, particularmente na Oitava Elegia de Duino e no comentário de Roger Munier, que desdobra uma oposição entre o animal (a criatura) e o homem, correspondente à oposição entre o Aberto e o mundo.
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A criatura animal, com seus olhos plenos, vê o Aberto, que é o elemento da pura presença, da continuidade, da indistinção e da fluidez, uma dimensão originária que é pura chamada ou pura espera, a iminência de tudo quanto pode sobrevir, uma abertura na qual a criatura está envolvida, fora de si, em um êxtase e despossessão que lhe conferem uma plenitude de ser.
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A visão plena da criatura é um saber puro, que nem conhece nem analisa, e se deve ao fato de que a criatura está no Aberto, sendo levada por ele, existindo no modo da ausência de si, que é a outra face do habitar no Aberto; essa ausência de si é o que confere à criatura sua plenitude de ser.
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Em contraste, a mirada humana, que faz advir um mundo, é o que quebra a continuidade do Aberto, delimitando e conferindo forma, de modo que o mundo não é algo distinto do Aberto, mas o Aberto quando a mirada retrocede, e a coisa só adquire forma quando deixa de ser coisa para ser objetivada ou posta em frente, reconhecida.
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A mirada humana, que traz o distanciamento e o reconhecimento, não é a mirada de uma consciência preexistente; ao contrário, é na mirada que a consciência advém, como separação do Aberto, interrupção do fluxo que arrasta a criatura, de modo que a consciência e o mundo procedem de uma privação do Aberto, de um retrocesso, de uma vacilação no deixar-ser, de uma falta de fluidez no êxtase.
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Essa privação, no entanto, não é uma ausência ou defeito positivo, mas uma interrupção ou suspensão, uma inibição, que é um movimento de oposição, de inversão ou volteio, respondendo à chamada do Aberto, de modo que a negatividade da qual provém a humanidade é a de uma inibição originária, constitutiva da própria vida.
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O Aberto não pode ser concebido como uma positividade, como um lugar ou ponto de chegada, pois sua essência é a de uma abertura, uma hiância, uma chamada que excede a relação, e a vida, como relação com o Aberto, é já privação daquilo em que e pelo que vive, sendo essa privação inerente à própria vida, o que permite que a vida seja capaz de consciência.
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A distinção entre homem e criatura se dissolve, pois o Aberto está sempre já perdido, e não há criatura que não esteja já envolvida em um mundo, assim como a humanidade nunca está separada do Aberto, a quem se remete em uma nostalgia, e a relação com o Aberto é exposição mais do que coincidência, um desgarro e uma negação originária da qual o mundo e a consciência procedem como polos antagonistas e solidários.
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A unidade originária da vida pura e da consciência, do
Leben e do
Erleben, no viver, remete a uma heteronomia consubstancial à vida, a uma lacuna fundamental e constitutiva, uma perda ou falta essencial, como se a vida vivesse na impossibilidade de seu cumprimento, e a percepção não é o ato de uma consciência, mas propriedade da vida, e nossa percepção consciente e objetivadora se ergue sobre uma percepção pura que coincide com a própria vida.