===== 9 Posfácio "O que é metafísica" ===== //Resumo em tópicos// 1. A pergunta "Que é metafísica?" (QEM) permanece um problema, sendo o presente pós-escrito, para quem persevera na pergunta, um prefácio ainda mais inicial, colocando a pergunta "Que é metafísica?" uma questão que vai além da metafísica, surgindo num pensamento que já entrou na superação ([[lx>termos:ü:uberwindung|Überwindung]]) da metafísica, fazendo parte, porém, da essência dessas transições ter de falar ainda, dentro de certos limites, a linguagem daquilo que ajudam a superar. 2. A circunstância particular que permitiu discutir a questão relativa à essência da metafísica não deve dar a ideia de que tal questão deva necessariamente partir das ciências, encontrando-se a pesquisa moderna, com outros modos e gêneros de representar e produzir o ente, envolvida no traço fundamental daquela verdade segundo a qual todo ente é caracterizado pela vontade de vontade, cuja aparição foi marcada pela "vontade de potência" que a prefigura. 3. A "vontade", entendida como traço fundamental da enticidade do ente, é a equiparação do ente ao real, de modo que a realidade do real é autorizada à factibilidade incondicionada da objetivação geral, não estando a ciência moderna a serviço de um fim que lhe tenha sido proposto, nem à busca de uma "verdade em si". 4. Não sendo senão um modo da objetivação calculante do ente, a ciência é uma condição posta pela própria vontade de vontade que assim assegura o domínio de sua essência, mas, como toda objetivação do ente se resolve em procurar-se e assegurar-se o próprio ente e, a partir daí, garantir-se a possibilidade de seu ulterior proceder, a objetivação detém-se no ente e já o toma pelo ser. 5. Todo comportar-se em relação ao ente testemunha assim um saber do ser, mas ao mesmo tempo a incapacidade de manter-se por si na lei ([[lx>termos:g:gesetz|Gesetz]]) da verdade desse saber, sendo essa verdade a verdade sobre o ente, e a metafísica a história dessa verdade, dizendo ela o que é o ente ao elevar a conceito a enticidade do ente. 6. Na enticidade do ente a metafísica pensa o ser, sem contudo poder pensar, no modo de seu pensamento, a verdade do ser, movendo-se a metafísica sempre no âmbito da verdade do ser que, porém, dito metaphisicamente, permanece para ela o fundamento desconhecido e infundado. 7. Mas, posto que não apenas o ente surge do ser, mas também, em sentido ainda mais inicial, o próprio ser repousa em sua verdade, e a verdade do ser desdobra sua essência ([[lx>termos:w:west|west]]) enquanto ser da verdade, é necessário então perguntar o que é a metafísica em seu fundamento, devendo esse perguntar pensar metafisicamente e ao mesmo tempo pensar a partir do fundamento da metafísica, isto é, já não mais metafisicamente, permanecendo tal perguntar ambíguo em sentido essencial. 8. Todo esforço, portanto, de seguir o percurso do pensamento de [[metafisica|QEM]] encontrará obstáculos, sendo bom que assim seja, porque com isso o perguntar se tornará mais autêntico, sendo toda pergunta conforme à coisa já uma ponte lançada em direção à resposta, e as respostas essenciais sendo sempre apenas o último passo das perguntas colocadas, passo que, contudo, não pode ser dado sem a longa série dos primeiros e dos passos seguintes. 9. A resposta essencial extrai sua força da insistência do perguntar, sendo apenas o início de uma responsabilidade em que o perguntar desperta de modo mais originário, não sendo por isso a pergunta autêntica retirada pela resposta encontrada. 10. As dificuldades de seguir o pensamento de [[metafisica|QEM]] são de dois tipos: umas surgem dos enigmas ocultos no âmbito do que ali é pensado, outras nascem da incapacidade e, muitas vezes, da falta de vontade de pensar, podendo já no âmbito do perguntar pensante perplexidades fugazes por vezes ajudar, e ainda mais aquelas meditadas com cuidado, dando algum fruto até mesmo os mal-entendidos grosseiros, provocados pelo furor de uma polêmica cega, devendo, porém, ao repensá-los, tudo ser retomado no abandono de uma meditação paciente. 