Retoma-se o problema da voz animal: a voz é audição ativa, puro si que se põe como universal, exprimindo dor, desejo, alegria, satisfação, Aufheben do si singular, cada animal possuindo na morte violenta uma voz que exprime a si mesmo como si tolhido (als aufgehobnes Selbst), tendo os pássaros o canto, próprio do elemento do ar, voz mais articulante e si mais solto; na voz o sentido retorna ao seu interior como si negativo, desejo, falta, ausência de substância em si mesmo.
Por exprimir-se a si mesmo como tolhido na morte, o animal permite compreender por que a articulação da voz animal pode dar origem à linguagem humana e tornar-se voz da consciência, pois a voz, como expressão e memória da morte do animal, já não é mero signo natural e contém em si o poder do negativo e da memória, correspondendo à estrutura negativa daquilo que a lógica medieval captava no “pensamento da voz somente”; o animal, ao morrer, exala a alma numa voz, exprimindo-se e conservando-se nela como morto, sendo a voz animal voz da morte.
Somente porque a voz animal não é verdadeiramente vazia, mas contém a morte do animal, a linguagem humana, que articula e detém o puro som dessa voz, a vogal, voz da morte, pode tornar-se voz da consciência, linguagem significante.
Citação segundo a qual a natureza jamais pôde alcançar produto durável nem verdadeira existência, chegando apenas no animal ao sentido da voz e da audição, como traço imediatamente dissipante do processo tornado simples.
A linguagem humana, enquanto articulação, isto é, deter e conservar esse traço dissipante, constitui-se como túmulo da voz animal, que custodia e mantém firme aquilo que nela há de mais terrível, o Morto.
A linguagem significante é verdadeiramente a vida do espírito que porta a morte e nela se mantém, possuindo por isso o poder mágico que converte o negativo em ser, poder que lhe compete porque é articulação daquele traço dissipante que é a voz animal, sendo a linguagem duplamente voz e memória da morte, articulação e gramática do traço da morte.
O caráter central antropogenético do contato com a morte no sistema hegeliano, conforme Kojève, evidencia a importância dessa situação da linguagem humana nas lições jenenses como articulação de uma voz animal que é, na verdade, voz da morte, abrindo-se a questão de por que esse contato íntimo entre linguagem e morte numa voz parece desaparecer no desenvolvimento posterior do pensamento hegeliano, indício encontrado no final da passagem de 1803 onde a voz é relacionada ao desejo, sendo si negativo e desejo.
Na Fenomenologia do Espírito, o contato antropogenético com a morte tem seu lugar na dialética do desejo, no combate pela vida ou pela morte entre senhor e servo, desembocando no reconhecimento (Anerkennen); aqui a experiência antropogenética da morte (die Bewährung durch den Tod) não ocorre numa Stimme, voz, mas numa Stimmung, a angústia e o medo diante da morte, pelos quais a consciência do servo se desprende de sua existência natural e se afirma como consciência humana, negatividade absoluta.
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Citação: se a consciência não experimentou o medo absoluto (die absolute Furcht), mas apenas algum medo particular, a essência negativa lhe permaneceu exterior e sua substância não foi intimamente contagiada por ela.
A consciência do servo, contagiada pelo negativo nessa experiência, torna-se capaz de conter o próprio desejo e formar a coisa no trabalho, alcançando assim o verdadeiro reconhecimento que escapa ao senhor, o qual só pode satisfazer o próprio desejo na pura negação da coisa e alcançar, no gozo, o puro sentimento de si, gozo que é necessariamente apenas um dissipar-se, carente de objetividade e consistência.
Entre a dialética voz-linguagem reconstruída nas lições jenenses e a dialética entre desejo e trabalho, servo e senhor, revela-se estreita correspondência, por vezes terminológica, pois assim como a voz é traço imediatamente dissipante, o gozo do senhor é apenas um dissipar-se, e assim como a linguagem detém e interrompe o puro som da voz, o trabalho é desejo refreado e contido; a correspondência mais profunda diz respeito ao estatuto único da voz e do gozo do senhor como figuras da pura negatividade e do Morto, estatuto que permanece na sombra no desenvolvimento da dialética hegeliana, que prossegue do lado do servo, ainda que seja na figura do senhor que a consciência humana emerge pela primeira vez da existência natural e articula a própria liberdade; ao arriscar a morte, o senhor é reconhecido pelo servo, não como animal, mas esse reconhecimento, por não provir de um ser ele mesmo reconhecido como humano, é unilateral e insuficiente para constituir o senhor como verdadeira e duravelmente humano, negatividade absoluta, de modo que seu gozo, embora realize a aniquilação da coisa que o desejo sozinho não consegue, é apenas um dissipar-se.
