O verso de Dante é, nesse sentido, uma profecia que anuncia as pinturas tardias de Ticiano, como evidencia, por exemplo, a Anunciação conservada na igreja de San Salvador, em Veneza
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Diante dessa tela extraordinária, não se pode deixar de notar como, tanto nas nuvens acima das duas figuras quanto nas asas do anjo, a cor se acumula e ao mesmo tempo se escava naquilo que com razão se chamou um magma crepitante, em que “a carne treme” e “as luzes lutam com as sombras”
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Não surpreende que Ticiano tenha assinado essa obra com fórmula inusitada, Titianus fecit fecit: “fez e refez”, isto é, quase desfez
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O fato de radiografias terem revelado sob essa inscrição a fórmula habitual faciebat não significa necessariamente um acréscimo posterior; é possível que Ticiano a tenha apagado justamente para acentuar a peculiaridade de sua obra, que, segundo sugeriu Ridolfi — talvez recolhendo tradição oral remontando ao próprio Ticiano —, os comitentes consideraram “não reduzida à perfeição”
Dessa perspectiva, a inscrição que se lê embaixo, junto ao vaso de flores, ignis ardens non comburens — que remete ao episódio da sarça ardente na Bíblia e, segundo os teólogos, simboliza a virgindade de Maria —, pode ter sido inserida por Ticiano justamente para acentuar o caráter específico do ato de criação, que arde sobre a superfície da tela sem, no entanto, se consumir: metáfora perfeita de uma potência que está em chamas sem se esgotar
Por isso sua mão treme, mas esse tremor é maestria suprema; o que treme e quase dança na forma é a potência: ignis ardens non comburens
Daí decorre a pertinência das grandes figuras da criação que se encontram com tanta frequência na obra de Kafka, em que o grande artista se define precisamente por uma inabilidade absoluta a respeito de sua arte
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De um lado, está a confissão do grande nadador, que admite ter batido um recorde mundial sem saber explicar adequadamente como o conseguiu, já que, na verdade, nem sabe nadar, tendo sempre desejado aprender mas nunca tido oportunidade
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De outro lado, está a extraordinária cantora do povo dos camundongos, Josefina, que não apenas não sabe cantar, mas mal consegue assobiar como seus semelhantes, conseguindo, no entanto, precisamente assim, efeitos que um cantor treinado em vão tentaria alcançar entre eles, efeitos que só se produzem porque seus meios são tão inadequados
Talvez em nenhum outro lugar a ideia corrente da arte como saber ou hábito tenha sido tão radicalmente posta em questão quanto nessas figuras: Josefina canta com sua impotência de cantar, assim como o grande nadador nada com sua incapacidade de nadar
A potência de não não é outra potência justaposta à potência de: é sua inoperosidade, o que resulta da desativação do esquema potência/atualidade, havendo um vínculo essencial entre a potência de não e a inoperosidade
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Assim como Josefina, que, graças à sua incapacidade de cantar, expõe o assobio que todos os camundongos são capazes de emitir, libertando-o assim “dos grilhões da vida cotidiana” e mostrando-o em sua “verdadeira essência”, a potência de não, suspendendo a passagem ao ato, torna a potência inoperosa e a expõe como tal
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Ser capaz de não cantar é, antes de tudo, suspensão e exibição da potência de cantar, que não é simplesmente transferida ao ato, mas se volta sobre si mesma
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Não há potência de não cantar que precede a potência de cantar e que devesse ser anulada para que a potência se realize no canto: a potência de não é resistência interna à potência, que impede esta de se esgotar simplesmente no ato e a empurra a voltar-se sobre si mesma, a tornar-se potentia potentiae, isto é, a ser capaz de sua própria impotência
As obras — por exemplo, As Meninas — que resultam dessa suspensão da potência não representam simplesmente seu objeto: junto com ele apresentam a potência, a arte, com que foi pintado
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Do mesmo modo, a grande poesia não diz simplesmente o que diz, mas também o fato de estar dizendo, a potência e a impotência de dizê-lo
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A pintura é a suspensão e a exposição da potência do olhar, assim como a poesia é a suspensão e a exposição da linguagem
O modo como a tradição ocidental pensou a inoperosidade é como autorreferência, o voltar-se da potência sobre si mesma
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Num passo célebre do livro Lambda da Metafísica,
Aristóteles afirma que “o pensamento é pensamento do pensamento” (noeseos noesis)