11. As perplexidades e mal-entendidos prevalentes a respeito de nosso [[metafisica|QEM]] podem resumir-se em três teses fundamentais. * O [[metafisica|QEM]] faz do "nada" o objeto único da metafísica, mas, sendo o nada aquilo que é pura e simples nadidade, esse pensamento leva a crer que tudo é nada, de modo que não valeria a pena nem viver nem morrer, sendo uma "filosofia do nada" um "niilismo" consumado. * O [[metafisica|QEM]] eleva um único estado de ânimo, e ainda por cima deprimido, a angústia, a único estado de ânimo fundamental, sendo, porém, a angústia o estado psíquico dos cheios de "ansiedade" e dos covardes, repudiando esse pensamento a atitude serena da coragem, paralisando uma "filosofia da angústia" a vontade de ação. * O [[metafisica|QEM]] se pronuncia contra a "lógica", mas, contendo o intelecto os parâmetros de todo cálculo e ordenamento, esse pensamento remete o juízo sobre a verdade a um estado de ânimo casual, sendo uma "filosofia do mero sentimento" um perigo para o pensamento "exato" e para a segurança do agir. **Resposta à primeira tese: o nada e o ser** 12. A resposta correta a essas teses brota de uma reflexão renovada sobre o [[metafisica|QEM]], sendo preciso verificar se o nada, que determina a angústia em sua essência, se esgota numa vazia negação de todo ente, ou se aquilo que jamais e em nenhum caso é um ente não se desvela antes como aquilo que se diferencia de todo ente e que chamamos o ser. 13. Onde quer que, e por mais que toda investigação vá em busca do ente, ela jamais encontra o ser, mas encontra sempre e somente o ente, porque desde o início ela se obstina no âmbito do ente com a intenção de explicá-lo, não sendo, porém, o ser uma qualidade existente do ente, não se deixando o ser, diferentemente do ente, representar e produzir como objeto. 14. Esse absolutamente outro em relação a todo o ente é o não-ente, mas esse nada desdobra sua essência (west) enquanto ser, sendo, com uma explicação simplista, renunciar precipitadamente demais a pensar, se despacharmos o nada como mera nadidade equiparando-o ao que é privado de essência. 15. Em vez de ceder à precipitação de uma vazia perspicácia e abandonar a enigmática plurivocidade do nada, devemos apenas nos preparar e estar prontos a experimentar no nada a vastidão daquilo que dá a todo ente a garantia de ser, sendo isso o próprio ser. 16. Sem o ser, cuja essência abissal, ainda não desdobrada, nos é destinada pelo nada na angústia essencial, todo ente ficaria privado de ser, mas, de novo, também essa ausência de ser, enquanto abandono do ser, não é um nada nulo, se é verdade que pertence à verdade do ser que jamais o ser desdobra sua essência (west) sem o ente, e que jamais um ente é sem o ser. **Resposta à segunda tese: a angústia** 17. Uma experiência do ser como experiência do outro em relação a todo ente é-nos dada pela angústia, desde que não nos subtraiamos, por "angústia" diante da angústia, isto é, na mera ansiedade do medo, à voz silenciosa que nos toma no assombro do abismo. 18. Se, porém, na referência a essa angústia essencial, abandonarmos arbitrariamente o caminho seguido pelo pensamento deste [[metafisica|QEM]] e desligarmos a angústia, enquanto estado de ânimo conotado por essa voz, do referimento ao nada, resta-nos então a angústia como "sentimento" singular, que podemos distinguir de outros sentimentos e analisar no conhecido sortimento de estados psíquicos que a psicologia fica a observar de boca aberta. 19. Seguindo aquela distinção simplista entre o "para cima" e o "para baixo", os "estados de ânimo" podem então ser arrolados nas classes dos que exaltam e dos que deprimem, mas a zelosa caça aos "tipos" e "contratipos" de "sentimentos", às variedades e subespécies desses "tipos", deixará sempre escapar a presa. 20. Essa pesquisa antropológica do homem permanece, portanto, sempre fora da possibilidade de entrar no andamento do pensamento do [[metafisica|QEM]], porque este pensa a partir da atenção à voz do ser, saindo para o acordo que dessa voz provém e que reclama o homem em sua essência, para que ele aprenda a experimentar no nada o ser. 21. A disponibilidade para a angústia é o sim à insistência em satisfazer a exigência suprema, a única que atinge em cheio a essência do homem, experimentando o homem, único entre todos os entes, chamado pela voz do ser, o assombro de todos os assombros: que o ente é. 22. Quem, portanto, em sua essência, é chamado à verdade do ser, está por isso sempre disposto num estado de ânimo de modo essencial, garantindo a clara coragem para a angústia essencial a misteriosa possibilidade da experiência do ser, pois perto da angústia essencial e do assombro do abismo habita o temor, dirando (lichtet) e custodiando a angústia aquele lugar habitado pelo homem, no interior do qual ele mora estavelmente como em casa. 23. A "angústia" diante da angústia pode desorientar a tal ponto que se desconheçam os referimentos mais simples na essência da angústia; que seria toda coragem se não encontrasse na experiência da angústia essencial seu constante correspondente? 