A
époche, método de acesso ao sentido de ser do mundo, não pode ser um ato de suspensão da existência do mundo, mas antes destruição dos obstáculos que comprometem a apreensão dessa existência enquanto tal, negação do nada que desenraíza o preconceito do objeto para dar acesso ao sentido de ser do que é
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a inversão em relação à versão tematizada por
Husserl, a
époche conduzindo não da suspensão do mundo à coisa constituída na consciência, mas da suspensão da coisa, via negação do nada, ao reconhecimento do mundo
Negar o nada puro como condição prévia do ser é reconhecer uma realidade sempre já ali, constitutiva da aparição, fundamento originário que não pode essencialmente ser negado por ser a base prévia exigida por toda negação
Dizer que o pertencimento é constitutivo da aparição equivale a reconhecer que o mundo também é constitutivo da manifestação, sendo essa totalidade aberta, esse envolvente absoluto, campo de todos os acontecimentos possíveis
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a citação de Patočka segundo a qual o mundo não é soma mas totalidade prévia, sendo por todo seu ser meio, em contraste com aquilo de que é meio, e por isso nunca objeto, sendo único e indivisível
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a recusa de postular uma estrutura envolvente preliminar que justificasse a inscrição de cada ser, o que seria recair, de modo mais sofisticado, na ontologia do objeto
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o mundo sendo o a priori da aparição porque o pertencimento é sua estrutura constitutiva, e a citação de Patočka sobre a conexão única no interior da qual está tudo o que há
Uma vez efetuada a redução, o objeto de nosso espanto aparece como o oposto de uma tese, correspondendo à dimensão de passividade inerente a toda tese, fundamento que ela sempre requer por não poder ser criação pura, não brotando do nada
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a possibilidade de a
époche liberar a estrutura da aparição da plenitude do objeto aparecente, restabelecendo sua autonomia
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o mundo sendo, como base de todo aparecente, capaz de conter tudo, tendo por único conteúdo a própria capacidade, movendo-se assim em direção à forma
A aparição do sujeito a si mesmo, chamada consciência, está submetida às condições gerais da aparição, à doação de um mundo, invertendo-se aqui inteiramente a perspectiva husserliana que postulava um abismo eidético entre consciência e realidade natural
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a manifestação do sujeito a si mesmo envolvendo, tal como a da coisa, uma dimensão de distância ou obscuridade, sem gozar de nenhum privilégio em relação à manifestação da coisa
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a citação de
Merleau-Ponty sobre o Ser-visto, sendo eminentemente percipi, e que só é finalmente possível porque há Ser que contém também sua negação, seu percipi
A
époche assim implementada tem consequências contrárias às que tem em
Husserl, não se estendendo à ordem da imanência mas desfazendo-a, despossuindo a consciência de si mesma e de sua pretensão fundadora
A subordinação da consciência de si à estrutura geral da aparição não reduz o sujeito à insignificância nem lhe nega especificidade, pois a essência desse mundo implica que ele não possa ser distinguido de sua manifestação
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a lei fundamental da aparição sendo a dualidade entre o que aparece, o mundo, e a quem esse aparecer aparece, a subjetividade, além do como
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a especificidade do sujeito em relação aos outros seres dependendo do fato de refletir a co-manifestação do mundo em cada manifestação, sendo capaz de se relacionar com uma totalidade não totalizável
A inscrição do sujeito no mundo, realizada como corpo, é apenas a consequência da estrutura de pertencimento constitutiva de toda manifestação, a encarnação sendo uma característica da fenomenalidade e não sua condição
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a impossibilidade de perguntar como o sujeito produziria a manifestação, cabendo antes revelar seu modo de ser característico tal como se ajusta à estrutura da aparição
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o percipere sendo o que é tornado possível pelo percipi, não fazendo sentido buscar abordar o percipere como fonte do percipi
Retornando à crítica bergsoniana do nada, verifica-se que ela não equivale a uma rejeição sem matizes do negativo, mas implica o reconhecimento de uma forma específica de negatividade, o que é excluído sendo a positividade do nada e não o nada em si mesmo
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a abordagem direta do ser, sem passar pelo nada, descobrindo nele uma dimensão de negatividade, pois sua plenitude positiva só se justificava pela posição desse nada prévio
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a necessidade de introduzir a negatividade na própria definição do ser, negatividade constitutiva do ser mesmo e inerente à aparição
Bergson não chega a essa conclusão por causa do contexto de sua crítica, voltada a reabilitar a duração em sua positividade ontológica, transferindo à duração a positividade ontológica que a metafísica concedia à essência
O resíduo da redução deve ser entendido como algo diferente da coisa plenamente determinável, não sendo nada no sentido de superar um nada prévio, mas no sentido de sempre precedê-lo e constituir a base sobre a qual uma negatividade pode emergir
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o há sendo essa presença suave ou tácita que, por não negar o nada, nunca atinge a plena determinação do objeto
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a identidade imediata entre o positivo e o negativo caracterizando o modo de existir liberado por essa redução, sua positividade fenomenal acompanhada de uma espécie de distância interior
A estrutura de pertencimento que caracteriza a aparição inclui a ideia de que nada pode ser dado se o mundo, como campo dessa manifestação, não é ele mesmo dado, de sorte que a doação de qualquer coisa pressupõe a doação originária do mundo
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o mundo não podendo ser dado ele mesmo por ser totalidade envolvente, sua manifestação significando seu desaparecimento, pois todo encontro pressupõe a possibilidade de um desencontro
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a originariedade implicando e não apenas permitindo uma dimensão de ausência, de modo que a percepção não pode coincidir com a plenitude como preenchimento do vazio
Dizer que o mundo é originariamente dado é reconhecer que o vazio, inerente à ausência do mundo enquanto tal, é um modo do dado, devendo-se abandonar o horizonte de adequação e compreender que a não apresentação da coisa no escorço é a condição de sua manifestação
O conceito de horizonte nomeia essa aparição singular, essa doação da natureza constitutivamente inapresentável da manifestação enquanto co-manifestação de um mundo, sendo a horizontalidade a forma concreta da experiência do a priori
A doação por escorços que caracteriza a percepção enraíza-se na estrutura do horizonte, sendo o ato de esboçar que dá sentido à noção de escorço obra do horizonte, conceber a aparição segundo um horizonte sendo pensar o esboçar como ser
Todos os sujeitos percebidos se caracterizam por uma distância constitutiva, a percepção só havendo quando retida nas profundezas do mundo que revela, sua distância não se opondo a uma proximidade possível mas sendo sinônimo do caráter não totalizável do mundo que nele aparece
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a citação de
Merleau-Ponty segundo a qual ver é sempre ver mais do que se vê, devendo-se admitir que o visto permanece sempre retirado de sua manifestação
Propõe-se chamar sensível a essa ordem fenomenal assim constituída, abandonando a distinção entre sensação e percepção que domina a análise husserliana da doação por escorços