BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991.
O pensamento de Merleau-Ponty é inteiramente movido pela preocupação de elaborar uma crítica coerente à concepção intuicionista e positiva da idealidade. Essa crítica não é motivada pela reivindicação empirista da factualidade — reivindicação que parte do mesmo pressuposto ontológico que a filosofia do eidos —, mas sim pela preocupação em restituir a experiência própria da idealidade. O significado não pode estar fechado sobre si mesmo em um universo autônomo, e é justamente porque não é dotado de positividade que não se separa daquilo que significa: é, por princípio, aberto, inacabado, ou seja, enraizado em um Ser que só significa porque se manifesta nele, sem o envolver completamente. Assim, por meio de uma análise da expressão como fenômeno da idealidade, Merleau-Ponty foi levado a rejeitar as dualidades da filosofia reflexiva, ainda presentes na Fenomenologia da percepção, e a abrir caminho para um questionamento ontológico: a opacidade e o enraizamento irredutíveis do significado, o envolvimento do sujeito pelo mundo que ele significa, exigiam a revelação de um mundo originário, pré-significativo, pré-objetivo. No entanto, esse universo selvagem não representa a negação de todo significado. De fato, uma vez que a concepção positiva da idealidade tem como reverso uma abordagem do percebido como pura facticidade, a descoberta de uma “facticidade” da idealidade, de sua incapacidade de se fechar sobre si mesma, tem como correlato o reconhecimento de uma idealidade no cerne do percebido. O objetivo de Merleau-Ponty é destacar uma articulação originária e, em última instância, uma quase-identidade entre o visível e o invisível. O invisível não é o outro de um visível concebido como positivo em si mesmo, mas aquilo que, para preservar sua distância, seu poder de significação, se torna visível; o visível, por sua vez, não é, portanto, a negação do invisível, mas o elemento de sua manifestação e, nesse sentido, um modo primitivo da idealidade. O visível é, de fato, a “apresentação [274] de um inapresentável”: na medida em que manifesta uma unidade tácita, uma “coesão sem conceito”, ele já é “exploração de um invisível” e, como a própria ciência, “revelação de um universo de ideias” [V. I., p. 196]. Ora, observa Merleau-Ponty, “uma vez entrado nesse estranho domínio, não se vê como seria possível sair dele” [V. I., p. 199]. A doação sensível da ideia, que só parece “velada pelas trevas”, surge como a própria lei de toda ideia e, em última instância, como a própria lei do espírito: “o que se chama espírito é inseparável do que (os homens) têm de precário, e a luz não iluminaria nada se nada lhe servisse de tela” [C. F., p. 27]. É preciso, portanto, reconhecer uma universalidade do sensível, uma universalidade da carne: como diz Merleau-Ponty, “não há mundo inteligível, há mundo sensível” [V. I., p. 267]. No entanto, não se deve interpretar erroneamente o sentido desse “há” e é preciso compreender que o sensível não repousa em si mesmo, que é sinônimo de fenomenalização, ou seja, a exibição, nas trevas, de um universo de ideias, a apresentação do invisível: o sensível é o que está presente por toda parte, aquilo que sustenta toda experiência e toda produção de sentido.
Daí decorre que o domínio do sensível possui uma extensão que excede os limites que até agora lhe reconhecemos, que o lugar que lhe atribuímos permanece abstrato; em suma, que o mundo sensível não pode ser confundido com o visível em si mesmo, com o universo da percepção como experiência de uma exterioridade efetiva. Se é verdade que só existe o mundo, este não pode ser restrito ao puro visível; se é verdade que a carne é universal, ela não deve ser reduzida à carne estritamente corporal. A fidelidade à experiência, da qual a dialética do visível e do invisível é testemunho, impõe o reconhecimento do inteligível como uma experiência específica, ou seja, distinguir a idealidade propriamente dita das “ideias” inscritas no cerne do sensível. O fato de que todo inteligível só se manifesta em um recuo, ou seja, como sensível no sentido amplo, não significa que o sensível propriamente dito, a saber, o visível, represente a única modalidade possível desse recuo. A decisão fundamental de Merleau-Ponty consiste, certamente, em abordar o inteligível a partir de seu fenômeno, em vez [275] de subordinar a fenomenalidade ao inteligível, mas essa decisão só é coerente na condição de ser acompanhada por uma ampliação radical do domínio da fenomenalidade. O fato de que o visível e o invisível não possam ser distinguidos como entidades positivas impede tanto que se confundam quanto que o invisível se dissolva em favor de um visível, que então refluiria inevitavelmente para a plena positividade. A tentação de reduzir o fenômeno do