24. Na medida em que degradamos a angústia essencial e o referimento, nela clareado, do ser ao homem, na mesma medida rebaixamos a essência da coragem, sendo a coragem capaz de sustentar o nada porque reconhece no abismo do assombro ([[lx>termos:s:schrecken|Schrecken]]) o espaço quase inviolado do ser, de cuja clareira somente todo ente retorna àquilo que é e que pode ser. 25. Este [[metafisica|QEM]] não cultiva uma "filosofia da angústia", tal como não busca suscitar a impressão de uma "filosofia heroica", pensando apenas aquilo que ao pensamento ocidental se revelou desde seu início como o que há a pensar, e que, contudo, permaneceu esquecido: o ser, não sendo, porém, o ser um produto do pensamento, sendo antes o pensamento essencial um acontecimento do ser. **Resposta à terceira tese: a "lógica"** 26. Por isso torna-se agora necessário colocar também a pergunta, quase nunca explicitada, se esse pensamento já se encontra na lei de sua verdade quando se limita a seguir aquele pensamento que a "lógica" compreende em suas fórmulas e regras. 27. Por que o [[metafisica|QEM]] põe essa palavra entre aspas? Para indicar que a "lógica" é apenas uma interpretação da essência do pensamento, precisamente aquela que repousa, como diz o nome, sobre a experiência do ser alcançada no pensamento grego, brotando a suspeita quanto à "lógica" — de que a logística pode ser considerada a consequente degeneração — do saber daquele pensamento que encontra sua nascente na experiência da verdade do ser, e não na consideração da objetividade do ente. 28. O pensamento exato nunca é o pensamento mais rigoroso, se é verdade que o rigor recebe sua essência do tipo de esforço com que o saber mantém de cada vez o referimento ao essencial do ente, vinculando-se o pensamento exato apenas ao acerto de contas com o ente, e servindo exclusivamente a isso. 29. Todo calcular resolve o numerável no numerado, para depois poder empregá-lo na numeração seguinte, não consentindo o calcular que surja outra coisa senão o numerável, sendo cada coisa apenas aquilo que ela "conta", assegurando o que de cada vez é numerado o processo do numerar. 30. Este último usa progressivamente os números e é ele mesmo um contínuo consumir-se, valendo o fato de que as contas com o ente fecham como explicação do ser deste último, usando o calcular desde o início todo o ente como aquilo que é numerável e desgastando na numeração o que é numerado, denunciando esse uso que desgasta o ente o caráter consuntivo do cálculo. 31. Somente porque o número é aumentável ao infinito, e isso indistintamente na direção do grande e do pequeno, a essência consuntiva do cálculo pode esconder-se atrás de seus produtos e fornecer ao pensamento calculante a aparência de produtividade, ao passo que já antecipadamente, e não apenas em seus resultados sucessivos, valoriza o ente apenas na forma de sua disponibilidade e consumibilidade. 32. O pensamento calculante constrange a si mesmo na constrição de dominar tudo do ponto de vista da coerência de seu proceder, não conseguindo sequer supor que tudo o que é calculável do cálculo já seja um todo antes das respectivas somas e produtos calculados, um todo cuja unidade certamente pertence ao incalculável que subtrai a si mesmo e seu caráter desconcertante às garras do cálculo. 33. Contudo, aquilo que em toda parte e sempre é desde o início vedado à pretensão do cálculo, e no entanto está desde sempre, mesmo em sua enigmática incognoscibilidade, mais próximo do homem do que qualquer ente em que o homem instale a si e seu propor, pode às vezes conceder a essência do homem num pensamento cuja verdade escapa a qualquer "lógica". 34. O pensar cujos pensamentos não apenas não calculam, mas em geral são determinados pelo outro em relação ao ente, chame-se pensamento essencial, prodigalizando-se este, em vez de fazer contas com o ente contando com o ente, no ser pela verdade do ser. 35. Esse pensamento responde à exigência do ser, na medida em que o homem confia sua essência histórica à simplicidade daquela única necessidade que obriga sem constranger, mas criando a necessidade que se satisfaz na liberdade do sacrifício, sendo essa necessidade que a verdade do ser seja salvaguardada, aconteça o que acontecer ao homem e a todo ente. 36. O sacrifício é o prodigalizar-se do homem na salvaguarda da verdade do ser para o ente, prodigalizar-se subtraído a toda coação, por brotar do abismo da liberdade, acontecendo no sacrifício aquela secreta gratidão que, só ela, permite apreciar a gratuidade com que o ser, no pensamento, se transmitiu ([[lx>termos:ü:ubereignet|übereignet]]) à essência do homem, para que este, no referimento ao ser, assuma a guarda do ser. 37. O pensamento inicial é o eco do favor do ser em que se clareia ([[lx>termos:s:sich-lichtet|sich lichtet]]) e se deixa acontecer (sich ereignen läßt) esta única coisa: que o ente é, sendo esse