1.4 Doença, morte e cura

AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.

Dizer que o Dasein está “vivo”, portanto, tem pouco a ver com processos fisiológicos. O fato de o ser humano ter um coração que bombeia sangue ou circuitos neurais que transmitem sinais para várias partes do corpo não é a principal preocupação de Heidegger. Seu foco é a “questão do ser” (Seinsfrage), uma questão que busca “revelar o horizonte dentro do qual algo como o ser em geral se torna inteligível [e]… esclarecer a possibilidade de se ter qualquer compreensão do ser — uma compreensão que pertence à constituição da entidade chamada Dasein” (BT, 231). Portanto, o que importa são as condições ou estruturas existenciais que nos permitem interpretar e atribuir sentido aos processos fisiológicos do corpo, e não o próprio processo determinístico. E é essa atividade interpretativa — nossa compreensão do ser — que distingue o Dasein dos demais animais. O Dasein vive ou existe apenas como ser-no-mundo; daí a controversa afirmação de Heidegger de que a existência dos animais é sempre empobrecida ou “pobre em mundo” (weltarm), pois eles são privados da capacidade de interpretar e atribuir sentido às coisas com base no envolvimento em um contexto histórico compartilhado. Heidegger deixa esse ponto explícito ao articular a diferença entre a concepção redutora e determinística da vida formulada nas ciências naturais e a “vida fáctica” (faktische Leben) dos seres humanos. Para Heidegger, a vida humana já está imersa em um mundo, e esse entrelaçamento molda as formas possíveis pelas quais eu me preocupo com e pelas coisas — aqueles papéis, projetos e compromissos que definem a si mesmo e que são importantes e relevantes para mim na construção da minha identidade. Isso significa que o Dasein só está vivo na medida em que está imerso no mundo e o compreende; essa compreensão permite que o Dasein seja quem ele é. O animal, em contrapartida, está preso no “círculo” (Umring) de seus próprios instintos; está privado da capacidade de criar e sustentar uma identidade significativa e, por essa razão, “comporta-se dentro de um ambiente, mas nunca dentro de um mundo” (GA29-30, FCM, 239). Determinado dessa forma, o animal não possui uma identidade histórica a perder. Heidegger explica:

Assim, da mesma forma que permanece questionável falar de um organismo como um ser histórico (geschichtlich) ou mesmo historiológico, é questionável se a morte para o homem e a morte para um animal são a mesma coisa, mesmo que se possam constatar correlações físico-químicas e fisiológicas. (GA29-30, FCM, 267)

Doença mental, morte ontológica e possibilidades de cura

1. A interpretação heideggeriana da morte em Ser e Tempo foi frequentemente reduzida à distinção entre o reconhecimento banal de que todos morrerão e a consciência individualizante de que eu morrerei, mas essa leitura deixa de considerar a diferenciação mais precisa entre perecer (Verenden), falecer (Ableben) e morrer (Sterben).

2. A morte, no sentido heideggeriano do morrer (Sterben), não designa simplesmente o perecimento fisiológico nem necessariamente a antecipação angustiada da própria morte física, mas um colapso do significado no qual se perde a capacidade de compreender o mundo e a si mesmo.

3. As narrativas em primeira pessoa de doença crítica permitem tornar concreta a experiência do morrer ao revelar tanto a perda afetiva da identidade quanto a dificuldade de reintegração a um contexto significativo.

Por que o Dasein não perece

1. Em Ser e Tempo, Heidegger afirma simultaneamente que o perecimento pertence a tudo aquilo que vive e que o Dasein nunca perece, aparente contradição que se esclarece quando o Dasein é compreendido não como organismo vivo ou substância bioquímica, mas como modo de ser situado e autointerpretativo.

2. Dizer que o Dasein está vivo não significa primordialmente que possui circulação sanguínea ou atividade neural, pois o interesse heideggeriano recai sobre a questão do ser (Seinsfrage) e sobre as estruturas que tornam possível compreender e conferir significado ao próprio corpo e ao mundo.

3. A diferença entre morte humana e morte animal não pode ser reduzida às correlações fisiológicas e físico-químicas comuns aos organismos, pois a existência histórica e autointerpretativa do ser humano introduz uma diferença ontológica que torna problemática qualquer identificação direta entre ambas.

4. A formulação segundo a qual apenas o ser humano morre enquanto o animal meramente perece exprime a distinção entre o fim fisiológico de um organismo e a possibilidade ontológica de perda do próprio modo de ser.

5. Quando Heidegger afirma que o Dasein nunca perece, indica que o perecimento diz respeito ao corpo fisiológico, enquanto a compreensão de ser e a atividade autointerpretativa pertencem a outro nível de análise.

