Infanzia e storia. Distruzione dell’esperienza e origine della storia
É nesta separação de experiência e ciência que devemos ver o sentido — nada abstruso, mas extremamente concreto — das disputas que dividiram os intérpretes do aristotelismo da antiguidade tardia e medieval a propósito da unicidade e da separação do intelecto e sua comunicação com os sujeitos da experiência. Inteligência (noûs) e alma (psyche) não são, de fato, para o pensamento antigo (e — pelo menos até São Tomás — também para o pensamento medieval), a mesma coisa, e o intelecto não é, como nós estamos acostumados a pensar, uma «faculdade» da alma: ele não lhe pertence de modo algum, mas «separado, impermisto, impassível», segundo a célebre fórmula aristotélica, comunica-se com ela para realizar o conhecimento. Consequentemente, o problema central do conhecimento não é, para a antiguidade, o da relação entre um sujeito e um objeto, mas o da relação entre o uno e o múltiplo. Por isso o pensamento clássico não conhece um problema da experiência como tal; aquilo que se coloca, para nós, como problema da experiência, apresenta-se naturalmente, para ele, como problema da relação (da «participação», mas também da «diferença», como dirá Platão) entre o intelecto separado e os indivíduos em sua singularidade, entre o uno e o múltiplo, entre o inteligível e o sensível, entre o humano e o divino. E é esta diferença que o coro da Oréstia de Esquilo sublinha, caracterizando — contra a hybris de Agamenon — o saber humano como um pathei mathos, um aprender somente através de e após um sofrimento, que exclui toda possibilidade de prever, ou seja, de conhecer com certeza coisa alguma.
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A expropriação da experiência estava implícita no projeto fundamental da ciência moderna, como se evidencia na formulação de Francis Bacon, para quem a experiência espontânea é acaso e a buscada é experimento, sendo a experiência comum comparada a uma vassoura solta e a um proceder às apalpadelas na noite, enquanto o verdadeiro ordenamento da experiência começa por “acender a luz”, iluminando o caminho a partir de uma experiência ordenada e madura, deduzindo primeiro os axiomas e depois procedendo a novos experimentos, o que implica a condenação sem apelo da experiência tradicional expressa em máximas e provérbios, condenação reforçada por Gottfried Wilhelm
Leibniz ao distinguir entre verdades de fato e verdades de razão, afirmando que “quando se espera que amanhã o sol nascerá, age-se como empírico, porque sempre foi assim até hoje; só o astrônomo julga com razão”, de modo que a ciência moderna nasce de uma desconfiança inédita em relação à experiência tradicional, definida por Bacone como “selva” e “labirinto”, e culmina, do olhar no perspicillum de Galileo Galilei, não em confiança na experiência, mas na dúvida de René
Descartes e na hipótese do demônio enganador
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Francis Bacon e a crítica à experiência comum
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distinção leibniziana entre verdades de fato e de razão
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metáforas da selva e do labirinto
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Galileo Galilei, Descartes e o demônio enganador
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A certificação científica da experiência no experimento, que permite deduzir impressões sensíveis em determinações quantitativas exatas e prever impressões futuras, responde à perda de certeza deslocando a experiência para fora do homem, nos instrumentos e nos números, mas com isso priva a experiência tradicional de valor, pois como mostram os Essais de Michel de Montaigne, última grande obra europeia inteiramente fundada na experiência, esta é incompatível com a certeza, e uma experiência calculável e certa perde sua autoridade, já que onde vigora uma lei científica não se pode formular máxima nem narrar história, sendo a matéria da experiência definida por Montaigne como “subjet informe, qui ne peut rentrer en production ouvragere” e incapaz de fundar qualquer juízo constante, pois “il n’y a aucune constante existence, ny de notre estre, ny de celui des objects… Ainsin il ne se peut establir rien de certain de l’un a l’autre…”
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experimento como quantificação da experiência
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Montaigne e a incompatibilidade entre experiência e certeza
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impossibilidade de máximas sob o regime da lei científica
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experiência como matéria informe e instável
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A ideia contemporânea de uma experiência separada do conhecimento contrasta com a tradição anterior à ciência moderna, na qual experiência e ciência possuíam lugares distintos e sujeitos diversos, sendo o sujeito da experiência o senso comum presente em cada indivíduo, identificado por
