol não ultrapassará os seus limites; se isto acontecer, as Erínias, auxiliares da Justiça, saberão descobri-lo.

29. O Ser, enquanto Logos, é a medida da qual surge a multiplicidade, o Uno que se diferencia na diversidade, a totalidade que se especifica.

30. Légein é pousar-estender. Pousar-estender é o ato recolhido em si mesmo que deixa estendido diante aquilo que conjuntamente se apresenta.

31. Assim o Logos se desdobra em seu ser como o puro ato do pousar que recolhe e colhe. O Logos é o originário recolhimento da colheita primordial a partir do pousar primordial.

32. O Ser reúne os entes, abrigando-os, enquanto guarda em si o que se expõe e se retira.

B. A verdade enquanto A-létheia

1. O pássaro, aparente à onticidade do cotidiano, no ruído de seu canto ou em seu voar, dos quais escapa o fato de que ele é, subitamente interrompe o seu vôo rumo à amplidão, para fixar-se no pouso do galho que o abriga.

2. Pousar é o enviar-se do Ser que, recolhido em si, des-vela seu segredo àqueles que, dispostos a acolher o Sagrado, recolhem o dom do inesperado, do efêmero que, lançando-se no ar, prepara novos vôos, caminhos de pouso, repouso e movimento.

3. Por desdobrar-se como Dia e Noite, estações do ano, a Physis, nomeada originalmente, mostrou-se para Heráclito, no frg. 50 na forma do “Um é Tudo”, que Heidegger assim comenta: “Hên Pânta 'Um (é) Tudo'. Tudo quer dizer aqui: Pânta tà ónta, a totalidade, o todo do ente. Hên, o Um, designa: o que é um, o único, o que tudo une. Únido é, entretanto, todo o ente no ser. O sophôn significa: todo ente é no ser. Dito mais precisamente: o ser é o ente. Nesta locução, o 'é' traz consigo uma carga transitiva e designa algo assim como 'recolhe'. O ser recolhe o ente pelo fato de que é o ente. O ser é o recolhimento, Logos”.

4. O Ser enquanto Logos é A-létheia, des-velamento-velador, âmbito que concede a cada ente sua medida e momento de presentificar-se, de ser o que é.

5. A harmonia invisível é mais forte que a visível.

6. Compete ao falar humano escutar o Logos, recolher-se em seu recolhimento, dele recebendo a medida do que pode ser pronunciado, sem visar ultrapassar àquilo que, como limite, se delimita.

7. É neste contexto que Heidegger nos lança a interrogação fundamental de Heráclito, no frg. 16: “Como pode alguém esconder-se diante daquilo que jamais tem ocaso?”

8. O Ser é a presença que jamais tem fim, que não se constitui como desaparecimento, posto que, enquanto um aspecto do ente se oculta, outro se manifesta.

9. Concluindo, pode-se dizer que, para Anaximandro, o apéiron uno, gerando a multiplicidade, culmina no acordo: na manutenção do que é próprio à totalidade dos entes, sem que estes dele se desviem.

10. Heráclito mostra a mesma problemática, tendo como fio condutor o combate, por si mesmo ponto de convergência, para onde culmina a unificação.

11. Um é Tudo significa: velamento e des-velamento como integrantes do Ser que se desdobra como A-létheia, harmonia que persiste na imperecibilidade do ouro no qual reluz o belo brilho do Ser, que fulgura enquanto serenidade e doçura, Fogo clareador de um relâmpago noturno e solar, círculo ao qual converge tudo o que é.

12. Deslocando a questão da unidade e da multiplicidade para a relação entre Ser e Pensar, Parmênides postula uma Verdade única, oposta tanto ao Não-Ser quanto à multiplicidade dos sentidos.

