A referência à filosofia de
Merleau-Ponty desempenha papel importante em M.
Henry, testemunhando essa filosofia, por suas ambiguidades, um pressentimento da imanência mesmo em sua negação e esquecimento
M.
Henry reconhece a exatidão dessas descrições mas afirma que deixam na sombra um problema essencial: como esse corpo que sabe um mundo se sabe a si mesmo
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a questão de M.
Henry sendo, contudo, expressão de um pressuposto, pois o sentido mesmo da filosofia de
Merleau-Ponty é escapar a essa oposição
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M.
Henry instalando uma clivagem entre um corpo que seria apenas contato com o mundo e um si que só teria a ver consigo mesmo, restaurando a dualidade da alma e do corpo
M.
Henry desenvolve sua crítica no terreno do conhecimento do corpo por si mesmo, retomando o exemplo de Condillac sobre a mão exploradora
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a citação segundo a qual o corpo original não é o corpo desenhado pela mão mas a própria mão em seu deslocamento, problema que Condillac esquece de colocar
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o conceito de corpo ficando dilacerado entre determinações incompatíveis: ou é um corpo em continuidade com o mundo e já se conhece como sensação, ou se preserva a autodoação radical mas então já não se pode falar de corporeidade
A denúncia por M.
Henry das ambiguidades merleau-pontianas erra o alvo, pois a fórmula eu sou meu corpo não significa que o corpo seja um eu, mas que o eu possui um corpo e é, nessa medida, seu corpo
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a citação de M.
Henry segundo a qual, privado de sua interioridade radical, o corpo não é mais que existência, transcendência, seu ser confundindo-se com o advento anônimo de um mundo
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as fórmulas de
Merleau-Ponty não testemunhando recusa da imanência mas uma abordagem desta como problema, anunciando uma superação do dualismo em que M.
Henry funda sua crítica
Os longos desenvolvimentos de
Merleau-Ponty sobre o autoconhecimento do corpo evidenciam o caráter abstrato da oposição entre um poder explorador que se afeta a si mesmo e um corpo tocado na exterioridade
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a mão tocada se tornando carne no instante mesmo em que o toque a apreende como objeto, emigrando a sensibilidade da mão exploradora para o corpo-objeto
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essa reversibilidade não atestando o postulado da interioridade, mas que o sentir se atinge no e pelo corpo que explora, sendo a autoafecção uma heteroafecção
O pensamento carrega em si a essência que nega, sendo inevitável que a imanência recusada por
Merleau-Ponty retorne no seio da descrição, como quando ele diz ser essencial à visão apreender-se a si mesma
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a citação segundo a qual é preciso que o ato pelo qual tenho consciência de algo seja apreendido no instante mesmo em que se realiza, sem o que se quebraria
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essa menção não devendo ser lida como pressentimento da ipseidade absoluta, mas como persistência da categoria de subjetividade dentro de uma filosofia que visa contestá-la
M.
Henry mostra que, na Fenomenologia da percepção, a existência corporal tende a perder seu estatuto transcendental e decair ao plano ôntico de uma força natural, leitura que permite compreender a função do recurso à consciência
A citação completa mostra que é essencial à visão apreender-se numa espécie de ambiguidade e obscuridade, pois ela não se possui mas ao contrário se escapa na coisa vista, revelando o cogito não a imanência mas o movimento profundo de transcendência que é meu próprio ser
M.
Henry inverte pura e simplesmente o sentido dos conceitos merleau-pontianos ao interpretar os qualificativos de saber latente, pré-consciente, habitual, como determinações impedidas da imanência
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a essência da imanência, para
Merleau-Ponty, não sendo a afetividade mas a consciência intelectual ou reflexiva, incapaz de dar conta da transcendência ou mesmo da autoafecção
A leitura de M.