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O gozo do senhor, não mais animal e ainda não humano, não mais desejo e ainda não trabalho, mostra por um instante a articulação originária da faculdade da morte que caracteriza a consciência humana, do mesmo modo que a Voz, já não signo natural e ainda não discurso significante, constitui a articulação originária da faculdade da linguagem, coincidindo seu acontecer com a morte, sendo voz da morte, do senhor absoluto, conforme passagem das lições de 1805-1806 retomada textualmente na Ciência da Lógica: a morte do animal é o devir da consciência.
Ao mostrar em sua transparência inicial essa articulação das duas faculdades, a Voz aparece como figura originária e ainda não absolvida daquela ideia absoluta que, como único objeto e conteúdo da filosofia, é exposta ao final da Ciência da Lógica como a palavra originária (das ursprüngliche Wort) que habita no puro pensamento e está sempre já dissipada em cada proferir-se.
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Citação final: a lógica expõe o mover-se da ideia absoluta apenas como a palavra originária, que é um proferimento tal que, enquanto proferido, está imediatamente de novo dissipado ainda no proferir-se, sendo a ideia, assim, somente nessa autodeterminação de perceber-se (sich zu vernehmen), no puro pensamento onde a diferença ainda não é um ser-outro, mas é e permanece transparente a si mesma.
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A articulação negativa em seu estatuto originário dissipante é aquilo que Bataille, e o hegelismo francês dos discípulos de Kojève, procuraram reivindicar como possível experiência fundamental para além do horizonte da dialética hegeliana, sendo essa reivindicação do desejo, da Meinung, do gozo do senhor, em suma das figuras do Morto (das Tote), ou, como também se exprime Bataille, da negatividade sem emprego, perfeitamente legítima dado o estatuto fundamental que a elas compete no sistema hegeliano, ainda que pretender jogar essa negatividade contra o próprio sistema e fora dele seja igualmente impossível.
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À pretensão de quem quisesse reivindicar o gozo do senhor,
Hegel teria respondido justamente com o mistério eleusino que, no início da Fenomenologia, opõe à Meinung da certeza sensível: a consciência sensível é o fundamento de onde parte a dialética, mas sua verdade é ser puro nada, inapreensível e indizível, sendo recolhida pela pietas da Wahrnehmung apenas proferindo-a em palavras; do mesmo modo o gozo do senhor parece ter-se desprendido da dialética em seu dissipar-se imediato, mas desprendeu-se apenas como um nada que de modo algum pode ser dito ou apreendido, sendo nesse sentido sem emprego, restando como único modo de dizê-lo e captá-lo o do servo que o custodia, como nada, em seu trabalho.
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O problema é o da voz do senhor, pois, se este consegue verdadeiramente gozar e subtrair-se ao movimento da dialética, deve ter em seu prazer uma voz animal, ou antes divina, algo que o homem jamais consegue realizar, permanecendo preso ao discurso significante, o que significa que o gozo do senhor não é figura do humano, mas do animal ou antes do divino, e que dele só se pode calar ou, no limite, rir.
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Esse problema da satisfação ocupa o centro de uma carta inédita de Kojève a Bataille, datada de 8 de abril de 1952 e conservada na Bibliothèque Nationale de Paris, da qual são reproduzidos alguns trechos, começando Kojève por advertir Bataille de que o terreno em que este se meteu ao repropor a ideia de satisfação é um terreno escorregadio (glissant), que conduz fatalmente a uma farsa.
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Citação de Kojève sobre o terreno escorregadio: não escapa a Bataille que o terreno em que se engaja é escorregadio, pois engajar-se nele apenas pela metade, sem admitir que essa satisfação de que fala não é apreensível, sendo no fundo, no sentido mais perfeito, uma farsa, constitui falta de elementar polidez, sendo preciso encontrar um tom indefinível que não seja nem o da farsa nem o contrário, e sendo evidente que as palavras só saem da garganta sob a condição de serem sem importância, considerando Kojève que Bataille minimiza o interesse das expressões evasivas que emprega ao desembocar no fim da história, razão pela qual seu artigo agrada tanto a Kojève, por ser o modo mais derrisório, isto é, menos evasivo, de falar disso.
