Tanto os estudos centrados na prática química quanto os que ressaltam o itinerário espiritual têm em comum uma atenção insuficiente ao texto dos tratados e compilações alquímicas, que constituem nossa única fonte sobre o tema
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Esses textos somam um corpus interminável; quem hoje quiser aproximar-se do conhecimento da “Grande Obra” não pode evitar consultá-los, sejam os manuscritos alquímicos gregos editados por Berthelot, os volumes in-oitavo do Theatrum Chemicum, ou os da Bibliotheca chemica curiosa e do Museum Hermeticum, em que se reuniram, em vastas antologias graças ao fervor compilador dos eruditos do século dezessete, os ensinamentos dos “filósofos”
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O leitor que percorre esses textos não pode deixar de ter a impressão de enfrentar uma “literatura” singular, cujo conteúdo e formas são rigidamente codificados com monotonia e falsa modéstia que rivalizam com gêneros literários célebres por sua incomparável ilegibilidade — certos poemas alegóricos medievais ou romances pornográficos contemporâneos
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As “personagens” (um rei ou uma rainha, que são também o sol e a lua, o masculino e o feminino, ou enxofre e mercúrio), como em todo romance digno desse nome, atravessam toda sorte de vicissitudes, oficiam casamentos, têm relações sexuais, dão à luz, encontram dragões e águias, morrem (a experiência terrível do nigredo, a obra negra) e ressuscitam alegremente
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A trama, porém, permanece incompreensível até o fim, pois, na mesma medida em que os autores descrevem seus episódios, a narração — já enigmática e caótica — parece aludir incessantemente a uma prática extratextual, sem que se saiba se deve ocorrer num forno ou na alma do alquimista ou de seu leitor
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A impressão de obscuridade é frequentemente acentuada pelas imagens que adornam os manuscritos ou ilustram os livros impressos, tão fascinantes e alusivas que o leitor dificilmente consegue delas se desprender