1.3 Angústia

AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.

Perturbações temporais e colapso do significado

1. A dificuldade inicial para compreender fenomenologicamente a angústia (Angst) decorre de sua heterogeneidade e da necessidade de distinguir entre emoções ansiosas agudas, episódicas e dirigidas a objetos ou situações determinados e uma angústia mais difusa, duradoura e global, experimentada como estado de ânimo que colore afetivamente o horizonte inteiro da existência.

2. Embora o DSM descreva extensamente critérios diagnósticos, fatores de risco, diagnósticos diferenciais e consequências funcionais, pouco esclarece acerca da experiência em primeira pessoa, sobretudo no que diz respeito às alterações da agência, da autointerpretação e da experiência temporal.

Perturbações da corporeidade e da cognição

1. A fenomenologia da psicopatologia tem mostrado que a temporalidade é uma dimensão fundamental da experiência humana, e Heidegger permite compreendê-la como horizonte vivido que articula passado, presente e futuro e abre o espaço de significação no qual as coisas podem afetivamente importar.

2. Na saúde e no envolvimento cotidiano, a unidade temporal é incorporada de maneira transparente por meio de ritmos corporais como respiração, batimentos cardíacos, temperatura, postura e motilidade, que organizam silenciosamente a experiência sem se tornarem objetos explícitos de atenção.

3. Enquanto a depressão tende a manifestar-se por lentificação dos ritmos corporais, a angústia costuma ser vivida como aceleração, inquietação e aumento de velocidade, embora ambas possam coexistir e produzir simultaneamente lentidão e agitação.

4. A coexistência de angústia e depressão pode ser experimentada como uma combinação paradoxal em que o corpo parece lento e enevoado, enquanto pensamentos, movimentos e fala são vividos como acelerados, fragmentados e difíceis de coordenar.

5. A aceleração temporal da angústia pode manifestar-se por palpitações, taquicardia, sudorese, tremores e dificuldade respiratória, fazendo com que funções corporais antes transparentes apareçam como estranhas e resistentes.

6. A angústia também pode acelerar o fluxo cognitivo mediante pensamentos corridos ou congestionados, nos quais ideias, percepções e lembranças surgem de maneira descontrolada e desarticulada.

7. A velocidade interna do pensamento ansioso pode superar a capacidade da linguagem, fazendo com que ideias, memórias, emoções e associações apareçam tão rapidamente e de forma tão interligada que as palavras conseguem expressar apenas fragmentos desse processo.

8. A desorganização do fluxo de pensamento dificulta controlar conteúdos ansiosos e pode produzir um ciclo repetitivo de preocupações e hipóteses ameaçadoras.

9. A tentativa de não pensar num determinado conteúdo pode paradoxalmente mantê-lo presente, pois é necessário continuar consciente dele para lembrar aquilo que se procura evitar, produzindo um circuito ruminativo autoalimentado.

10. A desorganização cognitiva repercute ainda nos ritmos psicomotores, manifestando-se como agitação, inquietação persistente e impulsividade.

11. O esquema corporal constitui o sistema sensório-motor unificado que ancora o indivíduo no mundo e orienta pré-reflexivamente posição, movimento e relação com os eixos espaciais, mas a angústia rompe essa familiaridade corporal e produz sensação de tensão e inquietação.

12. A intercorporeidade mostra que a existência se constitui em abertura e sincronização com os corpos, gestos e movimentos dos outros, de modo que a identidade cotidiana depende da incorporação de ritmos compartilhados.

13. A aceleração e a urgência temporal não constituem por si mesmas uma psicopatologia, mas, quando se tornam extremas, podem romper profundamente o tempo intercorporal e desencadear crises intensas em situações públicas.

14. A angústia pode reorganizar profundamente a vida cotidiana, levando a evitar elevadores, telefonemas, conversas, encontros sociais e contatos com desconhecidos, de maneira que família, trabalho e relações passam a ser condicionados pela antecipação ansiosa.

15. Essa contração existencial pode desgastar vínculos sociais e afetivos, produzindo isolamento, vergonha e culpa, que por sua vez intensificam a própria angústia.

Angústia como fechamento narrativo

1. Os estados de ânimo não se dirigem a objetos isolados, mas ao mundo como um todo, constituindo atmosferas afetivas que revelam como escolhas, relações e compromissos importam, enquanto o Dasein permanece simultaneamente lançado numa situação e projetado em possibilidades futuras.

2. A especificidade da angústia consiste em não abrir possibilidades significativas, mas em fechar o horizonte de sentido e fazer o mundo aparecer como ameaçador, estranho e esvaziado de valor.

3. Essa experiência aproxima-se do fechamento narrativo, no qual os recursos interpretativos necessários para construir uma história coerente da própria vida ficam afetivamente indisponíveis.

4. A preocupação pode espalhar-se simultaneamente por saúde, família, dinheiro, trabalho, envelhecimento, morte e acontecimentos cotidianos insignificantes, fazendo com que a ameaça se torne ubíqua e indefinida.

5. A unidade narrativa depende de um para-quê (das Worumwillen), isto é, de uma orientação implícita para a futuridade (zukünftig), por meio da qual a pessoa compreende quem é segundo a direção de sua própria história, mas a angústia pode fazer essa história parecer encerrada ou sem destino.

6. Quando o futuro é antecipado apenas como pobreza, abandono, incapacidade de trabalhar, dissolução das amizades, fracasso, solidão, deterioração e perda de pertencimento, a projeção temporal deixa de abrir possibilidades e se transforma numa antecipação predominantemente negativa.

7. A angústia também retroage sobre o passado, fazendo com que lembranças, relações e experiências anteriormente significativas apareçam como marcas de fracasso, oportunidades perdidas e promessas não cumpridas.

8. A noção de futuro encurtado presente em descrições do transtorno de estresse pós-traumático oferece um paralelo clínico para esse colapso temporal.

9. Quando a angústia atinge a própria temporalidade, não basta tratar apenas sintomas físicos ou comportamentais, sendo necessário um diálogo capaz de reabrir possibilidades narrativas e permitir que a pessoa reinterprete a si mesma diante do colapso de mundo.

10. A reconstrução narrativa traz, contudo, o risco de substituir o colapso anterior por uma nova identidade rígida e fechada, fundada no desejo de segurança e completude.

11. As autointerpretações permanecem sempre em processo e precisam ser continuamente revistas à medida que escolhas e ações encontram os limites da situação, de modo que identidades narrativas podem morrer e ser reconstruídas repetidamente ao longo da vida.

12. A relação entre doença mental, instabilidade do eu e colapso de mundo conduz à concepção heideggeriana de morte e morrer, pois a perda de significação pode produzir uma morte ontológica na qual já não se dispõe de um mundo inteligível capaz de sustentar identidade e sentido de si.