eco a resposta do homem à palavra pronunciada pela voz silenciosa do ser. 38. A resposta ([[lx>termos:a:antwort|Antwort]]) do pensamento é a origem da palavra ([[lx>termos:w:wort|Wort]]) humana, aquela palavra que, só ela, faz surgir a linguagem como dição da palavra em vocábulos, não conseguindo o homem histórico, se por acaso não houvesse um pensar ([[lx>termos:d:denken|Denken]]) escondido no fundamento essencial de seu ser, jamais agradecer ([[lx>termos:d:danken|Danken]]), posto que em todo repensar ([[lx>termos:b:bedenken|Bedenken]]) e em todo agradecer ([[lx>termos:b:bedanken|Bedanken]]) deve haver ainda um pensamento que pense de modo inicial a verdade do ser. 39. Como poderia jamais uma humanidade chegar ao agradecimento originário se o favor do ser, através do aberto referimento a si mesmo, não concedesse ao homem a nobreza daquela pobreza em que a liberdade do sacrifício esconde o tesouro de sua essência? 40. O sacrifício é a despedida do ente no caminho que salvaguarda o favor do ser, podendo certamente ser preparado e auxiliado pelo trabalhar e operar no ente, mas por meio destes jamais podendo ser cumprido, brotando sua efetivação apenas da insistência a partir da qual todo homem histórico, agindo — sendo também o pensar essencial um agir —, conserva o ser-aí adquirido para a salvaguarda da dignidade do ser. 41. Essa insistência é a impassibilidade que não se deixa perturbar em sua secreta disponibilidade àquela despedida que é a essência de todo sacrifício, sendo o sacrifício próprio da essência do acontecimento em que o ser reclama o homem para a verdade do ser, razão pela qual o sacrifício não tolera nenhum cálculo segundo o qual de cada vez se o conte como útil ou inútil, sejam os fins postos alto ou baixo, deformando semelhante cálculo a essência do sacrifício. 42. A cobiça de fins perturba a clareza do temor, pronto à angústia, do espírito de sacrifício que se acreditou capaz da proximidade ao indestrutível. **O pensamento do ser, a linguagem e a poesia** 43. O pensamento do ser não busca no ente nenhum apoio, atentando o pensamento essencial aos lentos sinais daquilo que escapa a todo cálculo, e reconhecendo neles o imprevisível advento do inelutável, estando esse pensamento atento à verdade do ser e assim auxiliando o ser da verdade a encontrar seu lugar na história da humanidade. 44. Esse auxílio não é causa de sucessos, porque não necessita de efeitos, sendo o pensamento essencial de ajuda como simples insistência ([[lx>termos:i:instandigkeit|Inständigkeit]]) no ser-aí, na medida em que nela se inflama algo semelhante, sem que ele possa dispor disso ou sequer ter conhecimento. 45. Dando ouvidos à voz do ser, o pensamento lhe busca a palavra de que a verdade do ser vem à linguagem, estando a linguagem do homem histórico em seu lugar apenas se brota da palavra, e, só se está em seu lugar, prospecta-se-lhe a garantia da muda voz das fontes ocultas. 46. O pensamento do ser protege a palavra, e nesse cuidado cumpre sua missão, sendo ele o cuidado pelo uso da linguagem, vindo do silêncio longamente custodiado e da acurada clarificação do âmbito nele clareado o dizer do pensador, provindo da mesma fonte o nomear do poeta. 47. Mas, sendo o semelhante semelhante apenas na medida em que é distinto, e assemelhando-se o poetar e o pensar do modo mais puro no cuidado com a palavra, estão ao mesmo tempo separados em sua essência por uma distância grandíssima, dizendo o pensador o ser, nomeando o poeta o sagrado. 48. Como, pensados a partir da essência do ser, o poetar, o agradecer e o pensar se remetem mutuamente e são ao mesmo tempo divididos, permanece aqui questão em aberto, brotando presumivelmente o agradecer e o poetar, de modo diverso, do pensar inicial de que se nutrem, sem poderem ser por si um pensar. 49. Sabe-se decerto algo sobre a relação entre a filosofia e a poesia, mas nada sabemos do diálogo entre o poeta e o pensador que "habitam próximos em montes bem separados". **O silêncio, o nada e o encerramento** 50. Um dos lugares essenciais do silêncio é a angústia no sentido do assombro em que o abismo do nada dispõe o homem, sendo o nada, enquanto outro em relação ao ente, o véu do ser, estando já, desde o início, no ser, todo destino do ente cumprido. 51. O último poema do último poeta na Grécia dos inícios, o Édipo em Colono de Sófocles, encerra-se com a palavra que se dirige de modo impensável à história secreta desse povo, custodiando sua entrada na desconhecida verdade do ser: "Cessai, pois, e nunca mais desperteis o pranto; em toda parte, com efeito, o acontecido guarda em si custodiada uma decisão de cumprimento". {{tag>GA9 metafísica nada ser pensar angústia}}