STIMMUNG E STIMME, VOCAÇÃO E VOZ (2015:75-78)

AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Ensaios e conferências. Tr. Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015

* A Stimmung, enquanto abertura originária ao mundo que constitui o Dasein, coincide com o próprio Da do ser do homem e o identifica com sua abertura, mas manifesta-se simultaneamente como dissonância, desafinação, desorientação e ser-lançado, de modo que o homem é sempre antecipado por essa abertura que o precede e o expõe.

* O caráter de cisão e dissonância da abertura da Stimmung põe em jogo uma estrutura de entonação paradoxal, na qual a única “entonação” possível assume a forma de uma dissonância que questiona o próprio sentido do acordo entre Dasein e mundo.

* O caráter de arche atribuído por Sein und Zeit à Stimmung e à angústia como Stimmung fundamental encontra paralelo na Antiguidade apenas no thaumazein, o espanto considerado pela tradição como princípio do filosofar, mas distingue-se dele pelo deslocamento da abertura originária da esfera ótica grega, ligada ao theasthai, para a esfera acústica moderna da Stimme, voz, deslocamento que revela a herança do judaísmo, no qual a revelação é fenômeno acústico, como exprime o Deuteronômio ao afirmar que se ouviu uma voz sem ver forma alguma.

* O caráter acústico da Stimmung relaciona-se à teoria grega dos pathe, elaborada por Aristóteles na Retórica em estreita conexão com o discurso persuasivo e aprofundada pelos estoicos, especialmente por Crisipo, segundo o qual as paixões só se produzem no homem enquanto animal rationale, pois são formas de krisis e de logos, definidas como pleonazousa horme e hyperteinousa ta kata ton logon metra, isto é, impulso excessivo que transgride a medida da linguagem, uma proveniência que excede o logos, violenta e apeithes logo, indicando que a violência das paixões concerne à própria linguagem.

* A teoria estoica das paixões aponta para uma desconexão interna entre o homem e o logos, pois assim como a Stimmung revela ao Dasein sua estranheza na própria abertura, também o pathos manifesta um excesso que se produz na relação com aquilo que é mais próprio ao homem, a linguagem.

* A teoria das paixões e das Stimmungen constitui o lugar em que o homem ocidental pensa sua relação fundamental com a linguagem, procurando captar o arthros entre zoon e logos, entre natureza e cultura, articulação que é ao mesmo tempo desarticulação, de modo que as paixões são o que se produz nessa desconexão e o que revela esse desvio estrutural.

* Se a voz, segundo a tradição que define a linguagem humana como phone enarthros, é o lugar da articulação entre ser vivo e linguagem, então a Stimmung encena a in-vocação da linguagem, tanto como inserção na voz quanto como chamado histórico, de modo que o homem é apaixonado e angustiado porque permanece no lugar da linguagem sem possuir voz própria, lançado e abandonado nessa abertura, devendo fazer do abandono seu mundo e da linguagem sua voz.

* A análise da Stimmung em Sein und Zeit e o surgimento da Voz da consciência nos parágrafos seguintes iluminam-se reciprocamente, pois a relação etimológica entre Stimmung e Stimme manifesta-se no apelo silencioso de uma voz da consciência que impõe compreensão mais originária da abertura, retomada em Was ist Metaphysik? como lautlose Stimme, voz sem som que nos põe de acordo no terror do abismo, de modo que a angústia é a Stimmung acordada por essa voz, a voz do ser que chama o homem ao espanto dos espantos: que o ente é.