Na Gestimmtheit, o Dasein está desde sempre aberto segundo uma disposição dada como o ente ao qual foi entregue em seu ser, como o ser que, existindo, tem de ser, sendo que aberto não significa reconhecido como tal, pois “o puro fato de que é se mostra: o de onde e o para onde permanecem na obscuridade”, e esse caráter de ser, encoberto em seu de onde e para onde, mas tanto mais aberto em seu próprio fato de ser, denomina-se ser-lançado, expressão que visa dar a entender a facticidade do ser-entregue-a, distinguindo-se esta da factualidade de um factum brutum de um ente simplesmente dado, pois a facticidade é caráter de ser do Dasein inerente à existência, ainda que inicialmente rejeitado
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ser-lançado como estrutura do Dasein
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obscuridade do de onde e do para onde
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distinção entre facticidade e factum brutum
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A facticidade, enquanto ser-lançado fático reconduzido por Heidegger à Geworfenheit, apresenta-se como categoria fundamental da analítica do Dasein, embora frequentemente não interrogada quanto à sua proveniência e estrutura própria, exigindo uma consideração detida de seus traços constitutivos
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O primeiro traço da facticidade é a ausweichende Abkehr, o desvio evasivo, pois a abertura do Dasein o entrega a algo de que não pode se subtrair, mas que lhe escapa e permanece inacessível em seu constante desvio, como indica a formulação segundo a qual a Befindlichkeit abre o Dasein em seu ser-lançado “em primeiro lugar e quase sempre no modo de seu desvio evasivo”, implicando desde o início uma espécie de repressão originária, designada por Heidegger como abgedrängt, isto é, deslocada ou rejeitada, mas não abolida, permanecendo sob a forma de ocultamento
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desvio evasivo como modo originário
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abgedrängt como repressão não eliminada
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permanência sob a forma de ocultamento
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O traço mais essencial da facticidade exprime-se nas fórmulas segundo as quais “o Dasein é entregue ao ente que ele é e tem de ser”, “o Dasein é e tem de ser o seu Da”, “o Dasein é em cada momento sua possibilidade” e “para o Dasein está em jogo, no seu ser, o seu próprio ser”, cujo sentido é esclarecido pelas lições de Marburg de 1938 ao definir Dasein como o ente para o qual seu modo de ser não é indiferente, o que implica que o Dasein é e tem de ser sua Weise, sua maneira ou guisa de ser, em uma formulação paradoxal que marca a experiência originária do ser e torna inteligível tanto a repetição da Seinsfrage quanto a relação entre essentia e existentia esboçada no parágrafo 9 de Sein und Zeit
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não indiferença do modo de ser
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Dasein como sua própria Weise
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centralidade da Seinsfrage
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As determinações clássicas de ontologia, existentia e essentia, quod est e quid est, Dasein e Wassein, contraem-se no Dasein em uma constelação de tensão análoga à indissociabilidade de on e poion afirmada por
Platão na Carta VII, como se expressa na formulação segundo a qual “a essência do Dasein jaz na sua existência”, e as características que nele se destacam não são propriedades disponíveis de um ente dado, mas modos possíveis de ser, sendo que “todo ser-assim desse ente é antes de tudo ser”, de modo que o Dasein deve existir sua essência e essentificar sua existência
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contração de essentia e existentia
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referência a Platão e à Carta VII
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modos possíveis de ser em vez de propriedades
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A facticidade, enquanto Seinscharakter, exprime o caráter ontológico originário do Dasein e fundamenta o gesto pelo qual Heidegger retoma a questão do sentido do ser e se distancia da ontologia tradicional, pois todo ser-assim é apenas uma mögliche Weise zu sein, um modo possível de ser, compreendido segundo a contração ontológica análoga ao possest de Nicolau de Cusa, no qual o ser e sua guisa são ao mesmo tempo discerníveis e uno
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Seinscharakter como caráter ontológico
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mögliche Weise zu sein como fórmula decisiva
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analogia com o possest de Nicolau de Cusa
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A raiz do desvio evasivo e da impropriedade constitutiva do Dasein encontra-se na exigência de que ele seja seu modo de ser, o que impede apropriação plena, pois o Dasein permanece fechado no que o abre, escondido no que o expõe e obscurecido pela própria luz da Lichtung, razão pela qual a ontologia heideggeriana pode ser entendida como hermenêutica da facticidade, que não se acrescenta ao Dasein posteriormente, mas se inscreve em sua estrutura como uma facticidade original, designada nas lições de 1928 como transcendentale Zerstreuung ou ursprüngliche Streuung, isto é, disseminação ou dispersão originária, constituindo “a possibilidade interna da disseminação fática no corpo próprio e, através disso, na sexualidade”, vinculando-se ainda à espacialidade do Dasein
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impropriedade como estrutural
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hermenêutica da facticidade
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transcendentale Zerstreuung e ursprüngliche Streuung
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relação com corporeidade, sexualidade e espacialidade