A insistência no problema de outrem visa sobretudo recusar o intelectualismo, pois este não pode dar estatuto a essa dimensão: como outro, outrem pertence ao mundo e é objeto; como ego, confunde-se comigo, clivagem que torna impensável a aparição de outra consciência no mundo
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O realismo falha a comunicação das consciências por defeito, pensando a subjetividade como realidade insular sem doação de sentido comum; o idealismo falha por excesso, pois a objetividade determinada como idealidade torna impensável a alteridade da subjetividade, reduzindo a comunicação das consciências à identidade num único sujeito constituinte, como no Avant-propos da Phénoménologie de la perception sobre o Alter e o Ego unidos no mundo verdadeiro
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O intelectualismo recorre também à analogia, buscando nos objetos os sinais de uma subjetividade transcendental, mas nada na aparência pode motivar tal inferência, cavando um abismo entre a consciência de outrem, que se confunde comigo, e seu corpo, indistinto dos demais objetos
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Ou o intelectualismo mantém a interpretação da doação de sentido como posse intelectual e se impede de dar conta da experiência de outrem, ou reconhece essa experiência e admite que um corpo pode significar uma subjetividade, o que embaralha a oposição imediata entre corpo e consciência
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As duas perspectivas, realista e idealista, são solidárias, pois o mesmo movimento que dá um mundo em si onde as consciências estão isoladas subordina esse mundo a uma subjetividade transcendental que reabsorve toda alteridade, o que se ilustra na crítica ao Eu empírico como noção bastarda em Ph.P. p. 68
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Outrem aparece como presença de uma não presença, transcendência que não se dá a si mesma no aparecer, exigindo pensar o percebido situado tanto acima do existente disperso quanto abaixo da pura idealidade, de modo a permitir comunicação sem abolir a diferença das consciências