Na perspectiva da superação do niilismo e da redenção do caos,
Nietzsche situa a arte fora de toda dimensão estética, pensando-a no círculo do eterno retorno e da vontade de potência, de modo que a arte se apresenta como o traço fundamental da vontade de potência, na qual se identificam a essência do homem e a essência do devir universal, sendo arte o nome que
Nietzsche dá a esse traço essencial, expresso no valor arte pela vontade que reconhece a si mesma em toda parte do mundo.
-
Um fragmento de 1881 afirma o desejo de ter sempre de novo a experiência de uma obra de arte, devendo a vida ser plasmada de modo a alimentar esse desejo em cada uma de suas partes, enunciando-se só ao final a teoria da repetição de tudo o que existiu, uma vez inculcada a tendência a criar algo que possa florescer cem vezes melhor sob o sol dessa teoria.
-
Somente por pensar a arte nessa dimensão originária
Nietzsche pode afirmar que a arte tem mais valor que a verdade (Vontade de Potência, n. 853) e que se tem a arte para não sucumbir diante da verdade (Vontade de Potência, n. 882).
O homem que assume sobre si o peso mais grave da redenção da natureza é o homem da arte, aquele que, a partir das últimas tensões do princípio criativo, fez em si a experiência do nada que exige forma e converteu essa experiência na extrema aprovação dada à vida, na adoração da aparência entendida como eterna alegria do devir, alegria que traz em si a alegria do aniquilamento.
O homem que aceita em sua própria vontade a vontade de potência como traço fundamental de tudo o que é, e se quer a si mesmo a partir dessa vontade, é o super-homem, sendo super-homem e homem da arte a mesma coisa, e a hora da sombra mais curta, em que se abole a diferença entre mundo verdadeiro e mundo das aparências, é também o deslumbrante meio-dia do olimpo das aparências, o mundo da arte.
Como redenção do acaso, o mais alto dever do homem aponta para um tornar-se natureza da arte que é, ao mesmo tempo, um tornar-se arte da natureza, união nupcial em que se fecha o anel do eterno retorno, a áurea esfera bem redonda em que a natureza se liberta das sombras de Deus e o homem se naturaliza.
Num fragmento dos últimos anos,
Nietzsche evoca a afirmação de
Pascal de que, sem a fé cristã, o homem seria para si mesmo, assim como a natureza e a história, um monstro e um caos, declarando que essa profecia foi cumprida (Vontade de Potência, n. 83), sendo o homem da arte aquele que cumpriu a profecia de
Pascal e é, portanto, monstro e caos, ainda que esse monstro e esse caos tenham o rosto divino e o sorriso aliciante de Dioniso, deus que converte em sua dança o pensamento mais abissal na alegria mais alta, e em cujo nome, já desde o Nascimento da Tragédia,
Nietzsche quisera exprimir a essência da arte.
No último ano de lucidez,
Nietzsche muda os projetos de título do quarto livro da obra A Vontade de Potência, que passam a soar Redenção do Niilismo, Dioniso, filosofia do eterno retorno, Dioniso filósofo.
Na essência da arte, que atravessou até o fim seu próprio nada, domina a vontade, sendo a arte a eterna autogeração da vontade de potência, que se desprende tanto da atividade do artista quanto da sensibilidade do espectador para colocar-se como o traço fundamental do devir universal.
-
Um fragmento dos anos 1885-86 evoca a obra de arte ali onde aparece sem artista, por exemplo como corpo, como organismo, interrogando em que medida o artista não passa de um grande preliminar, sendo o mundo a obra de arte que dá à luz a si mesma.