Se o nome — referido à substância divina, que é pura substância e “forma formatíssima” — decai de seu significado e já não significa nada (nihil significat, nas palavras de Alberto Magno), ou se transforma em pronome (isto é, passa da significação à indicação), o pronome, por sua vez, ao ser predicado de Deus, “decai da indicação”.
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sempre que por um pronome demonstrativo se fala de Deus, decai-se da demonstração, pois toda demonstração é ou ad sensum ou ad intellectum, mas Deus não pode ser apreendido pelo sentido, por ser incorpóreo, nem pelo intelecto, por carecer de forma, compreendendo-se antes o que ele não é do que o que ele é
Contudo, a função ostensiva do pronome é aqui mantida através do recurso àquela experiência particular da palavra que é a fé, pensada como lugar de uma indicação que não é nem sensível nem intelectual, pois em Donato a demonstração se faz ad intellectum, mas em Deus a demonstração se faz ad fidem.
É importante observar que a fé se define, aqui, como uma dimensão particular de significado, uma “gramática” particular do pronome demonstrativo, cujo cumprimento ostensivo já não se refere aos sentidos ou ao intelecto, mas a uma experiência que tem lugar unicamente na instância de discurso como tal (fides ex auditu).
Nessa perspectiva, com base na passagem da Sagrada Escritura (Êxodo 3.13) em que Deus, instado por Moisés a revelar-lhe seu nome (“si dixerint mihi: quod est nomen eius? quid dicam eis?”), responde “sic dices eis: qui est misit me ad vos”, o nome qui est, formado por um pronome e pelo verbo ser, é pensado como o nome mais congruente e “absoluto” de Deus.
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são Tomás define, em passagem decisiva, a dimensão de significado desse nome como aquela em que não se nomeia nenhum ser determinado, mas simplesmente, segundo uma expressão de Damasceno, “o mar infinito e indeterminado da substância”: ao quarto ponto deve-se dizer que os demais nomes dizem o ser segundo alguma outra determinação, assim como o nome sábio diz um certo ser, mas este nome qui est diz o ser absoluto e não determinado por qualquer outra especificação acrescentada, por isso Damasceno diz que ele não significa o que Deus é, mas, de certo modo, o mar infinito e quase indeterminado da substância
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quando se procede em direção a Deus pela via da negação, primeiro nega-se dele os atributos corporais, depois também os intelectuais tal como se encontram nas criaturas, como a bondade e a sabedoria, e então resta apenas em nosso intelecto o fato de que Deus é, e nada mais, como numa certa confusão; por fim retira-se dele também esse próprio ser, tal como ele é nas criaturas, e resta então como numa treva de ignorância, através da qual, no que toca à condição terrena, ótimo é o modo de nos unirmos a Deus, como diz Dionísio, sendo essa uma certa obscuridade em que se diz que Deus habita (Super I Sent., d.8, q.1, a.1)
Nas últimas palavras dessa passagem, também a dimensão universalíssima de significado do nome “qui est” é ultrapassada, sendo também o ser indeterminado retirado para dar lugar à pura negatividade de “uma obscuridade em que se diz que Deus habita”.
Para compreender a dimensão de significado aqui em questão, para além da vagueza que se costuma atribuir à teologia mística (que é, antes, uma gramática particular, mas perfeitamente coerente), é preciso ter presente que, nesse limite extremo do pensamento ontológico, em que se capta — como obscuridade — o próprio ter-lugar do ser, a reflexão teológica cristã se solda com a reflexão da mística judaica sobre o nomen tetragrammaton como nome secreto e impronunciável de Deus.
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são Tomás escreve a respeito desse nome que ainda mais próprio é o Tetragrammaton, que foi instituído para significar a própria substância incomunicável de Deus (adhuc magis proprium est Tetragrammaton, quod est impositum ad significandam ipsam Dei substantiam incommunicabilem)
Em hebraico, como em toda língua semítica, escreviam-se apenas as consoantes, sendo o nome de Deus transcrito pelo tetragrama IHVH (iod, hé, waw, hé), desconhecendo-se as vogais que entravam em sua pronúncia, porque, ao menos nos últimos séculos de sua existência nacional, era rigorosamente proibido aos israelitas pronunciar o nome de Deus.
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nos rituais usava-se o nome Adonai, Senhor, certamente já antes da tradução dos Setenta, que sempre traz Κύριος, o Senhor; quando, no século VI, os massoretas introduziram os pontos vocálicos na escrita, em lugar das vogais originárias já desconhecidas, aplicaram-se ao tetragrama as do nome Adonai, assumindo assim o tetragrama, para os hebraístas renascentistas, a forma Jehovah, com um abrandamento do primeiro a
Segundo uma antiga interpretação mística — já atestada em Mestre
Eckhart — o nome de quatro letras foi identificado com o nome qui est (ou qui sum).
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deve-se notar que Rabi Moisés, tratando desta palavra sum qui sum (Livro I, cap. 65), parece querer que esse seja o próprio nome tetragrammaton, ou próximo a ele, nome santo e separado, que se escreve e não se lê, e que designa apenas a substância nua e pura do criador
O que aqui se pensa como suprema experiência mística do ser e como nome perfeito de Deus (a “gramática” do verbo ser que está em questão na teologia mística) é a experiência de significado do próprio gramma, da letra como negação e exclusão da voz (nomen innominabile, “que se escreve mas não se lê”), sendo o gramma, como nome inominável de Deus, a última e negativa dimensão da significação, experiência já não de linguagem, mas da própria linguagem, isto é, de seu ter-lugar no retirar-se da voz, havendo, portanto, também do inefável uma “gramática”: o inefável é, antes, simplesmente a dimensão de significado do gramma, da letra como último fundamento negativo do discurso humano.