Contextos de sofrimento

AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.

Introdução

Psicopatologia fenomenológica

Psiquiatria hermenêutica

Posfácio


Introdução

1. A psiquiatria moderna é apresentada como atravessada por uma crise profunda, pois, apesar dos avanços farmacológicos e terapêuticos, permanecem elevados os índices de sofrimento psíquico, enquanto se intensificam dúvidas sobre a legitimidade médica de muitos diagnósticos, sobre a hipótese de desequilíbrios químicos como explicação predominante, sobre os conflitos de interesse com a indústria farmacêutica, sobre a expansão classificatória do DSM e sobre a medicalização crescente da infância.

2. Essas tendências desenvolvem-se no interior de um paradigma cada vez mais estreito e reducionista, dominante na psiquiatria norte-americana, que privilegia explicações biológicas e intervenções medicamentosas sobre a química cerebral, retirando o indivíduo de seus contextos relacionais e reduzindo sua experiência a processos neuroquímicos.

3. Na carta de renúncia, Mosher declara que sua saída da American Psychiatric Association equivaleria, em sua avaliação, a uma saída de uma associação essencialmente psicofarmacológica, indicando que a identidade institucional da psiquiatria teria se deslocado em direção ao predomínio do tratamento medicamentoso.

4. Mosher denuncia ainda uma dependência estrutural da psiquiatria em relação às empresas farmacêuticas, afirmando que congressos, simpósios, publicidade em periódicos, eventos educacionais e financiamentos estariam profundamente sustentados pela indústria, o que reduziria a autonomia intelectual e profissional dos psiquiatras.

5. O predomínio psicofarmacológico também restringiria o horizonte clínico ao substituir a compreensão integral da pessoa em seu contexto social pela tentativa de corrigir neurotransmissores, enfraquecendo precisamente a dimensão relacional necessária à prática médica.

6. Contexts of Suffering recorre à fenomenologia existencial e hermenêutica de Martin Heidegger para responder a essas limitações, recolocando a pessoa inteira e seus contextos sociais irredutíveis no centro do encontro terapêutico.

7. A influência de Heidegger sobre a psiquiatria possui uma história extensa que envolve interlocuções com Karl Jaspers, Ludwig Binswanger, Medard Boss e outros psiquiatras, além do desenvolvimento de abordagens fenomenológicas inspiradas em sua análise do Dasein.

8. Na formulação de Binswanger, o ser humano não pode ser compreendido apenas segundo necessidade mecânica, pois sua existência somente se torna inteligível como ser-no-mundo, isto é, como projeção e abertura de mundo.

9. Binswanger compreende a doença mental, em parte, como estreitamento ou contração experiencial do mundo do paciente, enquanto a cura busca reabrir esse mundo mediante novas possibilidades e relações sustentadas por um encontro empático Eu–Tu entre psiquiatra e paciente.

10. Heidegger vivenciou pessoalmente a Daseinsanalyse após um colapso psíquico em 1946, ocorrido no contexto de sua destituição acadêmica após o processo de desnazificação, sendo tratado por Victor von Gebsattel, cuja formação existencial e atitude terapêutica calorosa contribuíram significativamente para sua recuperação.

11. Os Seminários de Zollikon constituem um momento decisivo na teoria psiquiátrica por oferecerem uma crítica sistemática às pressuposições biomédicas e uma interpretação existencial e fenomenológica da psicoterapia e da doença mental.

12. A atenção contextual evidencia os limites do paradigma psiquiátrico norte-americano contemporâneo, pois nenhum avanço em farmacologia, neurociência ou genética molecular pode, por si só, apreender o significado experiencial do sofrimento humano.

13. Contexts of Suffering insere-se numa linha crescente de pesquisas fenomenológicas dedicadas a questionar as pressuposições da psiquiatria biológica e aprofundar a compreensão da experiência em primeira pessoa da psicopatologia, distinguindo-se por combinar uma abordagem heideggeriana com uma análise histórica específica da psiquiatria norte-americana.

14. O objetivo principal permanece fenomenológico: esclarecer as estruturas constitutivas da experiência humana e os modos pelos quais elas se rompem nos episódios de doença mental, levando em conta também sua inserção no mundo da vida especificamente norte-americano.

Visão geral dos capítulos

1. A obra divide-se em duas partes, uma fenomenológica e outra hermenêutica, sendo a primeira dedicada à psicopatologia fenomenológica, à ascensão da psiquiatria biológica nos Estados Unidos, ao papel do DSM na medicalização da condição humana e às contribuições da fenomenologia de Heidegger para compreender os significados experienciais da doença mental.

2. A análise fenomenológica não se concentra em transtornos psicóticos maiores como esquizofrenia ou depressão bipolar porque esses quadros são considerados possivelmente diferentes, em natureza, das condições não psicóticas mais indeterminadas incorporadas ao DSM.

3. A segunda parte, dedicada à psiquiatria hermenêutica, utiliza a hermenêutica ontológica de Heidegger para esclarecer o papel constitutivo da história (Geschichte) na formação cultural das concepções de saúde e doença mental.

4. O capítulo 5 estabelece os fundamentos conceituais da psiquiatria hermenêutica ao distinguir explicação científica (Erklärung) e compreensão hermenêutica (Verstehen), defendendo que a psiquiatria norte-americana deveria reconsiderar sua identidade como ciência humana interpretativa (Geisteswissenschaft) em vez de simples ciência natural aplicada (Naturwissenschaft).

5. Contexts of Suffering apresenta-se como uma abordagem possível da psicopatologia, e não como explicação definitiva, mantendo-se fiel à concepção heideggeriana da filosofia como caminho aberto, provisório e incompleto.