O vestuário sempre teve, em toda época, um significado moral, e no âmbito cristão a narrativa do Gênesis ligava a própria origem da veste à queda de Adão e Eva, mas é apenas a partir do monaquismo que se assiste a uma moralização integral de cada elemento do vestuário
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Para encontrar um equivalente ao capítulo de habitu monachorum das Instituições de Cassiano será preciso esperar os grandes tratados litúrgicos de Amalário, de Inocêncio III e de Guilherme Durando (e, no âmbito profano, o Livro das cerimônias de Constantino VII Porfirogênito)
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No Rationale divinorum officiorum de Guilherme, logo após o tratamento da Igreja e seus ministros, o livro terceiro dedica-se a uma análise dos “vestimentos e ornamentos dos sacerdotes”, expondo, exatamente como em Cassiano, o significado simbólico de cada elemento da veste sacerdotal, cujo correspondente no hábito monacal é muitas vezes possível indicar
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Antes de descrever minuciosamente cada vestimenta, Guilherme compendia assim a vestição do sacerdote: “O pontífice que se prepara para celebrar despe as vestes cotidianas e veste as puras e sagradas. Primeiro, calça as sandálias, que lembram a encarnação do Senhor. Depois, veste o amictus, para conter os movimentos e os pensamentos, a boca e a língua, a fim de que seu coração se torne puro e se renove o espírito que percebe retamente nas entranhas. Terceiro, a alva talar, símbolo de pureza e perseverança. Quarto, o cinto, que refreia o império da luxúria. Quinto, a estola, sinal de obediência. Sexto, a túnica cor de ametista, que significa a vida celeste. Sétimo, sobrepõe a dalmática, símbolo da santa religião e da mortificação da carne. Oitavo, cobre as mãos com as luvas (cirothecae), para que desapareça a vanglória. Nono, o anel, para que ame a esposa como a si mesmo. Décimo, a casula (ou pianeta), que significa caridade. Décimo primeiro, o véu, para que lave com a penitência todo pecado de fraqueza e ignorância. Décimo segundo, sobrepõe o manto, que o constitui imitador de Cristo, que assumiu sobre si nossas fraquezas. Décimo terceiro, a mitra, para que aja de modo a merecer a coroa da glória eterna. Décimo quarto, o bastão (baculus), símbolo de autoridade e doutrina”
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Em outra passagem, as vestes sacerdotais são elencadas, segundo a metáfora militar cara aos monges, como uma panóplia de armas na luta contra o mal espiritual: “Primeiro, o sacerdote veste as sandálias como grevas para que nenhuma mancha o contamine. Segundo, cobre a cabeça com o amictus à guisa de elmo. Terceiro, a alva reveste todo o seu corpo como uma couraça. Quarto, o cinto (cingulum) serve-lhe de arco e o subcingulum, que liga a estola ao cinto, de aljava. Quinto, a estola circunda-lhe o pescoço, como a lançar uma lança contra o inimigo. Sexto, o manípulo serve-lhe de clava. Sétimo, a pianeta cobre-o como um escudo, enquanto a mão segura um livro como uma espada”
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As prescrições das regras sobre os habitus monachorum, em sua pobreza e sobriedade, são a posta que anuncia a codificação gloriosa das vestes litúrgicas; umas e outras são unidas por serem sinal e sacramento de uma realidade espiritual: “Cuide o sacerdote de nunca trazer um sinal sem significado ou uma veste sem virtude, para que não se torne semelhante a um sepulcro caiado por fora, mas cheio por dentro de toda sujeira”