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Kojève desenvolve então sua crítica à posição de Bataille, observando que este talvez avance depressa demais, sem se preocupar em chegar a uma sabedoria ridícula, sendo necessário representar aquilo que faz coincidir a sabedoria com o objeto do riso, problema último que Kojève não crê que Bataille possa pessoalmente evitar, nunca tendo ouvido Bataille dizer nada que não fosse expressa e voluntariamente cômico ao chegar a esse ponto de resolução, sendo talvez essa a razão pela qual Bataille por vezes aceitou dar lugar à própria sabedoria de Kojève, opondo-os, contudo, o fato de que Bataille fala de satisfação e admite que haja motivo de riso, mas não que seja o próprio princípio da satisfação que seja risível.
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Kojève afirma então que o modo mais correto de colocar o problema não é o da satisfação, mas o da soberania, soberania essa que é a do sábio ao fim da história, na qual satisfação e insatisfação se identificam.
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Em outra carta a Bataille, de 28 de julho de 1942, Kojève desenvolvia considerações de certo modo análogas a respeito do problema da mística e do silêncio, segundo as quais conseguir exprimir o silêncio verbalmente é falar sem nada dizer, havendo infinitas maneiras de fazê-lo mas sendo o resultado sempre o mesmo, quando se consegue: o nada, razão pela qual todas as místicas autênticas se equivalem, falando do nada de modo adequado, isto é, não dizendo nada; quanto ao fato de os místicos também escreverem, como o próprio Bataille faz, Kojève pensa que enquanto místicos não teriam razão para fazê-lo, mas que um místico que escreve não é apenas místico, sendo também um homem ordinário com toda a dialética do Anerkennen, razão pela qual escreve, encontrando-se por isso no livro místico, à margem do silêncio verbalizado pelo discurso desprovido de sentido, um conteúdo compreensível, em particular filosófico, como ocorre em Bataille.
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Bataille caracteriza aquilo que chama experiência interior em termos filosóficos, como o contrário da ação e como adiamento da existência para mais tarde, ao que Kojève objeta que o que se segue ainda é compreensível e cheio de sentido, mas falso, isto é, simplesmente pagão, grego, ontologia do ser interminável, pois, dizendo Bataille adiamento da existência para mais tarde, pergunta Kojève se, como pensam os filósofos cristãos, essa existência não existe mais tarde, ou se, como é verdadeiro e como disse
Hegel, a existência não é outra coisa senão esse adiamento para mais tarde, sendo a existência, para falar com
Aristóteles, mal compreendido, uma passagem da potência ao ato, de modo que, quando o ato é integral, esgotou a potência, ficando sem potência, impotente, inexistente, não sendo mais, sendo a existência humana o adiamento para mais tarde, e esse mais tarde sendo ele mesmo a morte, o nada.
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Citação de Kojève sobre potência e ato,
Aristóteles, e o adiamento da existência como morte e nada.
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O augúrio final de Kojève, convidando a reentrar na perspectiva da sabedoria hegeliana, lembra a crítica da Meinung que abre a Fenomenologia.
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Citação de Kojève: deseja a Bataille passar da potência ao ato, da filosofia à sabedoria, reduzindo a nada o que é apenas nada, isto é, reduzindo ao silêncio a parte angélica de seu livro.
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Um pensamento que queira pensar para além do hegelismo não pode, em verdade, encontrar fundamento, contra a negatividade dialética e seu discurso, na experiência mística e, se coerente, necessariamente muda da negatividade sem emprego, devendo antes encontrar uma experiência de palavra que já não suponha nenhum fundamento negativo, vivendo-se hoje naquela franja extrema da metafísica em que esta retorna, como niilismo, até o próprio fundamento negativo, ao próprio Ab-grund, à própria infundabilidade, de modo que, se o aprofundar-se do fundamento não revela o ethos, a morada habitual do homem, mas se limita a mostrar o abismo de Sigé, a metafísica não é superada, mas reina em sua forma mais absoluta, ainda que essa forma, como sugere Kojève e como confirmam alguns aspectos da gnose antiga e da de Bataille, seja eventualmente a de uma farsa.