13. Os cavalos que me conduzem levaram-me tão longe quanto meu coração poderia desejar, pois as deusas guiaram-me, através de todas as cidades, pelo caminho famoso que conduz o homem que sabe. Por este caminho fui levado; por ele me conduziam os prudentes cavalos que puxavam meu carro, e as moças indicavam o caminho. O eixo, incandescendo-se na massa, pois em ambos os lados era movido pelas rodas girantes, emitia sons estridentes de flauta, quando as filhas do sol, abandonando as moradas da noite, corriam à luz, rejeitando com as mãos os véus que lhes cobriam as cabeças. Lá estão as portas que se abrem sobre os caminhos da noite e do dia, entre a verga, ao alto, e embaixo, uma soleira de pedra. As portas mesmas, as estéreas, são de grandes batentes; a Justiça, deusa dos muitos rigores, detém as chaves de duplo uso. A ela falavam com doces palavras as moças, persuadindo-a habilmente a abrir-lhes os ferrolhos trancados. As portas abriram largamente, girando em sentido oposto os seus batentes guarnecidos de bronze, ajustados em cavilhas e chavetas; e através das portas, sobre o grande caminho, as moças guiavam o carro e o cavalo. A deusa acolheu-me afável, tomou-me a direita em sua mão e dirigiu-me a palavra nestes termos: Oh! jovem, a ti, acompanhado por aurigas imortais, a ti, conduzido por estes cavalos à nossa morada, eu saúdo. Não foi um mau destino que te colocou sobre este caminho (longe das sendas mortais), mas a justiça e o direito. Pois deves saber tudo, tanto o coração inabalável da verdade bem redonda, como as opiniões dos mortais, em que não há certeza. Contudo, também isto aprenderás: como a diversidade das aparências deve revelar uma presença que merece ser recebida, penetrando tudo totalmente.

14. Penetrando a dimensão que contorna Dia e Noite, no carro solar, o jovem viajante adentra a dimensão do divino, símbolo da invisibilidade do Ser, conduzido pela voz da deusa que se essencializa como sendo a Verdade.

15. O mito é um dizer e dizer, por sua vez, é chamar e fazer brilhar.

16. A Justiça está vinculada à Moira (Destino), divindade lunar, mostrando que a Verdade divina e sagrada envolve-se em luz e sombra.

17. Moira, enquanto dispensar, outorga a cada ente o que lhe é próprio, aquilo que o mantém no reino do ontológico, vindo a ser o jogo de luz que se identifica, enquanto destino, ao próprio Mundo que, em sua abertura, concede o espaço próprio do fazer-aparecer (Physis).

18. Aquilo em que uma coisa advém é o que chamamos de “espaço”. Os gregos não possuem nenhuma palavra para dizer “espaço”. Isso não é um acaso. Fizeram a experiência do que é “espacial” não a partir da extensio mas do lugar (topos), como chora. Chora não significa nem lugar nem espaço e sim o que é tomado e ocupado pelo que está em si mesmo. O lugar pertence à própria coisa em si mesma. As diversas coisas, cada uma tem seu lugar próprio. Dentro desse “espaço” caracterizado pelo lugar se coloca o que devém e desse mesmo “espaço” local é retirado e extraído. Para isso ser possível, o “espaço” deve ser desprovido de qualquer aspecto que pudesse assumir de outra parte.

19. Parmênides, inserindo o Ser no âmbito do Nada, inaugura no pensar um processo que será seguido também por Heidegger.

20. O Nada da Angústia Existencial des-cortina ao Dasein sua inserção e seu estar-deslocado do âmbito dos entes, enquanto o Ser clama, continuamente, pela proximidade da essência desconhecida daquilo em meio ao qual nos movemos, das redomas que cercam aquilo que somos, impropriamente.

21. Aqueles que interrogam se deparam com o Nada que, longe de ser um véu, introduz no des-velado, no sem-fronteiras, na ponte que leva à trilha da circunscrição, da luta engendrada pelo Dasein para cuidar e cultivar o combate no qual se desdobra o real, ciclicamente.

22. Não querendo ouvir, distraindo-se ou dormindo, os homens esquecem-se do que, sendo Memória, re-convoca à lembrança o destino epocal do Ser: leme, portal da origem infinita do claro-escuro, jogo que não se fixa apenas nas regras de certeza lógica, nem no âmbito da opinião, por ser o mistério que surge e desaparece, inesgotavelmente, sem imprimir a contradição à unidade presença-ausência.

