A esse ser aproximativo, esse herói sem tarefa atribuível, é reservada a mais dura provação: o mysterium burocraticum da culpa e da punição
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Esse mistério foi pensado para ele, e somente nele encontra sua realização cerimonial; como Eichmann, o homem comum vive um momento feroz de glória durante o julgamento, que é, de todo modo, o único momento em que a opacidade de sua existência adquire um sentido que parece transcendê-lo
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Exatamente como na religião capitalista segundo Benjamin, trata-se de um mistério sem salvação nem redenção, em que culpa e punição foram integralmente incorporadas à existência humana, de modo que o mistério não pode revelar nenhum além a essa existência nem lhe conferir sentido compreensível
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Há o mistério, com seus gestos impenetráveis, seus eventos e fórmulas arcanas, mas tão achatado sobre a vida humana que coincide perfeitamente com ela e não deixa transparecer indício de outro lugar ou de justiça possível
É por consciência — ou antes, premonição — dessa imanência atroz que Franz Stangl, comandante do campo de extermínio de Treblinka, pôde declarar-se inocente até o fim e, ao mesmo tempo, conceder que sua culpa fora simplesmente ter-se encontrado onde estava, afirmando que sua consciência estava tranquila quanto ao que fizera, mas que ali estivera
Em latim, o vínculo que ata a culpa à punição chama-se nexus
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Nectere significa atar, e nexus é o nó, o vínculo com que se prende aquele que profere uma fórmula ritual
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As Doze Tábuas expressam esse nexus, sancionando que, quando alguém faz um vínculo e toma a coisa em mãos, conforme a língua o tiver pronunciado, assim seja o direito
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Pronunciar a fórmula equivale a realizar a lei, e quem assim diz o ius está obrigado, isto é, atado ao que disse, devendo responder por seu descumprimento, ou seja, tornando-se culpado
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Nuncupare significa literalmente tomar o nome, nomen capere, assim como mancipium remete ao ato de tomar em mãos (manu capere) a coisa a ser vendida ou comprada; quem tomou o nome e pronunciou a palavra estabelecida não pode retratá-la nem anulá-la: está atado à própria palavra e deverá cumpri-la
Bem observado, isso significa que o que une culpa e punição não é senão a linguagem
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Ter pronunciado a fórmula é algo irrevogável, assim como, para o ser vivo que um dia, não se sabe como nem por quê, começou a falar, é irrecusável ter falado, ter entrado na linguagem
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O mistério da culpa e da punição é o mistério da linguagem; a sentença que o homem está cumprindo, o julgamento contra ele em curso há quarenta mil anos, isto é, desde que começou a falar, nada mais é que a própria fala
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Tomar o nome, nomear a si mesmo e às coisas, significa poder conhecer e dominar a si mesmo e às coisas, mas significa também submeter-se aos poderes da culpa e da lei; por isso, o decreto último que se pode ler nas entrelinhas de todos os códigos e de todas as leis terrenas diz que a linguagem é a punição, e que todas as coisas devem nela entrar e nela perecer segundo a extensão de sua culpa
O mysterium burocraticum é, portanto, a comemoração extrema da antropogênese, do ato imemorial pelo qual o ser vivo, ao falar, tornou-se homem, atado à linguagem
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Por isso concerne tanto ao homem comum quanto ao poeta, tanto ao sábio quanto ao ignorante, tanto à vítima quanto ao carrasco
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E por isso o julgamento está sempre em curso, pois o homem não cessa de tornar-se homem e de permanecer desumano, entrando e saindo da humanidade, isto é, não cessa de acusar-se a si mesmo e de proclamar-se inocente, declarando, como Eichmann, estar pronto a se enforcar em público e, no entanto, ser inocente perante a lei
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E até que o homem consiga chegar ao fundo de seu mistério — o mistério da linguagem e da culpa, isto é, em última verdade, de seu ser e não ser ainda humano, de seu ser e já não ser animal — o Julgamento, no qual ele é ao mesmo tempo juiz e acusado, não deixará de ser adiado, repetindo continuamente seu non liquet