Aristóteles como o “princípio que julga” e pela psicologia medieval como vis aestimativa, enquanto o sujeito da ciência era o noûs ou intelecto agente, separado da experiência, impassível e divino, de modo que a própria noção moderna de sujeito como ego era desconhecida, pois o indivíduo era antes o subiectum no qual o intelecto agente, único e separado, atualizava o conhecimento
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distinção entre senso comum e noûs
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Aristóteles e a vis aestimativa medieval
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intelecto agente como impassível e divino
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ausência do sujeito moderno como ego
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As disputas do aristotelismo tardo-antigo e medieval acerca da unicidade e separação do intelecto esclarecem essa distinção, pois inteligencia, nous, e alma, psyche, não são idênticas no pensamento antigo e medieval até
Tomás de Aquino, e o intelecto não é faculdade da alma, mas separado, incommisto e impassivo segundo Aristóteles, comunicando-se com ela para realizar o conhecimento, de modo que o problema central não é a relação entre sujeito e objeto, mas entre uno e múltiplo, entre inteligível e sensível, entre humano e divino, diferença sublinhada pelo coro da Oresteia de Esquilo ao caracterizar o saber humano como pathei mathos, aprender pelo e após o padecimento, excluindo a possibilidade de prever ou conhecer com certeza
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nous e psyche como realidades distintas
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Aristóteles e a fórmula do intelecto separado
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participação e diferença entre uno e múltiplo
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Esquilo e o pathei mathos
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A experiência tradicional, como a de Montaigne, permanece fiel à separação entre saber humano e saber divino, configurando-se como experiência do limite que os separa, limite que é a morte, razão pela qual Montaigne formula o fim da experiência como aproximação da morte, antecipação que conduz o homem à maturidade, embora a morte permaneça um inexprimível e inexperienciável ao qual apenas se pode aproximar, “si nous ne pouvons le joindre, nous le pouvons approcher”, recomendando habituar-se a ela, “ostons luy l’estrangete, pratiquons le, n’ayon rien si souvent en teste que la mort”, mas ironizando os filósofos que pretenderam provar a morte para descrevê-la e “ils ne sont pas revenus nous en dire les nouvelles”
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morte como limite da experiência
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aproximação sem apreensão da morte
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ironia diante dos filósofos que quiseram provar a morte
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A ciência moderna, ao buscar a certeza, abole a separação entre experiência e ciência e faz da experiência o método da própria conhecimento, operando uma refundição da experiência e uma reforma da inteligência mediante a expropriação de seus sujeitos e a instauração de um novo sujeito único, pois a revolução científica não consistiu tanto na oposição da experiência à autoridade, mas na referência simultânea de conhecimento e experiência a um ponto arquimediano abstrato, o ego cogito cartesiano, a consciência
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método como caminho da experiência
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expropriação dos sujeitos tradicionais
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ego cogito como ponto arquimediano
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A interferência de experiência e ciência em um único sujeito universal e impassível reatualiza a liberação do pathei mathos e a conjunção do saber humano com o saber divino própria da experiência mistérica, já expressa na astrologia, na alquimia e na especulação neoplatônica, pois não na filosofia clássica, mas na religiosidade mistérica tardo-antiga, o limite entre humano e divino foi ultrapassado na ideia de um pathema indizível em que o iniciado experimenta a própria morte, “conhece o fim da vida”, segundo Pindaro, e adquire “previsões mais doces acerca da morte e do tempo consumado”
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sujeito universal como síntese de experiência e ciência
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continuidade com a religiosidade mistérica
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astrologia, alquimia e neoplatonismo
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