O propósito não é avaliar a leitura merleau-pontiana de Husserl a partir de uma suposta verdade objetiva da fenomenologia husserliana, o que recairia numa concepção estreita da história da filosofia, mas reconhecer nessa leitura um modo privilegiado de conquista do próprio pensamento de Merleau-Ponty
a citação segundo a qual deve haver um meio-termo entre uma história da filosofia objetiva, que mutilaria os grandes filósofos daquilo que deram a pensar aos outros, e uma meditação disfarçada de diálogo
a impossibilidade de que Merleau-Ponty tenha encontrado em Husserl apenas o que ali colocou, havendo sempre sinais que convidam e justificam retrospectivamente a projeção
A leitura merleau-pontiana de Husserl caracteriza-se por uma alternância entre rejeição e reivindicação, sendo Husserl criticado por seu objetivismo mas também reconhecido como o primeiro a ter dado o passo que permite colocar essa tradição à distância
esse passo, tematizado na Krisis, sendo a questão-em-retorno sobre o mundo da vida dado de antemão, solo recoberto pela matematização galileana da natureza
a questão de como essas duas atitudes podem coexistir em Merleau-Ponty, respondida pelo fato de que o retorno ao Lebenswelt permanece, em Husserl, gravado por uma insuficiência fundamental
A acusação de inconsequência dirigida a essa nova redução da Krisis percorre toda a obra de Merleau-Ponty, já desde a Fenomenologia da percepção
a citação segundo a qual, se a constituição torna o mundo transparente, não se vê por que a reflexão precisaria passar pelo mundo vivido, mas se ela retém algo é porque nunca despoja o mundo de sua opacidade
a citação de O filósofo e sua sombra segundo a qual a descida ao domínio de nossa arqueologia não pode deixar intactos nossos instrumentos de análise, nossa concepção de noese, de noema, de intencionalidade, nossa ontologia
Aos olhos de Husserl, a racionalidade moderna nasce de uma mutação nas matemáticas que se resume na conquista do infinito, sendo o objeto matemático produto de uma idealização por passagem ao limite num processo infinito
o gesto galileano consistindo em estender essa idealização à totalidade da Natureza, sendo Galileu ao mesmo tempo descobridor e recobridor, substituindo-se de imediato o mundo matemático das idealidades ao mundo da experiência
a citação de Galileu segundo a qual, onde quer que tal método tenha sido elaborado, também se venceu graças a ele a relatividade das apreensões subjetivas
A determinação husserliana do Lebenswelt é decepcionante, pois Husserl afirma uma continuidade eidética absoluta entre o mundo da vida e o da atividade científica, apenas distinguindo formas exatas e inexatas dentro da mesma estrutura eidética
a citação segundo a qual o mundo como mundo da vida já tem pré-cientificamente as mesmas estruturas que as ciências objetivas pressupõem como estruturas apriorísticas
o comentário de Granel segundo o qual os textos husserlianos fazem apenas um leve arranhão no solo de primitividade
a citação segundo a qual o mundo é o todo das coisas repartidas na forma mundana do espaço-tempo, o todo dos onta espaço-temporais
a crítica husserliana do objetivismo atingindo apenas a forma físico-matemática desse objetivismo, sem ver que ela é apenas uma manifestação entre outras de um pressuposto mais profundo, o do objeto determinado mesmo inexato
Um verdadeiro retorno ao mundo da vida supõe que a própria objetidade seja neutralizada, valendo para a coisa ou a unidade de sentido a mesma caracterização do processo de idealização proposta por Husserl para a idealidade matemática
a citação inédita segundo a qual o ser não deve ser evidenciado apenas por seu desvio em relação ao ser da Ciência, mas por oposição ao ser como Objeto, opondo-se a ambos a Offenheit de Umwelt
a noção de forma-limite sustentada por certa ideia de infinito como o que pode se desdobrar sob forma de processo, falando Merleau-Ponty com razão de objetivação do infinito
a citação segundo a qual houve passagem ao infinito como infinito objetivo, o que era tematização e esquecimento da Offenheit, do Lebenswelt, sendo preciso retomar impulso aquém
a idealização do infinito de Offenheit sob a forma de série percorrível sendo a matriz que comanda todas as outras idealizações
No capítulo Interrogação e intuição, Merleau-Ponty centra sua análise na questão das essências, mostrando que o caráter eidético da ontologia husserliana comanda e compromete toda a démarche
a contradição entre a determinação da essência como entidade positiva suscetível de intuição e a necessidade de proceder a uma variação para alcançá-la
a citação inédita de junho de 1959 sobre o eidos, invariante não como unidade fora das variações mas como unidade captada lateralmente em seu horizonte
a citação segundo a qual o invariante, por só ser captado pela variação, está para as variantes assim como o móvel está para o movimento
É porque Husserl não percebe a raiz e portanto a unidade do objetivismo que o mundo da vida permanece um mundo de objetos, resultado de uma idealização, permanecendo assim possível a segunda etapa da constituição do Lebenswelt na subjetividade absoluta