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Essa fórmula aristotélica não significa que o pensamento toma a si mesmo como objeto, pois, se fosse o caso, haveria, parafraseando a terminologia da lógica, um meta-pensamento de um lado e um pensamento-objeto, pensado e não pensante, de outro
Como sugere
Aristóteles, a aporia diz respeito à própria natureza do nous, definido no De Anima como ser de potência (“não tem outra natureza senão a de ser potência” e “nenhum ser está em ato antes de pensar”), mas definido na Metafísica antes como ato puro, noesis pura
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Se pensa, mas pensa algo distinto que o domina, sua essência não será o ato de pensar, mas potência, e ele não poderia então ser a coisa melhor; se não é pensamento pensante, mas potência, a continuidade do ato de pensar lhe seria penosa
A aporia se resolve lembrando que, no De Anima,
Aristóteles escreve que o nous, quando cada um dos inteligíveis se atualiza, “permanece de certo modo potencial… e é então capaz de pensar a si mesmo”
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Enquanto na Metafísica o pensamento pensa a si mesmo (havendo ato puro), no De Anima há antes uma potência que, por ser capaz de não passar ao ato, permanece livre, inoperosa, e é assim capaz de pensar a si mesma: algo como uma potência pura
É esse resto inoperoso da potência que torna possível o pensamento do pensamento, a pintura da pintura, a poesia da poesia
Se a autorreferência implica um excesso constitutivo da potência sobre qualquer realização no ato, é preciso não esquecer que pensar corretamente a autorreferência implica, antes de tudo, a desativação e o abandono do dispositivo sujeito/objeto
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Nas telas de Velázquez ou de Ticiano, a pintura (a pictura picta) não é objeto do sujeito que pinta (a pictura pingens), assim como, na Metafísica de
Aristóteles, o pensamento não é objeto do sujeito pensante, o que seria absurdo
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A pintura da pintura significa simplesmente que a pintura (a potência de pintar, a pictura pingens) é exposta e suspensa no ato de pintar, assim como a poesia da poesia significa que a linguagem é exposta e suspensa no poema
O termo inoperosidade retorna repetidamente nessas reflexões sobre o ato de criação, sendo oportuno delinear ao menos alguns elementos do que se gostaria de definir como uma poética — ou política — da inoperosidade
Num passo da Ética a Nicômaco,
Aristóteles levanta a questão da obra do homem e sugere incidentalmente a hipótese de que o homem careça de uma obra específica, sendo essencialmente um ser inoperoso
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Assim como para um flautista, um escultor ou qualquer artista (technites), e em geral para todos os que têm uma obra (ergon) ou atividade (praxis), o bem e o bem-fazer parecem consistir nessa obra, assim deveria ser para o homem, se ele tem uma obra
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Ou dir-se-á que o carpinteiro e o curtidor têm função e atividade, e o homem enquanto tal não tem nenhuma? Terá nascido sem obra (argos, “inoperoso”)?
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Nesse contexto, ergon não significa simplesmente “trabalho”, mas define a energeia, a atividade ou o ser-em-ato específico do homem, no mesmo sentido em que
Platão já se perguntava qual era o ergon, a atividade específica, por exemplo, do cavalo
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A questão sobre a obra ou a ausência de obra do homem tem valor estratégico decisivo, pois dela depende não só a possibilidade de atribuir ao homem uma natureza ou essência específica, mas também, do ponto de vista aristotélico, a de definir sua felicidade e, portanto, sua política
Aristóteles logo abandona a hipótese de que o homem enquanto animal seja essencialmente argos, inoperoso, e que nenhuma obra ou vocação possa defini-lo
Propõe-se, ao contrário, levar essa hipótese a sério e, em consequência, pensar o homem como ser vivo sem obra
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Não se trata de hipótese incomum: para escândalo de teólogos, politólogos e fundamentalistas de toda espécie, ela ressurgiu repetidamente na história da cultura
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Refere-se aqui apenas a dois desses ressurgimentos no século vinte; o primeiro vem do campo da ciência, o extraordinário opúsculo escrito por Ludwig Bolk, professor de anatomia na Universidade de Amsterdã, intitulado Das Problem der Menschwerdung (O Problema da Antropogênese, 1926)
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Segundo Bolk, o homem não descende de um primata adulto, mas de um feto de primata que adquiriu a capacidade de se reproduzir, sendo, em outras palavras, um filhote de macaco evoluído como espécie autônoma
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Isso explica que, em relação aos outros seres vivos, o homem seja e permaneça um ser de potência, capaz de se adaptar a todos os ambientes, a todos os alimentos e a todas as atividades, sem que nenhuma delas jamais possa contê-lo ou defini-lo