inteligível ao fenômeno visível seria não apenas inadequada à experiência, mas verdadeiramente desastrosa, pois levaria a um empirismo disfarçado e à necessidade de proceder a uma gênese do inteligível no seio do sensível. Embora a ideia pareça apenas oculta no sensível, não deixa de ser verdade que ela não pode ser plenamente revelada por tal modo de presença sensível e, portanto, que a visibilidade, precisamente por conter ideias em seu seio, deve transcender-se em direção a outro modo de doação. Em outras palavras, a afirmação de que o sentido é sensível só pode ser mantida se o sensível propriamente dito, ou seja, o visível, não for mais concebido como o único modo de doação do sentido. Assim como o visível, na medida em que é a exibição de um inteligível, se transcende como mero fato, ele precisa se transcender como estritamente visível. Se o visível não passa de um espelho ainda opaco do inteligível, ele está fadado a dar origem a outros reflexos. O campo do visível não pode, portanto, ser rigorosamente circunscrito: a partir do momento em que o visível atesta um invisível, ele não pode ser definitivamente fixado como o único modo de doação do inteligível; ele* desliza para além de si mesmo como puro visível e se articula com outra “visibilidade” do invisível, que é a dizibilidade. Por estar sempre já “do lado” do invisível, o sensível está, de certa forma, destinado a responder a esse chamado que carrega em seu seio e a transcender a si mesmo como visível estrito. O reconhecimento do fenômeno do inteligível leva, portanto, a rejeitar não apenas a positividade do sensível, mas a possibilidade de atribuir-lhe uma extensão definida. Ou melhor, como o sensível não é um ser positivo, ele não é apenas visível, mas dá origem a outros modos de apresentação do invisível, torna-se palavra. O invisível, que o visível manifesta e oculta ao mesmo tempo, absorve, por sua vez, o elemento de sua apresentação e se confere um modo de manifestação que lhe é próprio: ele determina uma “sublimação” do sensível.
Toda a dificuldade está aqui em dar conta da diferença fenomenal entre a sensação e a idealidade, preservando ao mesmo tempo sua continuidade absoluta. A palavra não diz nada além do que [276] a percepção “diz”, mas o diz de outra forma; o sensível já carrega em si todo o destino dos significados, mas, nele, o significado permanece opaco e alusivo. É por isso que a noção do invisível, assim como a do sensível, tem um significado ao mesmo tempo único e múltiplo. Múltiplo, pois é preciso distinguir claramente o invisível — como invisível em relação ao visível — daquilo que transparece nesse sensível singular que é a palavra. Único, pois é justamente o reverso imprestável do visível que se encontra significado na palavra, pois é o próprio visível que se transcende para retornar a si mesmo, para significar sua própria profundidade. Não há, portanto, duas camadas distintas, mas um único movimento que é, indistintamente, o crescimento do visível em direção à palavra e o crescimento de seu invisível em direção à idealidade; ou seja, em última análise, a transformação do modo de co-pertença do “visível” e do invisível. É por isso que, com todo o rigor, não se passa, com a palavra, do visível para o invisível, mas de um sensível para outro sensível, o linguístico, e, correlativamente, de um invisível para outro invisível, o inteligível. Na palavra, o invisível permanece o mesmo, uma vez que esta ainda pertence à carne e provém, de fato, do mundo sensível, já que o sensível já revela o universo do sentido; e, no entanto, torna-se outro, pois o invisível não subsiste em outro lugar senão nos sensíveis através dos quais se manifesta, não se distingue de seus modos de manifestação. Em suma, a dificuldade consiste em conceber o modo de articulação — desta vez definitivo — entre a idealidade e a percepção, entre o fenômeno próprio do inteligível e o estritamente visível; consiste em compreender como Merleau-Ponty consegue preservar a especificidade fenomenal dos domínios da experiência sem pôr em causa o que se poderia chamar de um monismo ontológico do sensível. No entanto, antes de nos depararmos com essa dificuldade, precisamos primeiro tentar abrir caminho que, a partir da carne sensível “solipsista”, conduza ao domínio compartilhado da idealidade, e evidenciar a pertença da idealidade à carne, preservando ao mesmo tempo sua especificidade. Isso pressupõe introduzir, no seio da carne, uma distinção entre sua vida propriamente corporal e “um corpo menos pesado, mais transparente”, no qual a visibilidade se encontra “libertada, mas não eximida de toda condição” [V. I., p. 200].
Referências:
V. I. = MERLEAU-PONTY, M. Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard, 1964.
C. F. = Résumés de cours, Collège de France 1952-1960, Paris, Gallimard, 1968