A redução no sentido merleau-pontiano consistirá, ao contrário, num retorno ao mundo da vida, chamado Ser selvagem ou vertical, isento de toda idealização e excluindo por conseguinte toda possibilidade de constituição
a filosofia definida como redução a operar sobre todas as idealizações e a ontologia como elaboração das noções que devem substituir a de subjetividade transcendental
a necessidade de compreender primeiro o que funda o pensamento objetivo, captar o gesto fundamental de que procedem as categorias comuns ao Lebenswelt husserliano e à ciência
Herdando de Bergson, Merleau-Ponty situa na atitude fundamental do recurso ao princípio de razão suficiente a raiz do pensamento objetivo, resumindo Bergson em A evolução criadora as duas ilusões fundamentais do pensamento na ideia de nada
a citação bergsoniana segundo a qual digo a mim mesmo que poderia, deveria mesmo não haver nada, e então me admiro de que haja algo
o desdém da metafísica pela duração decorrendo de que uma existência que dura não é forte o bastante para vencer o nada, daí a determinação essencialista do Ser
Uma leitura atenta de O visível e o invisível mostra que é sob esse ângulo que são criticados os diversos pensamentos ali abordados, residindo a raiz última e a unidade do objetivismo na precessão implícita do nada sobre o Ser
a citação sobre reduzir verdadeiramente uma experiência à sua essência exigindo recuar ao fundo do nada
a citação sobre a coisa natural, longe de ser a coisa de nossa experiência, sendo apenas a imagem obtida ao confrontá-la com a possibilidade do nada
a nota inédita de fevereiro de 1959 reconhecendo que Bergson tem razão na crítica ao nada, errando apenas por não ver que o ser que obtura o nada não é o ente
o positivismo da essência que caracteriza o pensamento husserliano sendo a contrapartida de um negativismo radical inerente ao pensamento metafísico, ao qual Husserl também pertenceria
essa atitude sendo inerente ao pensamento metafísico por ser um traço da ação, que vai sempre da ausência à presença, do vazio ao pleno
Podemos agora retomar os momentos constitutivos do objetivismo ou positivismo husserliano: sendo o ser definido como essência, isto é, como possível, a aparição só pode ter o sentido de uma atualização, de uma existência pura
a citação inédita de setembro de 1958, labirinto da ontologia, segundo a qual essa subordinação do possível lógico não é de modo algum um atualismo, sendo antes reabilitação do possível
a bifurcação entre atual e possível, consequência do primado do nada, impedindo pensar tanto a existência quanto a essência em seu sentido próprio
A atualidade pela qual o aparecer é definido é a negação do que nesse aparecer aparece, devendo a essência, intemporal por definição, estar presente em outro lugar, o que define a função exata da consciência
a citação segundo a qual a fenomenologia é uma ontologia que sujeita tudo o que não é nada a se apresentar à consciência
o comentário de Granel segundo o qual essa atitude dissolve o parecer e o sempre-já de sua articulação ontológica material pela suposição de uma noite da indeterminação
A posição prévia do nada está na origem de um positivismo ontológico que se apresenta sob três formas articuladas por um jogo de compensações alternadas: positivismo da essência, positivismo da localização, positivismo da subjetividade
a absoluidade do nada inicial tendo por contrapartida a plenitude de determinação da essência, negada na existência atual, por sua vez negada na positividade da consciência
O infinito, raiz de toda idealização, vem deter esse jogo de compensações abstratas articulando o que fora inicialmente separado, sendo a objetivação última que permite pensar unitariamente os momentos abstratos nascidos da posição inicial do nada
a citação segundo a qual o verdadeiro infinito não pode ser esse, devendo ser o que nos ultrapassa, infinito de Offenheit e não Unendlichkeit, infinito negativo
a nota inédita sobre estar à distância do percebido, o que não é um transcendente pois por princípio não pode ser posto fora de sua distância
A redução merleau-pontiana radicaliza o gesto husserliano ao evidenciar o solo dessas idealizações que são a essência, a existência, o sujeito ou o infinito, excluindo toda negatividade e não podendo consistir numa atitude de instalação acima da pré-doação de validade do mundo
a citação inédita de junho de 1959 sobre admitir uma espécie de redução, não redução ao sentido mas redução à Weltthesis prepessoal e metapessoal, ao há, ao não há nada
ao abandonar o conceito de essência, abandona-se também a determinação da existência como simples atualidade, reconhecendo o mundo como universalidade que envolve todo possível
a citação sobre a variação eidética não fazendo passar a uma ordem de essências separadas, mas dando um invariante estrutural cuja Erfüllung só se encontra na Weltthesis deste mundo
É essa existência no modo singular do parentesco ou da generalidade concretas que o conceito de carne nomeia, podendo a ontologia do último Merleau-Ponty ser descrita como ontologia da carne, ainda que ela permaneça, em sua elaboração, tributária de uma meditação incessante sobre Husserl