AGAMBEN, Giorgio; AGAMBEN, Giorgio. L’ uso dei corpi. Vicenza: Neri Pozza editore, 2014 / O uso do mundo. Tr. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014
4. Relação entre Uso e Cura em Martin Heidegger
4.1. O Primado Ontológico da Cura (Die Sorge) como Estrutura Fundamental do Dasein em Ser e Tempo
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A complexidade da Cura (die Sorge) na obra Essere e tempo de Martin Heidegger, em face da possível não leitura do capítulo «A cura (die Sorge) como ser do Dasein» por Michel
Foucault
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Citação completa da definição: «A cura, enquanto totalidade estrutural unitária, se situa, de modo existencialmente a priori , “antes” de todo, ou seja, já sempre em todo fatício “comportamento” e “situação” do Dasein»
4.2. A Intraduzibilidade do Termo Umgang de Kerényi e a «Familiaridade que Usa e Maneja» em Heidegger
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Implicação da intercambiabilidade entre sujeito e objeto: «O objeto da familiaridade deve poder se mudar a todo momento no sujeito daquela mesma familiaridade; e nós, que cultivamos a familiaridade com ele, devemos poder nos tornar o objeto» (Kerényi, p. 5)
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A familiaridade como Umgang de Kerényi: imediata (nada a separa do mundo) e lugar de indeterminação entre sujeito e objeto (o Dasein, sempre em antecipação sobre si, está «já sempre à mercê das coisas de que se toma cura»)
4.3. A Relação Originária com a Esfera do Uso e o Paradigma da Manejabilidade
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O envolvimento da relação com a esfera do uso, implícito no paradigma da manejabilidade (Zuhandenheit), através do instrumento (das Zeug) (o
organon ou o
ktema de
Aristóteles)
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Citação sobre o uso do martelo: «A correta familiaridade com o instrumento, na qual somente ele pode se mostrar de modo genuíno no seu ser (por exemplo, o martelar para o martelo), não compreende tematicamente este ente como coisa que se apresenta, assim como o usar não compreende a estrutura do instrumento como tal. O martelar não se resolve em um simples conhecimento do caráter de instrumento do martelo, mas, ao contrário, já se apropriou deste instrumento como o mais adequadamente não seria possível. Nesta familiaridade que faz uso , o tomar-se cura deve se submeter ao caráter de finalidade [Um-zu, «para um propósito»] constitutivo de cada instrumento. Quanto menos o martelo é somente contemplado e quanto mais adequadamente é usado , tanto mais originário se torna o relacionamento com ele e tanto mais ele vem ao nosso encontro sem véus como aquilo que é, ou seja, um instrumento. É o próprio martelar que descobre a específica «manejabilidade» do martelo. O modo de ser do instrumento, no qual ele se manifesta por si mesmo, nós chamamos «manejabilidade» » (Heidegger 1, p. 69)
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«Maneiras do in-ser» (Weisen des In-Seins) análogas à polissemia da chresis grega: «ter a ver com algo , produzir algo, ordenar ou cultivar algo, utilizar algo, abandonar ou deixar perder algo, empreender, impor, pesquisar, interrogar, considerar, discutir, determinar…» (p. 56)
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O ente primeiro e imediato é pré-temático, sendo «o usado , o produto, etc.» e não objeto de conhecimento teórico do mundo
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Paralelo entre a relação uso-cura e a dialética valor de uso-valor de troca em Karl
Marx (nota de rodapé a)
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O privilégio do valor de uso em
Marx (processo de produção orientado ao valor de uso, transformação em mercadoria pela excedência do valor de uso sobre a demanda)
4.4. A Estratégia da Angústia para Afirmar o Primado da Cura (die Sorge) sobre a «Familiaridade que Usa e Maneja»
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As modalidades do in-ser (In-Sein) possuem o modo de ser do tomar-se cura (Besorgen): «Estas modalidades do in-ser têm o modo de ser (a ser definido, mais tarde, com precisão) do tomar-se cura … A expressão não significa que o Dasein seja antes de tudo e prevalentemente econômico ou prático, mas que o ser do Dasein deve tornar-se visível como cura. Este termo deve ser compreendido [ist… zu fassen] como conceito estrutural ontológico» (p. 57)