Henry é conduzida sob o pressuposto de uma dualidade insuperável entre exterioridade e imanência pura, ao passo que
Merleau-Ponty ressaisce a imanência como um problema apreendido na própria experiência do corpo próprio
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a autodoação do corpo próprio aparecendo como inseparável de uma transcendência originária, o sentir jamais podendo coincidir consigo mesmo em sua atividade sensível
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a presença a si sendo ausência de si, não havendo contato consigo senão pelo afastamento em relação a si, sendo a presença a si presença a um mundo diferenciado
O eu que percebe é ninguém, o anônimo, essa negatividade que escava seu sulco no mundo para fazê-lo aparecer, não sendo nós que percebemos mas a coisa que se percebe ali
Essa transcendência não deve ser confundida com o ser-estendido-diante da exterioridade objetiva, cuidando
Merleau-Ponty de distinguir a transcendência do visível, profundidade sem máscara ôntica, da exterioridade do em-si
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o quiasma merleau-pontiano designando esse duplo movimento pelo qual o sentir se ausenta de si para dar lugar a um mundo mas se reencontra sob a forma de um mundo aparecente
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a fenomenalidade sendo Sensível em si no duplo sentido do que sente e do que se sente, Ser que contém também sua negação, seu percipi
Para
Merleau-Ponty, a fenomenalidade originária releva de uma afetividade, sendo caracterizar o mundo como carne reconhecer que todo sentir é, em seu fundo, um sentir-se
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as coisas sendo tiradas de minha substância, espinhos em minha carne, não havendo doação que não seja afetiva
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o esforço constante do pensamento merleau-pontiano fundando a possibilidade de um universo de idealidade no seio da transcendência fenomenal, atravessado de afetividade
Se a fenomenalidade originária releva de uma afetividade, é sob condição de acrescentar que esta não significa a afecção por si sem distância de uma consciência monádica, sendo a transcendência fenomenal a essência da afetividade
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a carne só se afetando ao deixar-se afetar pelo mundo, não podendo distinguir-se autoafecção e transcendência segundo uma relação de fundamento a fundado
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a citação sobre a carne do mundo sendo indivisão desse Ser sensível que sou e de tudo o mais que se sente em mim, indivisão prazer realidade
Não se deve concluir dessa essência afetiva da transcendência fenomenal a uma identificação pura e simples do sensitivo e do afetivo, pois a sensação dá lugar a um processo de objetivação que a desafeta sem cindi-la da prova carnal
A filosofia do último
Merleau-Ponty permite desfazer o laço que une afetividade, imanência e ipseidade, sendo a vida da afetividade uma vida anônima no ponto de contato e nascimento do sujeito e do mundo
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podendo caracterizar-se essa afetividade, seguindo
Merleau-Ponty, como investimento, não sendo prova imóvel e fechada do sofrimento ou da alegria mas doação e revelação de alteridade, isto é, desejo
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a presença da carne ao mundo e do mundo à carne sendo presença por investimento, sendo por isso a afetividade sensibilidade e, finalmente, conhecimento
A confrontação entre M.
Henry e
Merleau-Ponty revela ao mesmo tempo grande proximidade e grande distância, tentando ambos surpreender no nível da carne o surgimento originário do fenômeno através de um modo de conhecimento afetivo e não reflexivo
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a citação de
Merleau-Ponty segundo a qual o redobramento quase reflexivo do corpo, tocar-se tocante, ver-se vidente, não converte o que apreende em objeto nem coincide com uma fonte constituinte da percepção
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a citação de M.
Henry segundo a qual o sentimento se sente, é dado a si mesmo de tal maneira que se apresenta sempre já dado a si mesmo
A aparente proximidade recobre divergência radical quanto ao estatuto da fenomenalidade, compreendendo
Merleau-Ponty a passividade da vida carnal como abertura de um mundo fenomenal distinto da transcendência objetiva
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M.
Henry, não distinguindo entre representação e ekstase, reduzindo a fenomenalidade carnal à pura imanência sob pretexto de que não pode ser confundida com uma doação em exterioridade
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o sentimento sendo, para
Merleau-Ponty, prova de um já-aí que não implica a distância de um conteúdo, mas descrevendo precisamente a doação de um mundo sensível
Se o conteúdo do sentimento é ele mesmo, sem conteúdo além de seu próprio sofrer, nenhuma passividade pode lhe ser atribuída e ele deixa de ser sentimento, confundindo-se com a coincidência intelectual