O segundo exemplo, agora do campo das artes, é o peculiar panfleto de Kazimir Malevich, Inoperosidade como a Verdadeira Verdade da Humanidade
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Contra a tradição que vê no trabalho a realização do homem, afirma-se aqui a inoperosidade como “forma mais elevada da humanidade”, da qual o branco — o nível último alcançado pelo Suprematismo na pintura — se torna o símbolo mais apropriado
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Como todas as tentativas de pensar a inoperosidade, também esse texto — semelhante a seu precedente direto, O Direito à Preguiça de Lafargue — permanece preso a uma determinação negativa de seu próprio objeto, pois define a inoperosidade apenas e contrario em relação ao trabalho
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Enquanto para os antigos era o trabalho — negotium — que se definia negativamente em relação à vida contemplativa — otium —, os modernos parecem incapazes de conceber a contemplação, a inoperosidade e a festa de outro modo que não como repouso ou negação do trabalho
Buscando definir a inoperosidade em relação à potência e ao ato de criação, é claro que não se pode pensá-la como ociosidade ou inatividade, mas como práxis ou potência de tipo especial, que mantém relação constitutiva com sua própria inoperosidade
Na Ética, Spinoza usa um conceito útil para entender essa questão, chamando de acquiescentia in se ipso “uma alegria nascida do fato de o homem contemplar a si mesmo e sua potência de agir”
Trata-se de uma inoperosidade interna à própria operação, uma práxis sui generis que, na obra, antes de mais nada, expõe e contempla a potência, potência que não precede a obra, mas a acompanha, a faz viver e a abre a possibilidades
Compreende-se então a função essencial que a tradição da filosofia ocidental atribuiu à vida contemplativa e à inoperosidade: a verdadeira práxis humana é aquela que, tornando inoperosas as obras e funções específicas do ser vivo, as faz, por assim dizer, girar em vazio e, desse modo, as abre como possibilidades
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Contemplação e inoperosidade são, nesse sentido, os operadores metafísicos da antropogênese, que, libertando o ser vivo humano de qualquer destino biológico ou social e de qualquer tarefa predeterminada, o tornam disponível para aquela ausência particular de obra que se costuma chamar “política” e “arte”
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Política e arte não são tarefas nem simplesmente “obras”: nomeiam antes a dimensão em que as operações linguísticas e corporais — materiais e imateriais, biológicas e sociais — são desativadas e contempladas como tais
Talvez fique mais claro agora o que se entende por “poética da inoperosidade”, sendo a própria poesia talvez o modelo por excelência dessa operação que consiste em tornar inoperosas todas as obras humanas
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O que é a poesia senão uma operação na linguagem que desativa e torna inoperosas suas funções comunicativas e informativas, a fim de abri-las a um novo uso possível?
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Ou, nos termos de Spinoza, o ponto em que a linguagem, tendo desativado suas funções utilitárias, repousa em si mesma e contempla sua potência de dizer
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Nesse sentido, a Comédia de Dante, os Cantos de Leopardi e Il seme del piangere de Caproni são a contemplação da língua italiana; o sextino de Arnaut Daniel é a contemplação da língua occitânica; Trilce e os poemas póstumos de Vallejo são a contemplação da língua espanhola; as Iluminações de Rimbaud são a contemplação da língua francesa; os hinos de
Hölderlin e a poesia de Trakl são a contemplação da língua alemã
O que a poesia realiza para a potência de dizer, a política e a filosofia devem realizar para a potência de agir
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Tornando inoperosas as operações econômicas e sociais, mostram do que o corpo humano é capaz, abrindo-o a um novo uso possível
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Spinoza definiu a essência de cada coisa como desejo, o conatus de perseverar no próprio ser
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Cabe insinuar uma pequena reserva a esse grande pensador, sugerindo que é preciso introduzir também nessa ideia spinozista uma pequena resistência — como se viu a respeito do ato de criação
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Cada coisa deseja perseverar em seu ser, mas, ao mesmo tempo, resiste a esse desejo, torna-o inoperoso ao menos por um instante e contempla
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Trata-se, mais uma vez, de uma resistência interna ao desejo, de uma inoperosidade interna à operação, mas é ela, somente ela, que confere ao conatus sua justiça e sua verdade — numa palavra, e este é, ao menos na arte, o elemento decisivo, sua graça