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Citação: «a manejabilidade não se desvanece simplesmente, mas, na surpresa causada pelo que se torna inutilizável, ela parece quase se despedir. A manejabilidade se mostra ainda uma vez e justamente na sua despedida mostra a conformidade ao mundo do manejável» (p. 74)
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A perda de importância da «totalidade de satisfatoriedade, descoberta dentro do mundo, do manejável e do disponível», que «afunda em si mesma»
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Citação: «Aquilo diante do qual a angústia é tal, não é nada de manejável no mundo… O nada da manejabilidade se funda em algo de absolutamente originário: no mundo… Aquilo diante do que a angústia se angustia, é o próprio ser-no-mundo. A angústia abre originariamente e diretamente o mundo como mundo» (p. 187)
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Conceitos de ordem espacial: o «dis-afastamento» (die Ent-fernung), a «proximidade» (die Nähe), a «região» (die Gegend), o «dispor no espaço» (Einräumen)
4.5. A Dialética do Impróprio (Uneigentlich) e do Próprio (Eigentlich) na Analítica do Dasein
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O primado do próprio (Eigentlich) (Cura, temporalidade) sobre o impróprio (Uneigentlich) (manejabilidade, espacialidade) repousa em uma estrutura de ser singular: algo existe e se dá realidade aferrando um ser que o precede, mas que se desvanece e se retira
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A analogia com a dialética que abre a Fenomenologia do Espírito de
Hegel
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A secularização da doutrina teológica da queda e do pecado original na analítica do Dasein (como
Hegel fez com a doutrina da redenção)
4.6. A Centralidade do Uso (Der Brauch) como Dimensão Ontológica em Der Spruch des Anaximander
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chrao significa: «eu trato, mantenho algo, eu o pego na mão, dou uma mão» (ich be-handle etwas, «eu trato, mantenho algo, a pego na mão, vou a ela e vou-lhe à mão» - gehe es an und gehe ihm an die Hand)
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Chrao significa também «dar na mão, entregar» (in die Hand geben, einhändigen), «restituir a uma pertinência»
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Citação: «O termo [to chreon] pode somente significar o essentificante na presença do presente , ou seja, a relação, que no genitivo (do) vem obscuramente à expressão. To chreon é, ou seja, o dar na mão da presença, o qual dar na mão entrega [aushändigt] a presença ao presente e, deste modo, detém na mão o presente como tal, ou seja, o custodia na presença» (p. 337)
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O significado etimológico preferido: brauchen é bruchen, o latim frui (correspondente ao alemão fruchten, «frutar», e Frucht, «fruto»)
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O significado fundamental de brauchen no sentido de frui em
Agostinho: «O que é de fato outra coisa que dizemos frui, a não ser ter à disposição o que amas?» (Quid enim est aliud quod dicimus frui, nisi praesto habere, quod diligis?)
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O frui contém ter à disposição (praesto habere), sendo praesto e praesitum o hypokeimenon (o que está diante de nós na inatência, a ousia, o que é a cada vez presente)
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Citação: «“Usar” significa, portanto: deixar ser presente algo de presente como presente; frui, bruchen, brauchen, Brauch significam: entregar algo ao seu próprio ser e detê-lo na mão que o custodia como presente… O uso é pensado como o essentificante no próprio ser» (p. 338-339)
4.7. Relação entre Uso Ontológico e «Familiaridade que Usa e Maneja»
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Uso (
chreon) e ser-em-obra (
energeia) «nomeiam o mesmo» (p. 342) pela proximidade já encontrada em
Aristóteles