O poder político conhecido funda‑se sempre, em última instância, na separação de uma esfera da vida nua do contexto das formas de vida, sendo que no direito
romano vida não é conceito jurídico exceto na expressão vitae necisque potestas, onde vida é corolário do poder de matar, e o mesmo vale para o poder soberano, cuja fundação hobbesiana define a vida no estado de natureza pela exposição incondicionada à ameaça de morte e a vida política como essa mesma vida exposta à ameaça depositada nas mãos do soberano
-
vida no direito
romano não é conceito jurídico, mas indica simples fato de viver ou modo particular de vida
-
única exceção é vitae necisque potestas, poder de vida e morte do pater sobre o filho homem
-
Yan Thomas demonstrou que na fórmula vida não é senão corolário de nex, do poder de matar
-
fórmula não tem valor disjuntivo
-
poder de vida e morte do pater é célula originária do poder soberano (imperium)
-
na fundação hobbesiana a vida no estado de natureza é definida pela exposição incondicionada à ameaça de morte
-
direito ilimitado de todos sobre tudo caracteriza o estado de natureza
-
vida política sob o Leviatã é a mesma vida exposta à ameaça nas mãos do soberano
-
puissance absolue et perpetuelle define o poder estatal e funda‑se na vida nua conservada e protegida apenas na medida em que se submete ao direito de vida e morte do soberano ou da lei
-
este é o significado originário do adjetivo sacer referido à vida humana
-
estado de exceção é aquele no qual a vida nua, normalmente reunida às formas de vida social, é explicitamente colocada em questão como fundamento último do poder político
-
sujeito último a excetuar e incluir na cidade é sempre a vida nua
O diagnóstico de Benjamin de que o estado de exceção se tornou regra não perdeu atualidade, não apenas porque o poder se legitima unicamente pela emergência e trabalha secretamente para produzi‑la, mas sobretudo porque a vida nua, fundamento oculto da soberania, tornou‑se por toda parte a forma de vida dominante, separando em todos os âmbitos as formas de vida de sua coesão em uma forma‑de‑vida
-
poder não tem hoje outra forma de legitimação que não seja a emergência
-
poder faz apelo contínuo à emergência e trabalha secretamente para produzi‑la
-
vida nua, fundamento oculto da soberania, tornou‑se a forma de vida dominante
-
no estado de exceção tornado normal, a vida nua separa em todos os âmbitos as formas de vida de sua coesão em uma forma‑de‑vida
-
à cisão marxiana entre homem e cidadão sucede a cisão entre vida nua, portadora última da soberania, e múltiplas formas de vida abstratamente recodificadas em pessoas jurídico‑sociais
-
tais formas de vida repousam todas na vida nua
-
permutar essa vida nua separada de sua forma por soberania ou sagrado constitui o limite do pensamento de Bataille, tornado inservível
A tese de
Foucault de que a política se tornou biopolítica por estar a vida em jogo é substancialmente exata, mas decisivo é como se entende essa transformação, permanecendo não interrogado nos debates atuais sobre bioética e biopolítica o próprio conceito biológico de vida, do qual participam tanto o modelo da experimental life do cientista que faz da própria vida laboratório de experimentação ilimitada quanto o modelo que, em nome da sacralidade da vida, exaspera a antinomia entre ética individual e tecno‑ciência
-
aquilo que resta não interrogado é o próprio conceito biológico de vida
-
os dois modelos contrapostos por Rabinow participam ambos do mesmo conceito de vida nua
-
o conceito biológico de vida é na realidade um conceito político secularizado
-
do ponto de vista estritamente científico, segundo Medawar, o conceito de vida não tem significado intrínseco
-
discussões sobre o significado real das palavras vida e morte são índice de conversa de baixo nível em biologia
-
da secularização do conceito deriva a função da ideologia médico‑científica no sistema do poder
-
há uso crescente de pseudoconceitos científicos para controle político
-
a operação da vida nua, que o soberano podia atuar sobre as formas de vida, é agora maciça e cotidianamente atuada por representações pseudocientíficas do corpo, doença, saúde e pela medicalização de esferas cada vez mais amplas da vida e da imaginação
-
vida biológica, forma secularizada da vida nua, constitui as formas de vida reais em formas de sobrevivência
-
vida biológica permanece intocada como obscura ameaça atualizável na violência, estranheza, doença e acidente
-
vida biológica é o soberano invisível que governa por trás das máscaras dos poderosos