AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.
A Aproximação Heideggeriana entre o Pensamento do Ereignis e o Absoluto Hegeliano
A vizinhança problemática reconhecida pelo próprio Heidegger manifesta-se sob a forma de um distanciamento que sublinha mais as diferenças do que os traços comuns
No curso de 1936 sobre Schelling, Heidegger explicita a não identidade do Ereignis com o Absoluto:
O Ereignis “não é idêntico ao Absoluto, e tampouco é sua antítese, no sentido em que a finitude se opõe ao infinito”
“Com o Ereignis, pelo contrário, o próprio ser é experimentado como tal, não é posto como um ente, e muito menos como o ente incondicionado por excelência…”
No seminário sobre a conferência Tempo e Ser (1962), a proximidade e a diferença tornam-se explícitas:
Heidegger adverte contra a tentação de comparar o Ereignis, como o último e o mais alto, ao Absoluto de Hegel
Questiona-se a natureza da relação do homem com o Absoluto e a natureza da relação do homem com o Ereignis, donde surge uma diferença insuperável
Em Hegel, o homem é o lugar do advento do Absoluto a si mesmo, o que conduz à abolição (Aufhebung) da finitude do homem
Em Heidegger, pelo contrário, é precisamente a finitude — não só a do homem, mas também a do próprio Ereignis — que deve tornar-se visível (GA14:Sache, 53)
Pontos de convergência aparente e a diferença fundamental:
Tanto no Ereignis quanto no Absoluto está em questão o acesso a um próprio (eigen)
O ingresso do pensamento no próprio, no se, na simplicidade do idios e do ethos, é, paradoxalmente, a coisa mais difícil de pensar
Esse mais difícil de pensar apresenta-se como “a chegada de um ter-sido (Ankunft des Gewesen)” (GA12:Sprache, 154)
Definições fundamentais do Ereignis:
Em Tempo e Ser, o Ereignis é definido como a apropriação recíproca, a copertença (das Zusammengehören) de tempo e ser (GA14:Sache, 20)
Em Identidade e Diferença, o ser e o homem são conduzidos ao que lhes é próprio (GA11:Ident., 26)
A Finitude como Elemento Decisivo na Caracterização do Ereignis
Nas lições sobre a Fenomenologia do espírito (1930-31, GA32), Heidegger identifica a essência do Absoluto como “in-finita absolvição (un-endliche Absolvenz)”
O seminário sobre Tempo e Ser (GA14) confirma a interpretação do hegelianismo como uma Aufhebung da finitude do homem
A problematização hegeliana da infinitude sem a qual não se pode falar em Hegel sem introduzir o tema do fim da História
A necessidade de esclarecer o que Heidegger entende por “finitude” para medir a distância ou a proximidade entre Ereignis e Absoluto
A Determinação Heideggeriana da Finitude do Ereignis
Esclarecimento do próprio Heidegger no final do seminário sobre Tempo e Ser acerca do sentido dessa finitude:
A finitude do Ereignis, do ser e do Geviert diferencia-se da finitude do ser pensada a partir da relação com a infinitude (como no livro sobre Kant)
Trata-se agora da finitude pensada em si mesma: “finitude, fim, limite, o Próprio-ser a salvo no Próprio” (Sache, 58)
O novo conceito de finitude é pensado a partir do próprio Ereignis, isto é, a partir do conceito de propriedade
A ideia de fim, cumprimento e morada no próprio:
O pensamento que pensa a finitude em si mesma, sem referência ao in-finito, é o pensamento do finito como tal
Pensar o finito como tal significa pensar o fim da história do ser
O Fim da História do Ser e a Morada do Pensamento no Ereignis
A relação de pertença do ser ao Ereignis:
O Ereignis não é uma nova cunhagem (Pragung) do ser; pelo contrário, o ser pertence ao Ereignis, onde ele é retomado
Para o pensamento que mora no Ereignis, a história do ser terminou (ist… zu Ende), pois o ser que repousa no destino já não é propriamente o que tem de ser pensado
O pensamento está n’Aquilo e diante d’Aquilo (Jenem) que destinou as diversas figuras do ser epocal
Aquilo que destina como Ereignis é ele próprio não histórico, ou melhor, sem destino (ungeschichtlich, besser geschicklos)
A metafísica como história das cunhagens do ser:
Vista a partir do Ereignis, a metafísica é a história do subtrair-se do destinante em favor das destinações
As destinações são um a cada vez deixar-vir-à-presença o ente-presente
A metafísica é o esquecimento do ser, isto é, a história do ocultamento e da subtração do que dá o ser
A morada do pensamento no Ereignis e o fim da história do subtrair-se:
A morada do pensamento no Ereignis é sinônimo do fim da história do subtrair-se
O esquecimento do ser “suprime-se” [“hebt” sich “auf”] com o despertar-se no Ereignis
O Ocultamento Próprio ao Ereignis e a Expropriação (Enteignis)
A transformação do ocultamento:
O ocultamento que pertence como limite à metafísica deve tornar-se próprio ao Ereignis
A subtração que caracterizava a metafísica na figura do esquecimento do ser mostra-se agora como a dimensão do próprio ocultamento
Este ocultamento não se oculta; pelo contrário, a atenção do pensamento volta-se para ele
A morada do pensamento no Ereignis e o modo do ocultamento próprio ao Ereignis:
Com o fato de o pensamento morar no Ereignis, ocorre pela primeira vez o modo do ocultamento próprio do Ereignis
O Ereignis é em si mesmo expropriação (Enteignis)
Na palavra Enteignis é retomada, segundo o Ereignis, a lethe greco-arcaica, no sentido do ocultamento
A ausência de destino (Geschicklos) do Ereignis:
A ausência de destino não significa falta de toda “e-moção” (Bewegtheit)
Significa que o mundo da e-moção mais próprio ao Ereignis, o voltar-se no subtrair-se, mostra-se ao pensamento como o que se deve pensar
Para o pensamento que mora no Ereignis, a história do ser como o que se deve pensar chegou ao fim (Sache, 44)
As Questões Fundamentais para a Compreensão do Ereignis e o Limite da Interpretação Hermenêutica
As questões impostas pela letra do texto heideggeriano:
O que pode ser um destino que já não se subtrai no que é destinado?
O que pode ser um ocultamento que já não se oculta, antes se mostra ao pensamento como tal?
O que significa que a subtração, que caracterizava a metafísica na figura do esquecimento do ser, mostra-se agora como a “dimensão do próprio ocultamento”?
O que significa que o Ereignis é Enteignis?
O que significa pensar o ocultamento (a lethe) como tal?
A transformação radical do esquecimento:
Não se trata mais de algo (o ser) que sucessivamente se esquece e se oculta, um nome que se subtrai destinando-se em instâncias de discurso
Trata-se de um puro movimento de ocultação, sem escondido nem esconderijo, sem velado nem véu
Trata-se do puro destinar-se sem destino, do simples abandonar-se a si
O fim da história do ser e a despedida do ser e do tempo:
“A história do ser chegou ao fim”
O Ereignis é o lugar da “despedida do ser e do tempo” (Sache, 58)
O ser não destina mais nada, esgotou suas figuras — as figuras de seu esquecimento
O ser mostra-se agora como o puro destinar sem destino nem figura
O Próprio do homem e o alcançar-se recíproco:
Esse puro destinar sem destino surge como o Próprio do homem
Nele, ser e homem se alcançam um ao outro (“Menschen und Sein einander in ihrem Wesen erreichen” — GA11:Ident., 26)
O limite da interpretação hermenêutica:
Aquilo (Jenes) no qual e perante o qual está, por fim, o pensamento não é algo do qual se possa dizer que é, nem sequer na forma de um es gibt
Es gibt Sein, es gibt Zeit; mas o Es em si mesmo, em seu próprio, não denomina nenhuma entidade lexical, não indica nada de existente e de nomeável
O pensamento não tem mais a pensar a tradição ou a história — o destino
O pensamento tem a pensar o próprio destinante: o Próprio, o puro abandonar-se a si do que não tem propriedade nem destino, pura as-sue-tude (as-sue-fazione) e hábito
A Distância em Relação a Hegel: O Abandono (Verlassenheit) como Essência
A formulação radical da pergunta heideggeriana ao final do Curso de 1930-31 sobre a Fenomenologia do espírito:
“Deve e pode verdadeiramente o homem, como passagem (Ubergang), distanciar-se de si mesmo, para se abandonar como finito, ou não é antes sua essência precisamente o próprio abandono (Verlassenheit), no qual, somente, tudo o que pode ser possuído se torna para ele possuído?” (Hegels, 216)
O mais próprio, o ethos, o se do homem — do vivente sem natureza nem identidade:
É o próprio daimon
É o puro movimento sem destino que consiste em atribuir uma sorte e um destino
É o absoluto transmitir-se sem transmissão
O abandono de si a si como destino à tradição e à história:
Esse abandono de si a si é precisamente o que destina o homem à tradição e à história
Nessa tradição e história, o abandono fica escondido
É o infundado que vai ao fundo em todo fundamento
É o sem nome que, como não dito e intransmissível, transmite-se em todo nome e em toda transmissão histórica