6. O conceito médico de exitus não corresponde à morte do Dasein, pois esta se refere à vulnerabilidade estrutural do mundo enquanto espaço de significação e das identidades que nele são formadas.

O falecimento do Dasein

1. A diferença entre perecimento e falecimento pode ser compreendida mediante a distinção entre corpo físico (Körper) e corpo vivido (Leib): o perecimento designa o fim do organismo, enquanto o falecimento diz respeito à maneira como o Dasein experiencia, interpreta e atribui significado à aproximação de sua própria morte física.

2. A consciência da morte física pode fazer todas as atividades parecerem inúteis ao revelar que tanto o próprio indivíduo quanto as pessoas amadas morrerão e que realizações, projetos e ações acabarão esquecidos, desencadeando a pergunta pela razão de continuar ocupando-se com qualquer coisa.

3. Perecer e falecer não constituem graus diferentes de um mesmo processo, mas fenômenos distintos, pois o ser humano não é apenas um objeto biofísico com natureza fixa, mas um ser possível e ainda-não que continuamente interpreta sua condição e se constitui até o fim.

4. A distinção entre medo (Furcht) e angústia (Angst) permite compreender a diferença entre falecimento e morrer, pois o medo se dirige a algo determinado no mundo, enquanto a angústia emerge de nada e de lugar nenhum.

5. Nos episódios de morte ontológica, atividades e projetos perdem significação, o futuro deixa de mobilizar afetivamente e desaparece a motivação para continuar envolvido com o mundo, fenômenos que não podem ser plenamente compreendidos apenas como desequilíbrios neuroquímicos.

6. A inautenticidade surge quando, diante da morte ontológica, se procura refugiar novamente nas identidades públicas já interpretadas, recusando reconhecer a vulnerabilidade estrutural da própria existência.

7. Heidegger sugere que a autenticidade transformadora pode ser rara porque a queda e a publicidade exercem forte domínio sobre a vida cotidiana, produzindo nivelamento e a ilusão de permanência das identidades.

Morte ontológica e narrativas de doença

1. Embora Heidegger não desenvolva diretamente a relação entre doença crítica e morte ontológica, narrativas de adoecimento mostram muitos de seus traços afetivos e permitem ampliar a concepção neuroquímica do sofrimento ao incluir a dor existencial provocada pelo colapso de mundo.

2. Após sofrer um infarto e, pouco depois, receber diagnóstico de câncer testicular, Arthur Frank descreve o colapso simultâneo das relações, do trabalho, da identidade e das expectativas futuras que antes organizavam sua vida, experiência agravada pela entrada num universo médico que o reduz a objeto corporal e pouco reconhece o significado existencial da doença.

3. A distinção entre corpo físico (Körper) e corpo vivido (Leib) torna-se concreta quando a ruptura corporal é vivida simultaneamente como ruptura da própria vida, enquanto o encontro clínico tende a transformar a experiência corporal em objeto mensurável.

4. A fragilidade corporal pode revelar a fragilidade mais fundamental da própria existência, pois o mundo que anteriormente mantinha aberto um futuro significativo pode perder sua familiaridade e transformar-se num espaço estranho, irreal e sem orientação.

5. A comunidade de outros doentes permite elaborar a morte ontológica, atribuir-lhe significado e construir uma nova identidade, revelando que o sofrimento pode também transformar a relação com valores, prioridades e modos anteriores de vida.

6. A transformação narrada por Frank concretiza a autenticidade heideggeriana, que não consiste em descobrir um eu verdadeiro escondido sob as convenções cotidianas, mas em reconhecer que a própria ideia de um eu fixo e genuíno é uma construção problemática do mundo público.

7. As narrativas de doença ajudam a compreender a afirmação de que o Dasein morre enquanto existe, pois a doença revela simultaneamente a vulnerabilidade do corpo e a fragilidade estrutural da autocompreensão, exigindo uma concepção de cuidado que ultrapasse a simples mensuração e tratamento do organismo.

8. A terapia pode favorecer a aceitação de características inevitáveis da existência, como corporeidade, convivência com outros, necessidade de escolher e certeza da morte, sem eliminar a possibilidade de assumir respostas próprias diante daquilo que é dado.

9. A morte ontológica não exige necessariamente doença grave, pois a autocompreensão pode entrar em colapso nas situações mais comuns, tornando decisiva a maneira como se responde à ruptura: seja retraindo-se para identidades familiares e rígidas, seja aceitando a contingência e a vulnerabilidade do mundo e de si mesmo.