C. O Ser enquanto Lógos

1. Retomar e retornar ao êxtase ek-stático da ek-sistência, enquanto abertura primordial ao que se des-cerra, no aberto, significa: olhar o Ser.

2. O aparente, ao qual aquele que caminha nas veredas do Mundo é conduzido, nos aparece como possibilidade de um aprisionamento no âmbito dos sentidos, ou o apego pleno àquilo que se des-vela, sem valorizar suficientemente que o velado, do qual tudo é oriundo, o atrairá novamente para si.

3. Eon, o ente, é bem antes pensado na Dobra de ser e ente, conservando seu valor de participio, sem que o conceito gramatical intervenha espacialmente no saber concernente à língua. A Dobra pode pelo menos ser sugerida pelas curvaturas “ser do ente” e “ente no ser”.

4. Aqui se alude ao Ser uno, referido sempre ao seu duplo, ao ente.

5. A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um dia com os enigmas da existência.

6. Esta passagem evoca o poema de Parmênides, trazendo também à lembrança o ferreiro, aliado à magia do xamã, ao canto que se eleva ao Céu ou atemoriza, por estar diante do poder da Noite.

7. O pensar, enquanto perceber, recebe seu ser do ser do ente. É presente o que persiste, o que desdobra seu ser na não-ocultação, aparecendo nela e ali permanecendo. A presença só se produz onde já reina a ausência.

8. O limite parmenideano entre Ser e Não-Ser é enfocado por Heidegger, como o combate, constitutivo da Linguagem, enquanto esta visa à nomeação do ente em seu Ser, presente também na obra de arte enquanto fulguração da Verdade do Ser, por intermédio do ente de que dispõe.

9. “Pois o mesmo é tanto pensar como ser”. A questão do sentido deste mesmo é a questão da essência da identidade. A essência da identidade é uma propriedade do acontecimento-apropriação.

10. O acontecimento-apropriação acena ao âmbito da identidade e diferença ontológica, enquanto o Ser é a invisível fonte de visibilidade dos entes.

11. A diferença entre ser e ente é, enquanto diferença entre sobrevento e advento, a de-cisão desocultante-ocultante de ambos.

12. A Metafísica consiste na busca de fundamentações, de causas hierarquicamente edificadas, culminando na representação Lógica ou em Deus.

13. O pre-sentar-se, a A-létheia, é o des-velamento a partir do des-cerrar-se da diferença: o mistério do que se mostra e se oculta, a unidade que jaz no combate instaurador da origem, possibilidade mesma para que se elaborem novas passagens do Não-Ser ao Ser, visadas no não-esquecimento, na lembrança que subjaz em todo ato criador, que transforma, como na gênese, Caos em Cosmos, em atos outorgadores de presença oriunda do Ser.

14. Todavia, não diz aquele pensador que pela primeira vez pensou o ser, não diz Parmênides (frg. 6) “é, a saber, ser”, “presenta-se, a saber, presentar-se”? Se considerarmos aqui que, no einai, presentar-se, fala propriamente alétheia, o desvelar-se, então o presentar-se, que no esti se diz enfaticamente do einai, significa: o presentificar. Ser, propriamente: o que dá presença.

15. A dádiva pre-s-entificadora do Ser é criação.

16. Como em Heráclito, o Ser impera como recolhimento, podemos dizer que, analogamente, na espera parmenideana, todo ato fundamentalmente criador é enquanto cultiva, colhe e põe-em-abrigo.

17. Heidegger, como Parmênides, recorre à tautologia, que denomina como: “a medida do pensamento”.

18. Pensar o Ser sem o ente significa situá-lo como a origem originária, sinônimo da Physis, do Cosmos que eclode do seio do Não-Ser, do Caos.

19. Celebrar, sim! Eleito a celebrar surgiu como o minério do silêncio da pedra.