Há um outro aspecto, nas fotografias amadas, que não convém esquecer: trata-se de uma exigência, pois o sujeito captado na foto exige algo de quem o vê, conceito de exigência que não deve ser confundido com necessidade factual, de modo que, mesmo que a pessoa fotografada estivesse hoje completamente esquecida, mesmo que seu nome tivesse sido apagado para sempre da memória dos homens, ainda assim — ou precisamente por isso — aquela pessoa, aquele rosto exigem seu nome, exigem não ser esquecidos.
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Benjamin devia ter algo semelhante em mente quando, a propósito das fotografias de Julia Margaret Cameron, escreve que a imagem da peixeira exige o nome da mulher que um dia esteve viva, sendo talvez por não suportarem essa muda interpelação que os espectadores, diante dos primeiros daguerreótipos, deviam desviar o olhar, sentindo-se por sua vez olhados pelas pessoas retratadas.
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No estúdio onde se trabalha, sobre um móvel ao lado da escrivaninha, repousa a fotografia, aliás bastante conhecida, do rosto de uma menina brasileira que parece fitar com severidade, sabendo-se com absoluta certeza que é e será ela a julgar, hoje como no último dia.
Mario expressou certa vez uma distância em relação a dois fotógrafos que admira, Cartier-Bresson e Sebastião Salgado, vendo no primeiro um excesso de construção geométrica e no segundo um excesso de perfeição estética, opondo a ambos sua concepção do rosto humano como uma história a contar ou uma geografia a explorar, sendo igualmente certo que a exigência que nos interpela a partir das fotografias nada tem de estético, sendo antes uma exigência de redenção, e a imagem fotográfica é sempre mais que uma imagem, sendo o lugar de um desvio, de uma fenda sublime entre o sensível e o inteligível, entre a cópia e a realidade, entre a lembrança e a esperança.
A propósito da ressurreição da carne, os teólogos cristãos perguntavam-se, sem encontrar resposta satisfatória, se o corpo ressuscitaria na condição em que se encontrava no momento da morte, talvez velho, calvo e sem uma perna, ou na integridade da juventude, tendo Origenes cortado essas discussões intermináveis ao afirmar que não será o corpo a ressuscitar, mas sua figura, seu eidos, sendo a fotografia, nesse sentido, uma profecia do corpo glorioso.
É sabido que Proust era obcecado pela fotografia e procurava por todos os meios obter as fotos das pessoas que amava e admirava, tendo um dos rapazes por quem se apaixonara aos 22 anos, Edgar Auber, oferecido a seu insistente pedido o próprio retrato, no verso do qual escreveu como dedicatória: olhe para meu rosto, meu nome é Poderia Ter Sido, também sou chamado de Nunca Mais, Tarde Demais, Adeus, dedicatória certamente pretensiosa, mas que exprime perfeitamente a exigência, tão viva em toda foto, de capturar o real que se perde para torná-lo novamente possível.
De tudo isso a fotografia exige que se recorde, e de todos esses nomes perdidos as fotos de Mario testemunham, semelhantes ao livro da vida que o novo anjo apocalíptico — o anjo da fotografia — segura entre as mãos ao fim dos dias, isto é, todo dia.