2.1 Psiquiatria hermenêutica

AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.

Sobre o valor da psiquiatria hermenêutica

1. A crítica de Hans-Georg Gadamer à medicina moderna parte da constatação de uma alienação profunda em relação à existência situada e corporal, resultante de um modelo científico objetificante incapaz de apreender a unidade entre corpo vivido (Leib) e vida (Leben).

2. O resultado dessa orientação é uma concepção estreita do eu como objeto descontextualizado e causalmente determinado, no qual o sofrimento é reduzido a sintomas explicados por desequilíbrios químicos cerebrais.

3. A taxonomia do DSM tende a fragmentar o eu em unidades comportamentais observáveis e recombináveis, substituindo padrões holísticos e complexos de personalidade por conjuntos de dados discretos, pouco sensíveis à ambiguidade, indeterminação e complexidade da existência.

4. Embora o mecanicismo possa ser adequado às ciências naturais, sua aplicação à existência humana é insuficiente porque negligencia o próprio significado de ser humano, tornando necessária uma orientação hermenêutica capaz de interpretar o modo concreto e situado de ser-no-mundo da pessoa que sofre.

5. A psiquiatria hermenêutica questiona a crença de que transtornos possam ser descritos de maneira inteiramente objetiva, neutra e inequívoca, pois toda descrição já é configurada por valores e significados próprios de uma situação histórica.

Hermenêutica epistemológica e ontológica

1. A hermenêutica epistemológica adquire sua forma decisiva em Wilhelm Dilthey, que procura estabelecer uma metodologia própria para as ciências humanas (Geisteswissenschaften), distinta do modelo representacional das ciências naturais (Naturwissenschaften).

2. Na ciência moderna, a experiência deixa de ser apenas origem do conhecimento e passa a funcionar como tribunal experimental para confirmar ou refutar leis previamente projetadas conceitualmente, de modo que a abstração matemática permite isolar relações causais que não aparecem de maneira pura na experiência concreta.

3. O modelo das ciências naturais repousa numa separação entre sujeito cognoscente e objetos materiais, na abstração desses objetos de seus contextos relacionais e na explicação de suas interações mediante leis matemáticas.

4. O que desaparece nessa imagem objetificante é o corpo tal como vivido, pois Leib não designa uma coisa corpórea presente objetivamente, mas experiências, sentimentos e percepções expressos e compreendidos dentro de um mundo da vida.

5. Uma contribuição decisiva de Dilthey consiste em compreender as práticas corporais não como produtos de estados mentais internos, mas como expressões espontâneas (Ausdruck) de um contexto compartilhado de significações no qual os indivíduos aprendem a compreender quem são e o que importa.

6. A existência humana transcorre imersa numa atmosfera histórica de inteligibilidade compartilhada, dentro da qual sentidos e significados são compreendidos porque já se está entrelaçado às formas comuns de interpretação.

7. A postura precisa, controlada e emocionalmente distanciada do psiquiatra também expressa um contexto histórico de significação, de modo que sua aparente neutralidade constitui, na verdade, uma prática carregada de valores que privilegia distanciamento e objetividade como condições do conhecimento legítimo.

8. Na hermenêutica epistemológica, compreender a experiência humana exige compreender as condições socio-históricas e estruturas de significado que a tornam inteligível, mas essa própria compreensão permanece circular e incompleta porque toda interpretação já parte de uma situação contextual determinada.

9. A passagem da hermenêutica epistemológica para a ontológica exige investigar as condições de ser que tornam possível qualquer conhecimento, concentrando-se no ente que já compreende e interpreta o mundo antes de qualquer teoria.

10. A análise heideggeriana do instrumento (Zeug) mostra que a inteligibilidade das coisas depende de contextos práticos holísticos e desmonta a concepção cartesiana do eu como sujeito cognoscente separado dos objetos.

A hermenêutica da doença mental

1. Assim como os instrumentos desaparecem durante o uso fluido, também o corpo normalmente se retrai da consciência enquanto mãos, braços e demais dimensões corporais executam atividades cotidianas dentro de contextos significativos.

2. Antes mesmo de aprender a falar, a criança já está imersa num meio compartilhado de gestos, expressões, movimentos e palavras, adquirindo orientação no mundo pela repetida experiência dessas formas comuns de significação.

3. Gadamer compreende essa competência de fundo como saúde (Gesundheit), caracterizada pelo esquecimento de si no fluxo prático da vida cotidiana, de modo que sua própria ocultação (Verborgenheit) constitui um equilíbrio corporal e rítmico que permanece normalmente invisível.

4. Saúde não significa simplesmente ausência de dor ou funcionamento adequado de órgãos e sistemas, mas participação envolvida no mundo, convivência com outros e engajamento ativo e significativo nas tarefas cotidianas.

5. Na ansiedade, objetos cotidianos como casa, mesa, computador, cama, roupas ou automóvel podem perder sua conexão familiar com a existência e aparecer como coisas autônomas e estranhas, enquanto o desaparecimento dos vínculos que anteriormente uniam pessoa e mundo produz uma experiência profunda de vazio, irrealidade e angústia.

6. Para entrar empaticamente nessa experiência, a psiquiatria precisa distinguir aquilo que pode ser cientificamente explicado (erklärbar) quanto às causas da ansiedade daquilo que pode ser compreendido (verständlich) quanto ao significado da própria experiência.

7. A distinção entre explicação (Erklärung) e compreensão (Verstehen) é fundamental para a psiquiatria hermenêutica, pois a primeira investiga relações causais objetivas enquanto a segunda procura penetrar empaticamente na situação psíquica e na rede de sentidos do paciente.

8. A sensibilidade hermenêutica não requer neutralidade absoluta nem eliminação de si, mas reconhecimento dos próprios sentidos prévios, permitindo que a experiência alheia se manifeste em sua alteridade e confronte as interpretações antecipadas do intérprete.

9. A compreensão hermenêutica exige permanecer aberto ao sentido da experiência do outro, deixando a narrativa do paciente desenvolver-se e reconhecendo que toda interpretação permanecerá inevitavelmente ambígua, provisória e aberta.

10. O significado de agitação, desânimo, vazio ou depressão não é determinado apenas pela observação distanciada de sintomas, mas pelos padrões culturais e sociais nos quais o paciente já está inserido.

11. Alec exemplifica uma existência marcada por solidão, alienação e ausência de interesses ou compromissos estáveis, cuja melhora começa quando encontra reconhecimento e pertencimento num grupo comunitário, mesmo que precise assumir problematicamente uma identidade patológica que não corresponde inteiramente à sua própria história.

12. A psiquiatria hermenêutica interpreta o sofrimento de Alec não como mero déficit neuroquímico, mas como dificuldade de integrar-se às expectativas sociais e estruturas de significado do mundo no qual foi lançado.

13. Na terapia hermenêutica, psiquiatra e paciente participam de um movimento dialógico no qual ambos se transformam enquanto avançam em direção à autocompreensão.

14. A psiquiatria é mais adequadamente compreendida como ciência humana (Geisteswissenschaft) do que como mera ciência natural (Naturwissenschaft), pois o ser-no-mundo não pode ser reduzido a procedimentos técnicos capazes de produzir verdades trans-históricas sobre a doença mental.

15. A fundamentação da psiquiatria hermenêutica permite investigar como as estruturas significativas da modernidade constroem padrões de normalidade e como o afastamento desses padrões pode converter-se em diagnóstico psiquiátrico.